Ana Paula Laborinho no BarreiroRecorda José Saramago o escritor, o homem e o amigo
«AQUI JAZ UM HOMEM INDIGNADO»
Ana Lúcia Laborinho recordou, a propósito de um dos seus últimos livros ‘A Viagem do Elefante’ (2008) que, Saramago, na sua escrita, vai interrogar a vida inteira: «Quem somos nós? Por onde andamos? Mas que viagem fazemos nós?».

Por Jornal Rostos
O Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro acolheu a 15 de março, a quarta conferência do ciclo ‘Oficina Saramago’, numa celebração do escritor e do cidadão. Este projeto, cuja comissão coordenadora é constituída pela Câmara Municipal do Barreiro (CMB), CM da Moita, Cooperativa Cultural Popular Barreirense e Escola Secundária de Santo André (ESSA) prevê, até novembro deste ano, a realização de mais quatro conferências sobre este autor.
Na mesa de abertura desta conferência intitulada “Saramago: um escritor indignado”, Carlos Humberto de Carvalho, Presidente da CMB, recordou “esta personalidade ímpar da cultura portuguesa, como cidadão interventivo, cívico e político”, e partilhou com os presentes a frase «Quando eu morrer, se se puser uma lápide no sítio onde eu ficar, poderá ser qualquer coisa assim: Aqui jaz, indignado, fulano de tal. Indignado, claro, por duas razões. A primeira por já não estar vivo, que é um motivo bastante forte para nos indignarmos. E a segunda, mais séria, indignado por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto». Aproveitando esta frase de Saramago, Carlos Humberto de Carvalho sublinhou que, há uns anos (poucos), também ele estava convencido de que o mundo era menos injusto e “agora interrogo-me sobre se o mundo está a ser menos injusto, ou não”.
De acordo com o Autarca, Saramago, mais do que um ‘indignado’ foi um interventor. Um interventor através da palavra, do pensamento, da sua escrita e através, até, da execução material de coisas, com as suas próprias mãos. Para concluir, o Presidente afirmou que é preciso continuarmos a intervir. “Temos de seguir em frente, é preciso não desistir, construir, partir das diferenças para construir o que é comum, e dar a todos os seres humanos condições dignas e de equidade”.
Ana Maria Lucas, professora na ESSA, fez uma apresentação breve do trabalho da convidada, Ana Paula Laborinho (Presidente do Instituto Camões) destacando o seu percurso de vida exemplar na promoção da língua portuguesa.
Casada com um barreirense, Ana Paula Laborinho afirmou que “regressar ao Barreiro é uma coisa muito especial. E o Barreiro que eu conheço é o Barreiro dos seus olhos”. Em relação à palestra, disse ir debruçar-se sobre um ponto de vista pessoal (era amiga de Saramago) e, por outro lado, sobre a sua projeção internacional. Sobre este aspeto, referiu, logo ao início, que o escritor tinha, já, conquistado o respeito internacional antes mesmo de ser prémio Nobel.
Recuando a Março de 97, em Pequim, Ana Paula Laborinho recordou o sucesso obtido pelo escritor aquando da sua estada na China. “Eram centenas na plateia. A receção que lhe fizeram, a forma como desenharam o seu retrato, as amabilidades que para com ele tiveram, foram o sintoma do respeito internacional que ele já tinha nessa altura. E foi precisamente aí, a primeira vez que o ouvi dizer que gostaria que escrevessem na sua campa, como epitáfio, «Aqui jaz um homem indignado». A preletora referiu que, embora nesta altura ele já estivesse acompanhado por Pilar, mesmo assim, e apesar da sua felicidade pessoal, não podia esquecer o sofrimento dos outros, “sobretudo aquele que resulta da miséria e da exploração. E concluía: «Não gosto do mundo em que vivo, porque alguma coisa devia mudar mas, é difícil alterar o curso das coisas, e assim se repete a condição dos mais pobres e desfavorecidos»”.
A título de exemplo, da forte amizade que a unia ao casal, Ana Paula Laborinho partilhou com os presentes aquilo que Pilar lhe contou, um dia, já Saramago se encontrava muito debilitado na sua casa, em Lanzarote. Ela, Pilar, e os seus muitos irmãos discutiam sobre a situação política e falavam na crise, de repente, como se tivesse acordado, Saramago questionou: «mas de que crise é que estão a falar?» E para espanto de todos ele começou a dizer que «a crise de que falam não é a verdadeira crise. A crise é moral, é a crise dos valores, dessa sim é que devemos falar. A crise económica é apenas uma consequência».
Explicitando uma visão do mundo muito marcada pelo pessimismo que atravessa toda a obra de Saramago, Ana Paula Laborinho disse identificar-se com o autor no sentido em que, também ela considera que “as quedas podem ser oportunidades”.
O neorrealismo em Portugal e na escrita de Saramago, a importância da célebre exposição ‘Mundo Português’ (1940) onde surgiram representados artistas muito vanguardistas, provenientes do Brasil, designadamente, e o facto desta tendência estética, desta arte interventiva ter contribuído para alterar as consciências foi, igualmente, salientado pela conferencista.
Ainda de acordo com ela, existem duas questões centrais na obra de Saramago. E são elas, as questões identitárias e Pilar, uma paixão que se vai revelar fundamental para que ele possa continuar a escrever.
«A Pilar foi-me buscar ao outro lado da morte»
Ana Lúcia Laborinho recordou, a propósito de um dos seus últimos livros ‘A Viagem do Elefante’ (2008) que, Saramago, na sua escrita, vai interrogar a vida inteira: «Quem somos nós? Por onde andamos? Mas que viagem fazemos nós?».
Contextualizando, disse que Saramago escreveu este romance logo após ter estado muito doente, e é ele próprio quem diz: «A Pilar foi-me buscar ao outro lado da morte e trouxe-me para o lado da vida». O seu contentamento, por ter voltado da morte, vai dar esta viagem do Elefante que é uma viagem ‘luminosa’, apesar da história ser triste. A mensagem, subjacente é bíblica e pode traduzir-se no facto de irmos sempre ter, ao lugar onde queríamos ir ter. «Os nossos passos são passos que se constroem em direção àquilo que nós fomos construindo».
Este aspeto toca numa das questões que, a Ana Lúcia Laborinho, considera uma das questões essenciais em Saramago - a sua religação. “Prefiro chamar-lhe assim em vez de religião, porque de facto é mais uma interrogação em relação ao sagrado. Muitas das suas obras são interrogações fortíssimas acerca dos malefícios da religião cristã/católica”.
«É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!»
O papel das traduções na internacionalização de um autor
Afirmando que a tradução é um aspeto fundamental para a divulgação de um autor no mundo, a Presidente do Instituto Camões explicou «Como Saramago chega ao Nobel» e deu exemplos da sua projeção internacional com as inúmeras traduções do ‘Memorial do Convento’ ou ‘Todos os Nomes’, na Grécia, Coreia e Itália, ou ‘Caim’, nos EUA e Noruega.
“Um escritor de ideias. Um escritor indignado”
A terminar Ana Lúcia Laborinho afirmou que existe uma universalidade muito marcada na escrita de Saramago a partir do ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ que faz com que ele se torne num escritor para um público muito mais alargado que o português ou o europeu. “Ele não tem referências precisas, as suas hisórias/ideias, tanto podem ser aqui como em qualquer parte do mundo. As suas palavras são instrumentos fundamentais para que possamos refletir sobre a condição humana”.
CMB













