27ª Edição do Festival de AlmadaMais passos em frente
Os que em tudo vêem o primado do mercado não deixarão de achar estranha esta política.

Por Jornal Rostos
O Festival de Almada oferece, nesta 27ª edição, um programa e um conjunto de iniciativas que representam novos passos em frente. Pela primeira vez se apresentam 30 produções. O número de apresentações sobe de 44 em 2009
para 86 este ano. O número de espaços utilizados é de 16, contra nove no ano anterior.
A quantidade de estreias absolutas (doze em 2010) representa, pela primeira vez, mais de um terço do total de espectáculos constantes da programação.
Dos 16 espectáculos portugueses apresentados 11 são estreias (quase 70 por cento). E há uma estreia que é uma co-produção entre uma companhia espanhola, a Nao d’Amores, e outra portuguesa, o Teatro da Cornucópia.
Apesar deste crescimento – que, diga-se, tem sido constante de ano para ano – o Festival não perde, antes consolida, a sua identidade: a par de grandes mestres e grandes produções de teatro prestigiados internacionalmente, a programação propõe outros projectos de carácter marcadamente experimental. A diversidade estética, por um lado; a atenção à apresentação de discursos artísticos consagrados já internacionalmente mas ainda não conhecidos em Portugal; o respeito pelos grandes actores; a ideia de que o desenvolvimento do teatro no nosso País passa pelo convívio e o confronto com os criadores doutros lugares; uma visão da prática teatral como espaço plural de reflexão e de interacção com os problemas do nosso tempo e a vida social – todos estes factores continuam a configurar o
modelo de um Festival que, não perseguindo modas, assume com convicção as suas escolhas, sem deixar de, com humildade, aceitar críticas, de forma a superar os inevitáveis erros.
Partilhamos e defendemos a ideia do serviço público no que respeita à arte e à cultura. É por isso que continuamos – apesar dos reparos que muitas vezes nos chegam – a praticar preços inusuais, que espantam muita gente. Na realidade um jovem assinante que assista às trinta produções do Festival não chegará a pagar um euro por cada uma delas.
Os que em tudo vêem o primado do mercado não deixarão de achar estranha esta política. Mas esquecem que é este conceito que domina (pelo menos por enquanto…) a produção teatral nos países da Europa em que estamos integrados.
O Festival de Almada tem mostrado, através dos anos, que é possível aplicar na prática os conceitos referidos. O esforço produzido pela equipa que produz o Festival é amplamente compensado pela afluência do público e pelo lucro (de saber, não de recursos financeiros...) que o Festival, em cada edição, proporciona.
O êxito deste acontecimento artístico não se deve, contudo, apenas, àqueles que devotadamente o preparam, ao longo do ano, e o concretizam em cada Julho.
Deve-se também e muito às instituições e entidades que com o Festival estabelecem parcerias que permitem, por um lado, rendibilizar as disponibilidades financeiras (mínimas, se comparadas com eventos estrangeiros da mesma dimensão) e, Mais passos em frente 27º Festival de Almada por outro, acrescentar imaginação, conhecimento e qualidade artística ao próprio projecto do Festival.
O número de parcerias, felizmente, cresceu: além do São Luiz Teatro Municipal, da Culturgest, do Teatro Nacional D. Maria II, do Instituto Franco-Português e da Casa da América Latina, podemos este ano voltar a contar com o Centro Cultural de Belém, o Teatro Municipal Maria Matos e o Teatro do Bairro Alto. E teremos pela primeira vez no grupo dos parceiros o Teatro Nacional de São João, cuja associação ao Festival representa mais um testemunho da credibilidade que ele conquistou no meio artístico e cultural português.
A realidade que é o Festival – corolário da actividade desenvolvida regularmente ao longo de cada ano pelo Teatro Municipal de Almada – deveria constituir um exemplo de como, quando os tempos são difíceis, mais importante se torna a acção conjugada e solidária dos vários agentes. A crise em que estamos inseridos e de que tanto se fala tem todos os aspectos negativos conhecidos, mas pode ter o efeito positivo de levar-nos a explorar melhor as potencialidades do exame colectivo dos problemas e da acção associada para os resolver.
A cultura e a arte, como teremos a oportunidade de avaliar no grande “Encontro da Cerca” que este ano organizamos – como sempre em colaboração com o IITM – são práticas condicionantes do desenvolvimento democrático, e é por isso
que são essenciais para qualquer resolução de qualquer crise. A cultura e a arte são factores do desenvolvimento da democracia. Cidadãos mais cultos darão um melhor contributo à resolução colectiva dos problemas. Investir na cultura e nas práticas artísticas é investir no aprofundamento democrático e na formação dos cidadãos.
A Câmara de Almada, ao patrocinar durante todos estes anos, com o esforço financeiro que é público, mas também com um importante apoio logístico, e com o estímulo e a solidariedade que sempre manifesta aos que constroem o projecto do teatro neste Município, tem mostrado que a área da cultura não é inseparável do desenvolvimento social e económico - é o seu factor central.
O público que acorre ao Festival e o considera seu sabe-o bem. O teatro em Almada é o resultado de três décadas de colaboração com o Município e de diálogo entre os artistas e os Autarcas. Nenhuma forma de incompreensão poderá interromper o desenvolvimento de um projecto que não só lançou as suas fortes raízes em Almada mas produziu para deixar às futuras gerações um fruto invulgar: um dos melhores teatros europeus.
Joaquim Benite
Director do Festival de Almada
in Programa













