Conferência «A Indústria Corticeira no Barreiro, Seixal e Moita»Experiências dos três concelhos são partilhadas

Por Jornal Rostos
Deste modo, "A Cortiça nas Ruas do Barreiro; Fator Condicionante do Urbanismo" foi o tema apresentado por António Camarão, do Setor do Património Histórico e Museológico da Câmara Municipal do Barreiro; Vítor Mendes, da Câmara Municipal da Moita, expôs o filme "A Última Fábrica de Cortiça em Alhos Vedros" e Fátima Afonso, do Ecomuseu do Seixal, da Câmara Municipal do Seixal apresentou "Indústria Corticeira no Seixal. Contributos para a História do Setor Corticeiro na Margem Sul do Tejo".
A Vereadora Regina Janeiro, responsável pela área da Cultura, iniciou a sessão manifestando satisfação pelo Município do Barreiro assinalar a importância da indústria corticeira no Concelho, “após já termos comemorado o centenário da CUF no Barreiro e os 150 anos da linha do caminho-de-ferro no Barreiro”.
Informou que está a ser iniciado o trabalho no âmbito da “Rota do Trabalho e da Indústria” que será publicamente apresentada em Setembro e acrescentou, ainda, que o filme de apresentação “já está publicado no Youtube”.
Finalizou agradecendo aos oradores presentes e à direção da Cooperativa que acolheu a iniciativa.
Mais de uma centena de empresas e empresários
António Camarão iniciou a sua intervenção caracterizando a cidade como “objeto de perceção dos seus habitantes. Na maior parte das vezes, a nossa perceção da cidade não é integral, mas sim bastante parcial e fragmentada”.
Assim, para perceber a conceção de cidade “temos que considera-la, não como algo em sim mesmo, mas como objeto de perceção dos seus habitantes. Este facto só se torna possível trazendo ao presente todas as fases por que passou a evolução da cidade enquanto espaço económico e social e pode dizer-se que no caso presente, o seu crescimento foi pautado pela implantação da atividade produtiva, versus uma expansão urbana levada por conjunturas diversas”, referiu.
António Camarão caraterizou o Concelho do Barreiro com “condicionalismos geográficos importantes”. É uma península inserida na Península de Setúbal, e rodeado pelos rios Tejo e Coina e pelo esteiro da Moita. Em 1816, a sul, existiam muitas quintas. Nessa altura, o Barreiro tinha caraterísticas agrícolas e piscatórias. No entanto, os rios não eram condicionantes, mas sim “vias importantes de comunicação”.
Da investigação que realizou às fábricas de cortiça no Concelho, resultou o seguinte inventário:
De 1865 e 1900 - “Herold & Companhia” – a grande fábrica com um número elevado de funcionários; “Lane & Santos” e “Herdeiros & Reynolds” (Sociedade Nacional de Cortiça);
De 1900 a 1920 – “Estandislau Marques”(na rua Miguel Pais) e “Theodoro Rúbio” (Catalão);
De 1920 a 1930 - Sociedade Industrial de Aglomerados de Cortiça; “Barreiro & Cª” (irmãos); Francisco da Silva Barreira Irmãos & Brás”;
De 1920 a 1930 – “Quintino & Nunes” e “L. Van Der Hilst &Cª Lda”;
De 1930 a 1940 - “Continho e Marques, Lda” e “Belchior Viegas”;
De 1940 a 1950 – “Manuel de Sousa Eusébio”, “Sancho irmãos”, “JS Gonçalves & filhos”, entre outras fábricas.
De 1950 a 1960 – “Martinho R. Pereira”, “SIC – Sociedade Industrial de Cortiças, Lda”, entre outras.
No total, António Camarão referenciou 171 empresas e empresários, contudo, este é um trabalho que ainda não está concluído. O técnico chamou a atenção para o número elevado de publicidade às fábricas de cortiça no Concelho, publicada nos jornais (uma das bases da sua investigação).
Em jeito de conclusão, o técnico ressalvou a importância da indústria corticeira no Concelho, com “forte peso na economia da época, que beneficiou da proximidade do caminho-de-ferro.
Perante o avanço do urbanismo, a partir dos anos 30 passa a existir uma pressão enorme para que as fábricas deixem o Barreiro Velho e comecem a deslocar-se para a zona da Verderena e mais tarde para a zona sul do Concelho, até que acabaram por se extinguir”.
Deste modo, o concelho da Moita veio a beneficiar com esta situação, da deslocalização das fábricas para Alhos Vedros.
“A última Fábrica”
Vitor Mendes apresentou o filme “A Última Fábrica de Cortiça em Alhos Vedros”. Este é um registo biográfico, em síntese, da fábrica “Correia Branco e Nunes”, fundada em 1926.
A cortiça começou por ser transportada, via fluvial, pelas fragatas para Lisboa.
Atualmente, nesta unidade, com oito trabalhadores, a matéria-prima é cozida e preparada em prancha para ser enviada para outras fábricas do norte de Portugal.
Ao longo do filme, João Correia Nunes, neto do fundador, refere-se aos fatores de instalação das fábricas, ao desenvolvimento da indústria e ao seu declínio já nos anos 80, do século XX.
“A cortiça tem o seu lugar e não vai perder. A rolha é quase a nossa razão de existir, no entanto hoje também se fazem malas e guarda-chuvas. O Design dá uma imagem internacional da cortiça”, referiu.
A indústria corticeira no Seixal
Por seu turno, Fátima Afonso começou por fazer uma abordagem histórica sobre o Seixal e apresentar as motivações e fatores subjacentes ao estabelecimento da indústria de preparação e de transformação da cortiça no Seixal e a sua evolução ao longo do século XX.
Na segunda parte da apresentação expôs o caso da fábrica da “Mundet”, apresentando os vários edifícios e oficinas, as máquinas, os equipamentos. Os fundos documentais, os processos e circuitos de produção no âmbito da preparação e da transformação da cortiça, as técnicas e os saberes-fazer que lhe estão associados, bem como os testemunhos das vivências.
Destacou a importância socioeconómica que a “Mundet” assumiu a nível local e regional. Referiu a constituição de um acervo museológico que viabilizou um programa de inventário, documentação e estudo de património industrial daquele estabelecimento fabril promovido pela Câmara Municipal e a instalação do Núcleo da “Mundet” do Ecomuseu Municipal do Seixal.
Segundo Fátima Afonso, “o Seixal um território corticeiro, não no sentido do peso que a atividade económica do setor poderá deter no Concelho, mas por via quer da importância que a indústria corticeira assumiu no desenvolvimento do Seixal, quer devido às repercussões que teve nos quotidianos das famílias locais ao longo de cerca de um século, dando origem a uma das mais fortes comunidades corticeiras do País e encontrando-se na génese daquelas que constituem ainda importantes referências identitárias para o Município”.
Visitas no Dia Internacional dos Museus
De salientar que no dia 18 de maio, Dia Internacional dos Museus, no período da tarde, cerca de 20 pessoa participaram nas visitas, gratuitas, ao Museu Industrial da Baía do Tejo e à Casa Museu Alfredo da Silva.
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