Projeto Cultural + 5… A Manuel da FonsecaMostra coletiva de Desenho em cumplicidade com poema Os olhos do poeta de Manuel da Fonseca
Este projeto esteve patente no Centro Cultural de Campo Maior no Alentejo até 30 de Dezembro.

Por Jornal Rostos
Conforme o âmbito do Projeto Cultural +5, a exposição tem a participação de um coletivo de 20 artistas plásticos.
A mostra apresenta 40 desenhos em papel sobre tela (35x27cm)
Na inauguração haverá lugar a uma animação poética- cultural.
O poema de Manuel da Fonseca "Os olhos do poeta" revela-nos uma extraordinária abrangência de conteúdos que serve de suporte a esta exposição de Desenho. Os artistas plásticos mediante a sua sensibilidade e imaginário, abraçam este desafio em cumplicidade com o Olhar do mestre Manuel da Fonseca e fazem apelo a uma interpretação que age através duma multiplicidade de significações poéticas.
A obra de arte não reside apenas na sua função representativa e expressiva, na sua autonomia, mas também no efeito que ela produz.
Manuel da Fonseca
Os olhos do poeta
O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da Terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gelos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando como contos-de-fadas à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
-- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido do alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.













