Manuscrito autógrafo de uma obra inéditade Niccolò Jommelli (1714-1774) descoberto na BNP
Por Jornal Rostos
A existência deste manuscrito autógrafo, pertencente ao Fundo do Conde de Redondo, e até agora considerada como anónima, terá passado despercebida pelo facto de o primeiro caderno (4 fólios) se encontrar desaparecido. Em consequência, informações cruciais como o autor, a data e o título da obra, grafadas na página de rosto, perderam-se.
A identificação do autor, recentemente realizada através de estudos caligráficos comparativos, revelou uma obra policoral para 16 vozes e baixo contínuo (com utilização de 3 órgãos) completamente desconhecida e sem paralelo na produção do compositor. A descoberta é tanto mais importante porquanto o trabalho seminal de Wolfgang Hochstein, Die Kirchenmusik von Niccolò Jommelli (1984), que inclui um catálogo temático, não menciona qualquer obra para 16 vozes.
À data da sua morte, Niccolò Jommelli era considerado um dos maiores compositores vivos, vindo posteriormente a ser consistentemente incluído na plêiade dos mais memoráveis autores do século XVIII. Dois anos depois de ter subido ao trono, D. José I (1750-1777) tentou contratar Jommelli que, por essa altura, já era o mais inovador e afamado compositor de ópera italiana em actividade. No entanto, a proposta do duque de Württemberg, que incluía a construção de um novo teatro, acabou por aliciar o compositor, que se transferiu para a corte de Estugarda em 1754. Durante 15 anos produziu música religiosa e contribuiu para reescrever a história da ópera.
Em 1769, e a troco de uma vantajosa reforma, o rei de Portugal conseguiu finalmente assegurar os serviços de Jommelli, que entretanto passou a viver em Aversa (Itália). O contrato incluía o envio de obras religiosas e, sobretudo, de óperas. Até à morte do monarca em 1777, e com adaptações de João Cordeiro da Silva, os teatros reais portugueses chegaram a levar anualmente à cena quatro óperas de sua autoria.
No género sacro, a influência de Jommelli em Portugal ainda está por avaliar, mas foi certamente duradoura. Algumas das suas obras religiosas mantiveram-se no repertório das igrejas até finais do século XIX. O Requiem (Hochstein, A.I.3), obra composta em 1756 para as exéquias da duquesa de Württemberg, foi a mais importante e paradigmática. Ernesto Vieira, na entrada do seu Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes (1900), escreve: “Executa-se ainda muito frequentemente nas egrejas de Lisboa a missa de requiem e libera-me de Jommelli, composições primorosas no estylo sacro.”
O estatuto de Niccolò Jommelli e os laços históricos que o ligam a Portugal tornam a descoberta deste autógrafo, ainda que incompleto, um acontecimento relevante no contexto dos estudos de música sacra de estilo romano de meados do século XVIII.













