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Moldura

Festival Terras sem Sombra em GrândolaSofia Gubaidulina e J. S. Bach na convergência do indivíduo e do absoluto

A igreja matriz de Grândola é a próxima paragem do Festival Terras sem Sombra, no dia 18 de Junho, pelas 21.30 horas.

Leste/Oeste aproxima três momentos culminantes d’As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, obra fundamental de Gubaidulina, compositora russa que revolucionou a música religiosa nos finais do século XX.,

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Festival Terras sem Sombra em Grândola Sofia Gubaidulina e J. S. Bach na convergência do indivíduo e do absoluto

Por Jornal Rostos

A igreja matriz de Grândola é a próxima paragem do Festival Terras sem Sombra, no dia 18 de Junho, pelas 21.30 horas. Edifício característico da arquitectura pombalina – de que a Ordem de Santiago fez largo uso na reconstrução de muitos dos seus templos após o terramoto de 1755 –, oferece o intimismo adequado a um programa pouco vulgar, aproximando Sofia Gubaidulina e Johann Sebastian Bach num repertório explorado com sensibilidade e virtuosismo por Irene Lima (violoncelo) e Pedro Santos (acordeão). Ambos fazem parte da élite dos intérpretes portugueses que se projectaram numa carreira internacional de primeira ordem.
Leste/Oeste aproxima três momentos culminantes d’As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, obra fundamental de Gubaidulina, compositora russa que revolucionou a música religiosa nos finais do século XX, e duas Suites para violoncelo de Bach, a n.º 1 em Sol Maior e a n.º 2 em Ré menor, cujas misteriosas harmonias chegam até ao “coração do mundo”. De facto, o encontro do sagrado e do profano surge aqui como uma espécie de suspensão do tempo e do espaço, unindo duas tradições musicais europeias, a oriental e a ocidental, numa continuidade espiritual soberba, que apela ao reencontro interior mais profundo.

Espírito, criação e liberdade
Natural de Chistopol (Tartaristão), em 1931, Sofia Gubaidulina formou-se em Piano na Academia de Música de Kazan e transitou para o Conservatório da mesma cidade, estudando Composição com A. Leman e, ainda, com N. Peiko, discípulo de Miaskovski. Prosseguiu a formação no Conservatório de Moscovo, onde concluiu a pós-graduação em 1963. Apesar de pertencer à União dos Compositores da U.R.S.S. desde 1961, as suas obras foram vistas com suspeição pelo regime. Chostakovitch exerceu sobre ela uma influência importante, ao incentivá-la a ignorar as críticas hostis das instituições oficiais.
Entre 1969 e 1970 trabalhou no Estúdio Experimental para Música Electrónica, em Moscovo, com A. Schnittke e E. Denisov, e em 1975 fundou o Astreya Ensemble, agrupamento especializado na improvisação com instrumentos tradicionais de origem russa, caucasiana e asiática. Estas duas experiências teriam consequências importantes no seu estilo. Depois de ter alcançado fama internacional no final dos anos 80, estabeleceu-se na Alemanha em 1992.
Gubaidulina é considerada, a par de Schnittke e Denisov, um dos líderes da música russa na segunda metade do século XX. A sua concepção estética é profundamente marcada por ideias filosóficas, espirituais e poéticas. Crente ortodoxa convicta, considera que a religião e a música partilham um objectivo comum: restaurar a ligação entre o indivíduo e o Absoluto. Nas suas próprias palavras, “não há razão mais séria para compor música do que a renovação espiritual”.

Bach, mestre supremo do Barroco
Johann Sebastian Bach nasceu em 1685, em Eisenach, no seio de uma família de músicos. Com a morte dos pais, foi recolhido em 1695 pelo irmão mais velho, Johann Christoph, organista em Ohrdruf. Estudou nesta cidade até 1700, ano em que partiu para Lüneburg, tornando-se aluno da Michaelisschule. Principiou a compor por volta de 1700, ainda em Ohrdruf. Em 1703 foi admitido como músico de corte em Weimar e, logo de seguida, contratado como organista da Neuekirche de Arnstadt. Em 1707 obteve um posto semelhante em Mühlhausen e no ano seguinte foi admitido como organista e músico de corte em Weimar, cargo no qual consolidou a sua reputação. Manteve-se aqui até 1717, momento em que ascendeu a Kapellmeister em Cöthen. Em 1723 tornar-se-ia Thomaskantor em Leipzig, onde viveria até à morte (1750).
Nos primeiros anos de actividade, dadas as obrigações profissionais, Bach concentrou-se na composição de música religiosa. Foi durante os anos passados em Cöthen, entre 1717 e 1723, que teve a oportunidade de dedicar mais tempo à composição de música secular, nomeadamente à música de câmara e à música orquestral. Datam deste período, para além dos seis Concertos Brandeburgueses, do primeiro caderno d’O Cravo Bem Temperado e das seis Sonatas e Partitas para violino solo, por exemplo, as seis Suites para violoncelo solo, compostas provavelmente ao redor de 1720.

A música na salvaguarda do montado
A manhã do dia 19 será dedicada à salvaguarda do montado, que tem justamente um dos seus máximos expoentes na serra de Grândola. Esta iniciativa ocorre na herdade das Barradas da Serra, que preserva uma significativa parcela de bosque mediterrânico. Vão participar nela, além dos músicos e da equipa do Festival, a comunidade local e destacados agentes das fileiras ambiental, agrícola e industrial. O objectivo é chamar a atenção para a importância natural, mas também socioeconómica, de um ecossistema muito particular, criado pelo homem e constituído por matas de sobreiros, cujo delicado equilíbrio corre riscos e necessita de ser defendido.
A acção, promovida pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, em parceria com o município local e o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade, tem como convidada de honra a violoncelista Irene Lima e conta com a presença de Armando Sevinate Pinto, assessor da Presidência da República para a agricultura e o mundo rural, que é também o presidente do conselho de curadores do Festival Terras sem Sombra. Colaboram na iniciativa a WWF – uma das organizações independentes de conservação da natureza mais influentes a nível mundial –, o Instituto Superior de Agronomia, a Faculdade de Ciências de Lisboa, a Confederação dos Agricultores de Portugal, a ANSUB – Associação de Produtores Florestais do Vale do Sado, a APCOR – Associação Portuguesa da Cortiça e a Corticeira Amorim.
A adopção de um sobreiral pela Escola EB1-JI das Ameiras, que faz parte do projecto de eco-escolas do Alentejo Litoral, a atribuição dos nomes de artistas presentes no Festival a árvores centenárias, a colocação nos sobreiros de ninhos construídos com canudos de cortiça virgem, a realização de uma tiragem tradicional desta matéria-prima e a sua associação a alguns dos melhores vinhos da região são alguns dos aspectos desenvolvidos na iniciativa.

Um aspecto fundamental da identidade portuguesa
Territórios de beleza rara, os montados de sobro são um exemplo da serena convivência dos animais e do homem, desde que este se apercebeu do muito que o sobreiro tinha para oferecer além da cortiça. Ainda hoje se caça nos seus bosques, se colhe o mel e os cogumelos que crescem nos seus troncos, a lenha para combustível e o fruto do sobreiro, a bolota usada na alimentação dos seus rebanhos.
Os montados desempenham funções decisivas para a conservação do solo, a qualidade da água e a produção de oxigénio. Incluem também uma biodiversidade extremamente rica e diversa, do maior significado para a conservação da natureza a nível nacional e europeu. Estão aí inventariadas mais de 120 espécies de avifauna, algumas ameaçadas como a Águia-de-Bonelli, a Águia-imperial-ibérica ou a Cegonha-preta. O Lince-ibérico ocorre igualmente nos montados portugueses, podendo no futuro a recuperação da população deste animal ser óptima devido à extensão de habitat.
Quanto à cortiça, a exportação dos seus produtos representa cerca de 3% do total das exportações portuguesas e ronda os 900 milhões de euros anuais, o que faz de Portugal o maior exportador de cortiça e produtos de cortiça do mundo. É a única actividade económica que torna o país líder mundial. A gestão dos montados de sobro com a exploração da cortiça gera também assinaláveis rendimentos a nível local e regional que permitem manter emprego no mundo rural. Está igualmente na base de actividades turísticas como o turismo rural, o eco- e o agro-turismo.

Foto - Irene Lima

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