Exposição de Xilogravura e documentário nas Reservas Museológicas Visitáveis no Barreiroevocativo do Aniversário do Nascimento de Manuel Cabanas

Por Jornal Rostos
Manuel Cabanas, algarvio de nascença (11 de Fevereiro de 1902) que se tornou barreirense por adoção, era mestre na arte da xilogravura. Reproduziu figuras conhecidas e imagens familiares. Nas Reservas Museológicas, situadas no Parque Industrial da Baía do Tejo, Rua 11, Armazém 117, encontram-se em exibição 29 das suas estampas – entre elas o Políptico dos Painéis de S. Vicente (seis estampas). O Documentário, de 2002, com cerca de sete minutos de duração, a correr em continuum, é da autoria de Miguel de Sousa, Jorge Morais e Octávio Ribeiro. O espaço, com entrada livre, tem portas abertas até 31 de março, segunda-feira, das 14h30 às 17h00, e de terça a sexta-feira, das 9h30 às 12h00 e das 14h30 às 17h00.
O vídeo sobre a vida e obra do mestre deu o mote para o resto da noite de conversa – realizada no espaço de exposição –, proporcionando a partilha de histórias várias sobre a vida do xilogravador com quem alguns dos presentes conviveram/privaram.
Referência de cidadania
Manuel dos Santos Cabanas foi, para Cabós Gonçalves, “provavelmente a [sua] primeira referência de cidadania”. O convidado recordou expressões, posturas, gestos e hábitos do artista. “À medida que ia fazendo os trabalhos interrompia para contar histórias”, lembrou.
“Cabanas viveu para servir e não para ser servido”. Cabós Gonçalves sublinhou o contributo de Cabanas em tornar a arte acessível – identificando mais tarde na sessão como “democratização cultural”. “Cabanas tinha da cultura a visão de que ou era apropriada pelo povo ou não existia”. “Valorizava muito a vida e valorizava as pessoas”, complementou.
“Cento e dez anos depois do seu nascimento, o Cabanas está mais atual que nunca”. Cabós Gonçalves recordou momentos difíceis de outros tempos: cada vez que havia ameaças, era incomodado.
Marcou o Barreiro pela solidariedade
António João Sardinha, presente na sessão, foi convidado a juntar-se ao desfiar de memórias. Antes, para enriquecer a conversa, o Vereador da Câmara Municipal do Barreiro responsável Administração Geral e Patrimonial leu um texto de Manuela Fonseca.
António Sardinha falou de Manuel Cabanas como um dos dois homens – a par de Padre Abílio Mendes – que marcaram o Barreiro pela sua solidariedade. E relatou, também ele, diversos momentos de convivência com o Mestre, alguns episódios que o marcaram na sua vida, lembrando que ajudou muitos perseguidos a passar a fronteira clandestina.
“Manuel Cabanas, para mim está vivo porque é recordado”, afirmou. “A melhor estátua [homenagem] que lhe fazemos é, de facto, o nosso testemunho poder chegar a todos”.
“As janelas do Manuel Cabanas [da sua casa no Barreiro], sempre que o tempo o permitia estavam abertas… escancaradas. Lá dentro víamos os livros”, recordou António Sardinha, uma característica do Mestre.
“Cabanas era basicamente um republicano”, “foi um excelente exemplo de trabalho, resistência e luta”, avançou Cabós Gonçalves, recordando momentos difíceis de pressão, barulhos estranhos, de jipes e cavalos.
Conversas mais importantes do que ler um livro
Cabós Gonçalves ofereceu à CMB uma zincogravura de uma xilogravura de Cabanas, que faleceu a 25 de Maio de 1995. Agradecendo a oferta, Carlos Moreira encerrou a sessão reiterando as palavras de António Sardinha: “Estas conversas são mais importantes para muitos de nós do que ler um livro”.
Manuel dos Santos Cabanas foi homenageado, em 1983, com o Galardão “Barreiro Reconhecido”, na Área de Artes e Letras. Em 1996, foi, a Título Póstumo, Medalha de Honra Cidadão Honorário.
Em 2002, por iniciativa da CMB, recorde-se, teve lugar a Comemoração do Centenário do Nascimento do Mestre Manuel Cabanas, que deu lugar a uma exposição sobre a sua obra artística, onde estiveram representados os espólios que, por doação, couberam aos municípios do Barreiro e de Vila Real de Santo António, e muitos dos exemplares em posse de coleções privadas.
Organização da exposição
Esta exposição tem por base os materiais parte do espólio que Manuel Cabanas doou à CMB em 6 de Abril de 1974, a que atribuiu a designação de “Aspetos e Figuras Barreirenses” (estampas, xilogravuras e livros).
A mostra está organizada em três momentos:
1. Apresentação de 29 estampas, entre as quais o Políptico dos Painéis de S. Vicente, com seis estampas
2. Três vitrinas com:
2.1 Barreiro Contemporâneo, vol. II, de Armando Silva Pais, aberto no capítulo que aborda a xilogravura e Manuel Cabanas.
Catálogos de exposições promovidas pela CMB: Xilogravura Manuel dos Santos Cabanas (Biblioteca Municipal, em 1987), Manuel Cabanas, centenário do nascimento 1902-2002 (Galeria Municipal).
Catálogo de exposição promovida pelo Museu da República de Resistência, baseada na exposição Manuel Cabanas, centenário do nascimento 1902-2002.
2.2 Mostra de livros cujas capas, em pele, têm rostos dos seus autores em xilogravura. E, ainda, várias xilogravuras de escritores: Bocage, Alves Redol, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, etc.
As letras capitulares que realizou.
2.3 Mostra de parte da coleção de xilogravura a nível das personalidades, dos aspetos do Barreiro, e um autorretrato.
Personalidade: Máximo Gorki, Conselheiro Augusto Gomes de Araújo, Dª Francisca Gomes de Araújo, Irene Lisboa, Kira, etc.
Aspetos do Barreiro: Os Moinhos de Alburrica, A fachada do Asilo D. Pedro V, Torre do Relógio da Igreja de Nª Sraª do Rosário e da Igreja de Santa Cruz, dos antigos Paços do Concelho e dos atuais.
3. Documentário dedicado à vida e obra do Mestre, da autoria de Miguel de Sousa, Jorge Morais e Octávio Ribeiro realizado em 2002.
CMB













