Dia Internacional dos Museus – Comemoração no Museu MunicipalAlunos de Santiago do Cacém vão ser armados cavaleiros

Por Jornal Rostos
Está prevista a visita com animação histórica ao Museu Municipal, onde as crianças são convidadas a interagir na animação.
Duas turmas do 1º e 3º ciclo da Escola EB 2/3 Frei André da Veiga e Secundária Manuel da Fonseca vão participar nas comemorações. As visitas ao Museu Municipal estão marcadas para as 10h00 e para as 14h00.
Dois momentos onde será recriada a época do Rei D. Manuel I com leitura do Foral de Santiago.
Tudo foi preparado ao pormenor:
Programa:
Entrada: Mestre de Cerimónias - Recepção das crianças, noção de posturas e cortesias
Recepção: Rei, Rainha e Mestre-de-cerimónias – As crianças são apresentadas aos Reis, os rapazes serão armados cavaleiros e as raparigas terão o título de Damas.
No final o Rei e a Rainha dança uma dança Renascentista.
Santiago do Cacém ao tempo do foral manuelino
No início do século XVI, Santiago do Cacém era um concelho com alguma importância ao nível regional. Por esse tempo, o concelho pertencia à Ordem de Santiago e Espada, sendo o segundo maior contribuinte da Ordem e pertencendo à mesa mestral, ou seja os rendimentos da comenda eram destinados à manutenção da casa do mestre da Ordem. O concelho, que se estendia desde a costa, onde se situavam as ermidas de Santo André e Santa Marinha de Melides, até aos montados do interior alentejano, onde se localizavam, por exemplo, a ermida de Nossa Senhora do Roxo.
O alcaide-mor e comendador, em 1510, era D. Alonso Peres Pantoja, fidalgo da casa real. A família Pantoja dominava Santiago do Cacém desde 1477, data dos escambos entre Pêro Pantoja (pai do comendador ao tempo do foral manuelino) e D. João II, à altura príncipe regente e mestre da Ordem de Santiago e Espada. Estes escambos deviam-se à participação da família na Guerra da Sucessão de Castela e, principalmente, na batalha de Toro, em 1476, pelo lado português, que era o da princesa D. Joana, a Beltraneja, sobrinha de D. Afonso V de Portugal, opondo-se ao lado aragonês, de Isabel, a Católica, esposa do rei Fernando II de Aragão.
Para além de Alonso Peres, outros nomes sonantes traduziam a importância da vila, tais como Manuel Pessanha, vedor das obras dos muros e castelo, mordomo da capela de N. Srª (na Igreja Matriz) entre 1514 e 1517; D. Isabel Fogaça, administradora das capelas de Santo Estêvão e de Martins Vinagre; Afonso Anes, alcaide menor e antigo criado do infante D. Fernando (pai do rei D. Manuel I); Leonel Rodrigues, escudeiro-mor; ou Vasco Nunes Corte Real. Entre os residentes no concelho e na sua sede, principalmente os detentores de ofícios como juízes, escrivães, tabeliães ou almoxarifes, não faltam servidores da casa real ou da pequena corte dos Pantoja, que também eram proprietários ou rendeiros de terras.
A economia do concelho era maioritariamente agrícola e pecuária, não faltando referências a propriedades, quintas, herdades, reguengos, terras de pão, pomares e vinhas (havia muitas ao redor de Santiago do Cacém, por exemplo logo na encosta de Vale Matanças). Na documentação surgem referencias a gados e pastagens, assim como ao Poço do Pelome, localizado no actual Parque da Quinta do Chafariz, o que indicia a existência de uma importante indústria de curtição de peles. Na ribeira de Torres, em Santo André, estavam um forno de cal e moinhos. Em Melides também havia moinhos, e um pinhal com um forno de pez. Para além destas actividades, surgem igualmente indícios da existência de mercadores, oleiros, barqueiros e apicultores.
Alguns investigadores, que se têm debruçado sobre a história dos judeus em Portugal, fazem alusão à importante comunidade judaica de Santiago de Santiago do Cacém. A existência desta comunidade e a sua importância são confirmadas por dois documentos do século XV: a doação feita ao chanceler-mor D. Álvaro de Bragança, irmão do duque D. Fernando II, das rendas do serviço novo e velho das judiarias de Sines, Colos e Santiago do Cacém, em Dezembro de 1479, e o traslado do foral da sisa velha, efectuado em 1477 pelo tabelião público de Santiago do Cacém, Estêvão Lourenço, a pedido do judeu Judas Abraão, morador na dita vila e rendeiro da sisa velha da mesma localidade. Apesar da conversão forçada dos judeus, em 1497, ainda se podiam seguir os traços da presença da minoria judaica, e também da muçulmana, em Santiago do Cacém. A visitação da Ordem de 1517/18 faz referência a um quintal situado «nas costas da Rua Nova que foi judiaria», situado entre a Rua dos Mercadores (actual Rua Padre António de Macedo) e o «caminho de serventia do concelho que vai para o castelo». O mesmo documento alude a uma Rua de Bernabás localizada nas proximidades, provavelmente a antiga mouraria, onde talvez tenha vivido o mouro António de Tunes, preso em 1557 pela Inquisição de Évora, acusado de islamiza .
Segundo um documento datado de 1532, publicado em 1906 no Archivo Histórico Portuguez, e que faz a listagem das terras das ordens militares da comarca “d’amtre Tejo e Odiana”, a vila de Santiago do Cacém possuía 218 moradores. No início do século XVI, o número de habitantes não devia de ser muito diferente, repartindo-se por cerca de meia dúzia de arruamentos identificados na referida visitação: as já referidas ruas Nova (antiga Judiaria), de Bernabás e dos Mercadores, mas também as ruas Quente (hoje Rua Fonseca Achaiolli), do Sant’Esprito ou do Curral do Concelho, a Praça do Sant’Esprito e o Rossio de Santa Maria. Para além destes, deveriam existir ainda a antiga Carreira (actual Rua Condes de Avillez), um dos primeiros arruamentos extra-muros de Santiago do Cacém, datado dos inícios do século XIV, ou a Rua Direita (actual Rua Dr. Francisco Beja da Costa), uma artéria definidora da povoação por seguir direito à então entrada principal do castelo (tal como acontecia com as suas congéneres noutras vilas portuguesas). A não inclusão destas duas ruas na visitação deve-se, muito provavelmente, à inexistência de propriedades da Ordem de Santiago ou das instituições religiosas da vila confrontantes com elas. Já fora dos limites da povoação nascia, neste início do século XVI, um novo arruamento, a Rua da Olaria (hoje Largo Alexandre Herculano).
Nos arrabaldes da vila, num lugar identificado como «de trás das casas», alinhavam-se algumas courelas. A Norte, na encosta de Vale Matanças, ficavam várias vinhas, mas a Sul, onde se situava o reguengo da Ordem, estavam os pomares e hortas do Rio da Figueira, próximo do porto (de passagem a vau) do dito curso de água e do local onde as mulheres lavavam. Por estas terras passava então a estrada de Sines que, saindo da Travessa da Rua Quente, seguia direito ao Porto Cacém (provável antecessor da actual Ponte Cacém, que talvez tenha sido construída na mesma centúria). Para além do Rio da Figueira vinha o pomar da Fonte Santa, referida pelos visitadores como fonte de beber; depois a quinta do Vinagre, pertencente à capela de Martins Vinagre; antes da Cruz da Fonte da Figueira, onde seguia o caminho para os Chãos e para o convento de Nossa Senhora do Loreto, que recebia o panteão dos Pantoja.
Antes da Ermida de S. Brás, rodeada pelo por terras de semeadura, pomar e olival, ficavam as terras do Caro Custa e as vinhas dos Celões. Em Valverde existia uma azenha e também vinhas e pomares; ao Pinheiro da Parda, um ferragial, e nos Escatelares, mais pomares.
Rodeado de árvores de fruto e cursos de água, Santiago do Cacém no século XVI, era um lugar aprazível, idílico e imponente, dominando do alto do cerro do castelo um vasto território agrícola e pecuário. A sede de concelho era também, para a época, uma grande povoação, com muito mais habitantes dos que as vizinhas vilas de Ferreira, Aljustrel, Messejana, Alvalade, Sines, Milfontes, Odemira, Colos e Garvão. Orgulhosa dos seus pergaminhos e da sua fidalguia, a vila de Santiago do Cacém assumia um papel de destaque no plano regional e no seio da Ordem de Santiago.
Gentil José Cesário













