Arqueologia Subaquática, Grândola, Naufrágios, TesourosCampanhas de prospecção arqueológica subaquática nos mares

Por Jornal Rostos
A Câmara Municipal de Grândola (CMG) e o Instituto de Arqueologia e Paleociências das Universidades Nova de Lisboa e do Algarve (IAP - UNL/UAlg) vão assinar em Tróia, no próximo dia 4 de Outubro, um protocolo ao abrigo do qual aquele instituto de investigação científica na área da arqueologia e ciências associadas desenvolverá actividades e projectos.
Enquadrando-se no Plano Estratégico de Salvaguarda e Valorização do Património Cultural do Concelho - que tem como projectos âncora a criação do Museu Polinucleado de Grândola e do Centro de Interpretação do Património Natural e Cultural – a assinatura deste protocolo dará início efectivo ao Projecto Grândola Subaquática – ou seja, à realização de trabalhos arqueológicos subaquáticos de prospecção e sondagem no sentido da valorização da Carta Arqueológica Subaquática nacional.
Seguindo um plano de investigação elaborado de acordo com os mais recentes parâmetros ético-científicos preconizados pela Convenção da UNESCO sobre a Protecção do Património Cultural Subaquático, e devidamente autorizados pelo IGESPAR, estes trabalhos arqueológicos visam localizar, posicionar, avaliar e caracterizar todo o património cultural subaquático jazente até aos 40 metros de profundidade, nas águas compreendidas entre a Vala Real, no estuário do Sado e a praia de Melides, limites extremos da costa do concelho de Grândola, bem como caracterizar a evolução histórica da paisagem flúvio-marítima do concelho de Grândola.
Com efeito, nada se sabe sobre qual o número ou tipologia de navios que demandavam a Tróia romana assim como praticamente se desconhecem quaisquer vestígios de cargas ou navios de épocas posteriores naufragados, quer na frente oceânica de Grândola, quer na barra do Sado. Contudo, pesquisas documentais, realizadas pelos investigadores do IAP em arquivos portugueses, espanhóis, ingleses e holandeses apontam para vários casos de perdas de navios registadas desde a época Moderna nesta zona. Mais: mantendo-se presentes as mesmas condições de hidrodinâmica, deduz-se que as águas do concelho poderão ocultar vestígios de embarcações Pré-Clássicas, Clássicas e medievais islâmicas e cristãs – o que, a confirmar-se, constituirá uma oportunidade única a nível mundial de se estudar na fachada atlântica este tipo de navios e respectiva carga, numa cronologia cultural que vem em contínuo desde a Pré-História até à Idade Contemporânea.Alvos primordiais dessa prospecção serão três navios, cuja perda foi já contextualizada: a nau Nuestra Señora del Rosario(1589), o navio Schoonhoven (1626) e o galeão português São Francisco. (1650)
Por outro lado, o interesse do concelho de Grândola para a arqueologia naval reside também na natureza específica dos seus fundos e no consequente processo de formação de jazidas arqueológicas neste tipo de terreno, fundamentalmente arenoso, implicando que, a serem descobertos, estes naufrágios estarão em condições ideais de preservação. Por outro lado, o facto de se poder contar com contextos fechados e já intensivamente contextualizados do ponto de vista histórico, faz com que, por exemplo, sendo encontrada, a nau espanhola de 1589 seja a primeira embarcação com tesouros a ser intervencionada cientificamente por arqueólogos devidamente habilitados para tal (a regra, quando se trata de navios com tesouros, é que estes são rapidamente destruídos para que o caçador de tesouros chegue mais rápido onde quer: ao ouro e à prata).
Prevendo a recolha oral de testemunhos de pescadores, de mariscadores e de mergulhadores amadores locais, bem como a realização de mergulhos prospectivos em zonas previamente assinaladas como capazes de conter vestígios arqueológicos submersos, o projecto assentará igualmente numa prospecção geofísica a realizar no próximo ano e na leccionação de uma cadeira de investigação no âmbito das licenciaturas da Universidade Nova de Lisboa.
Uma cadeira de investigação - especificamente criada para este projecto e já aprovada pelo Conselho Científico da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas –enquadrará e formará novos investigadores nesta área, de que Portugal está tão necessitado.













