Festival Internacional de Música Exploratória do BarreiroMúsica e Sons da Natureza no OUT.FEST
O festival é produzido pela OUT.RA – Associação Cultural, em cooperação com a Câmara Municipal do Barreiro e com a Associação Filho Único.

Por Jornal Rostos
De 10 a 13 de outubro, tem lugar a nona edição do OUT.FEST - Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro. Estão previstos espetáculos para diversas salas e espaços do Concelho do Barreiro, tais como o Be Jazz Café, o Teatro Municipal do Barreiro, o Convento da Madre de Deus da Verderena, o Centro de Educação Ambiental da Mata da Machada, a Igreja Nossa Senhora da Graça de Palhais e a Escola de Jazz do Barreiro.
O festival é produzido pela OUT.RA – Associação Cultural, em cooperação com a Câmara Municipal do Barreiro e com a Associação Filho Único.
Aos RED TRIO, formação lusa no mundo do jazz, caberá a responsabilidade da abertura do festival, dia 10, pelas 21h30, em concerto a ter lugar no palco Be Jazz Café.
O Teatro Municipal do Barreiro será palco, no dia 11, às 21h30, para a atuação da violoncelista sueca HELENA ESPVALL, num registo único.
Da programação destacamos, ainda, as estreias absolutas em palcos nacionais: a primeira, a do norte-americano KEVIN DRUMM, no dia 12, às 22h00, no Convento da Madre de Deus da Verderena, uma das maiores figuras a emergir da explosão de músicas livres no início do século.
Na mesma noite, e no mesmo local, apresentar-se-á, também em estreia nacional, HELM, projeto de experimentação eletrónica, do britânico Luke Younger, membro dos extintos Birds of Delay e autor de um dos discos mais marcantes deste ano, Impossible Symmetry.
O duo português YONG YONG atuará ainda, e também no Convento da Madre de Deus da Verderena, naquela que será a sua primeira presença no OUT.FEST.
A Escola de Jazz do Barreiro acolhe, também em estreia em território nacional, o projeto MAN FOREVER, no dia 13, da responsabilidade de Kid Millions, baterista dos norte-americanos Oneida, cabeças de cartaz da passada edição do OUT.FEST. Kid Millions apresentará uma peça do seu mais recente trabalho, Pansophical Cataract, editado no presente ano pela gigante Thrill Jockey, e será acompanhado em palco por músicos proeminentes do panorama nacional e local como Nick Nicotine (Nicotine’s Orchestra) ou Rui Nogueiro (Sunflare).
Na mesma noite (que se inicia no Salão Nobre da Escola de Jazz do Barreiro, terminando no Be Jazz Café), o trio francês THE FISH, composto por Jean-Luc Guionnet, Benjamin Duboc e Edward Perraud apresentará a sua música intensa, enérgica e espiritual, herdeira da mais brilhante tradição free tal como ensinada pelos gigantes Albert Ayler ou John Coltrane. De regresso ao OUT.FEST estará o saxofonista luso RODRIGO AMADO, para uma atuação a solo.
Iniciativas de cariz ambiental
A componente educativa do festival estará este ano intimamente ligada ao desenvolvimento do projeto Sons do Arco Ribeirinho Sul, através da realização, no dia 13, das 10h00 às 13h30, de Sessões de Recolhas Sonoras Pedagógicas, destinadas a jovens dos 6 aos 18 anos de idade, na Mata da Machada.
Também no âmbito deste projeto de cariz ambiental e artístico, que procura celebrar a biodiversidade existente na Mata da Machada, Sapal do Rio Coina e frente ribeirinha do Concelho, e para destacar o papel dos sons do, e no, quotidiano, terá lugar um Concerto Para Olhos Vendados, da autoria do músico LUÍS ANTERO, na Igreja da Nª Sr.ª da Graça de Palhais.
Para possibilitar a melhor mobilidade do público, esta 9ª edição do OUT.FEST manterá uma parceria com os Transportes Colectivos do Barreiro, que se traduz na possibilidade de viajar, gratuitamente, em todas as carreiras da empresa ao longo da duração do festival, a todos os portadores de bilhete, ou passe para os concertos.
9ª Edição 10-13 OUTUBRO 2012
10 OUTUBRO BE JAZZ CAFÉ. 21H30
concerto: RED TRIO [HERNÂNI FAUSTINO, RODRIGO PINHEIRO, GABRIEL FERRANDINI]
Formação composta por Rodrigo Pinheiro (piano), Hernâni Faustino (contrabaixo) e Gabriel Ferrandini (baterista), o RED Trio é uma das bandas com maior rodagem do panorama do jazz e das músicas improvisadas portuguesas. Com uma discografia iniciada com um registo homónimo em 2010, têm vindo a receber consistentemente grandíssimos elogios de ambos os lados do Atlântico por parte de algumas das mais altas instâncias destas músicas. No último ano e pouco editaram dois álbuns fortíssimos, sempre acompanhados por um convidado internacional de calibre - o saxofonista John Butcher em ´Empire´ (NoBusiness, 2011), e o imparável trompetista Nate Wooley em ´Stem´ (Clean Feed, 2012). A sua é uma música de um solismo colectivo; um trio funcionando como uma unidade de trabalho no campo de energia aberta. Temos vindo a ficar cada vez mais impressionados com o trabalho de dinâmica e afinação entre os músicos, que com a maior disponibilidade estética e emocional, se lançam em espaço musical novo a cada momento. A última vez que os vimos em puro trio, sem convidados, guardámos a recordação para sempre. É pois um privilégio tê-los pela primeira vez no OUT.FEST.
Programa completo do OUT.FEST
11 OUTUBRO
TEATRO MUNICIPAL DO BARREIRO. 21H30
concertos: STEVE GUNN
Discretamente, Steve Gunn tem vindo a cimentar um papel de extrema importância no epicentro da música nascida nos Estados Unidos que, de algum modo, há-de ficar sempre associada às terminologias da free folk e new weird America. Outrora membro dos GHQ – na companhia de Marcia Bassett e Pete Nolan - Gunn tem vindo a delinear um fascinante trajecto à guitarra assente nas raízes mais puras da verdadeira americana. A sua música deixa-se assombrar pelos fantasmas do bluegrass, da country e da música dos appalaches, para os dotar de uma vivência real e profundamente deslocalizada de qualquer espaço temporal estanque. Canções fragmentadas, conduzidas por uma guitarra capaz de albergar os grandes
espaços, alinhadas segundo os desígnios mais puros da realidade. Seis cordas a ressoar ao longo dos tempos, e uma voz que mais não faz do que ser fiel a essa mesma expressividade. Porque por vezes, uma guitarra e uma voz são – e precisam de ser - apenas isso.
HELENA ESPVALL
Violoncelista de origem sueca que passou os últimos anos largos nos Estados Unidos, e que está a viver perto de nós em Lisboa durante uma temporada - um privilégio. Emergindo como uma das vozes dos excelentes Espers, parte crucial do bom de trabalhos na música independente norte-americana de meados da década passada que se dedicou a uma actualização das formas folk anglo-saxónicas, tem vindo calmamente a construir um percurso discográfico e em palco, em âmbitos mais ligados a uma improvisação altamente melódica - a senhora Espvall tem um ouvido caríssimo para construções harmónicas espontâneas. Entre trabalhos a solo regulares, editou dois óptimos discos em duo com o mítico Masaki Batoh, líder dos Ghost (ambos pela Drag City); estabeleceu uma colaboração regular com Eugene Chadbourne, tendo feito também alguns trabalhos em formações com o artista português David Maranha, entre tantos outros encontros. Nos seus registos a solo mais recente encontramo-la a desenhar lindas tecituras hipnóticas, nas quais encontra sempre aberturas melódicas fascinantes, numa busca incessante pelas possibilidades da frase num âmbito pós-clássico e telúrico.
12 OUTUBRO
CONVENTO DA MADRE DE DEUS DA VERDERENA. 22H00
[espectáculo inserido nas comemorações do 27º aniversário da J.F. do Alto Seixalinho]
concertos: KEVIN DRUMM
Dado o seu papel fulcral no seio da música experimental no início do milénio, esta estreia em Portugal de Kevin Drumm poderia parecer quase tardia. Uma daquelas ausências notáveis, que vem agora ser colmatada, depois de uma espera demasiado longa. Tendo começado o seu percurso na segunda metade dos anos 90, profundamente embrenhado nas possibilidades anímicas do near silence através de guitarra preparada, o músico de Chicago tem vindo a desbravar terreno por caminhos que passam pelo noise, o drone, a música ambiental ou electroacústica. Capaz de articular as sombras do metal e o poder de fogo do free jazz até um patamar metafísico, onde todas essas referências se dissipam ao abrigo de uma mesma entidade. De uma discografia imponente, há que ressalvar o já clássico Sheer Hellish Miasma de 2002 – monumental tratado sobre o ruído, com lugar garantido no panteão das obras-primas do género – ou a recente caixa Necro Acoustic, onde, ao longo de cinco discos, a sua visão singular se espraia por uma multiplicidade de registos continuamente intrigantes e irresolutos. Paralelamente, tem desenvolvido uma fértil rede de colaborações com nomes como Jim O´Rourke, Taku Sugimoto ou Mats Gustaffson, em mais uma prova cabal de todo um respeito amplamente reconhecido por crítica e pares.
HELM
Helm é Luke Younger, um artista sonoro e músico experimental sediado em Londres. Reconhecido no underground da última década nutrido a linguagens noise e drone como metade do duo Birds of Delay, que manteve com o cúmplice Steven Warwick (Heatsick), Younger iniciou a sua discografia a solo há escassos dois anos no seu selo Alter (onde se assumiu como editor de boa gente como Richard Youngs ou Hieroglyphic Being), seguindo-se LPs na Kye (de Graham Lambkin) e New Images (de Matt Mondanile/Ducktails) no ano passado. Autor de uma música pós-Industrial consequente da rica história britânica do género, de contexto caseiro e tecida por múltipla instrumentação e fontes sonoras espectrais, estreia-se em Portugal um par de meses depois do seu novo Impossible Symmetry na berlinense PAN ter exponenciado o justificado culto.
YONG YONG
Unidade nacional criadora de um embrião vagamente secreto e de pacto proto-transcendentalista, realizado para a produção de música a partir de um teclado-entidade mística (Sr. Yong), e demais tecnologia subterrânea/subterfugiada - pedais, voz, laptop, microfonia carismática, etc. A compleição do duo no espaço, constante motivo de reflexão por parte dos artistas, é sempre nova a cada ocasião; não se surpreendam se se surpreenderem. Música de quarto de dormir fumarento em câmara lenta para a eternidade, numa rara aparição destes jovens idealistas.
13 OUTUBRO
CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DA MATA DA MACHADA. 10h-13h30
RECOLHAS SONORAS PEDAGÓGICAS
[No âmbito do projecto SONS DO ARCO RIBEIRINHO SUL]
Luís Antero, artista responsável pelas gravações sonoras no projecto Sons do Arco Ribeirinho Sul, e o Centro de Educação Ambiental da Mata da Machada realizam uma oficina de gravações sonoras de campo, denominada Recolhas Sonoras Pedagógicas, dirigida a jovens dos 6 aos 18 anos. Fundamentalmente, o que se pretende com esta oficina é uma introdução às práticas de gravação sonora de campo, num contexto específico, dotando os alunos de ferramentas teórico-práticas sobre o tema. A Mata da Machada servirá assim de ponto de encontro, de estudo e de gravação. Os participantes terão a oportunidade de gravar as várias sonoridades de algumas espécies existentes na Mata da Machada, com recurso a gravadores e microfones vários.
IGREJA DA Nª Srª DA GRAÇA DE PALHAIS. 17h30
CONCERTO PARA OLHOS VENDADOS por LUÍS ANTERO
[No âmbito do projecto SONS DO ARCO RIBEIRINHO SUL]
“Muitas vezes paramos para ver, raramente paramos para ouvir” Que importância tem o som no nosso quotidiano? Continua a ser, como preconizado por Murray Schafer na década de 1970, o mais negligenciado elemento do nosso quotidiano? Não será o som também caracterizador da identidade das nossas aldeias, vilas e cidades? É na tentativa de resposta a estas questões que surge o conceito de um Concerto Para Olhos Vendados. O público é convidado a, literalmente, vendar os olhos, deixando somente os canais auditivos abertos… Com recurso a gravações de campo, constrói-se uma paisagem sonora ao vivo, despertando os ouvintes para os sons presentes no dia-a-dia de todos.
ESCOLA DE JAZZ DO BARREIRO. 22h
concertos: MAN FOREVER
Veículo solo para as explorações mais livres de John Colpitts – também conhecido como Kid Millions e baterista nos Oneida, que deram um memorável concerto na edição do ano passado do OUT.FEST - Man Forever assenta no efeito transcendente da repetição como idealizado pelos grandes do minimalismo. Com esse imponente legado assente nos princípios unificadores mais vitais do rock – que costumamos apelidar de kraut na falta de referências que melhor o definam – Man Forever vai carregando esse lado humano, num contínuo de percepção telúrica em constante mutação e com vista ao infinito – como se o Drumming do Steve Reich fosse reinventado em plena efervescência no wave. Com dois álbuns editados na incontornável Thrill Jockey, esta estreia em terras lusas far-se-á num regime de colaboração que vai pôr o músico norte-americano em contacto com algumas das figuras mais essenciais da cena musical local e nacional, para a interpretação da peça “Surface Patterns” do disco Pansophical Cataract, acabado de editar. Um acto de comunhão de mentes e de partilha de novas direcções musicais de forma e sentido.
RODRIGO AMADO
Saxofonista português (Lisboa, 1964) que progressivamente se afirmou como das figuras mais constantes, activas e dinamizadoras no panorama do jazz nacional há mais de duas décadas.
Com um currículo invejável ao nível dos pares nativos e internacionais com quem tocou ao vivo e em estúdio ao longo dos anos, com digressões empreendidas em território europeu e norte-americano, está também ligado à génese da editora Clean Feed, escreve regularmente sobre música para o jornal Público e tem mostrado publicamente trabalho em fotografia que desenvolve paralelamente aos seus projectos musicais. O seu fluxo de edições nos últimos anos tem sido constante, com particular destaque para o seu trio com Kent Kessler e Paal Nilssen-Love e a sua celebrada formação lusa Motion Trio, que ainda este ano, acrescida do trombonista Jeb Bishop, editou Burning Live At Jazz Ao Centro, disco apresentado no Barreiro, no passado mês de Abril, numa inesquecível actuação no
Be Jazz Café. BE JAZZ CAFÉ. 00h
THE FISH [JEAN-LUC GUIONNET, BENJAMIN DUBOC, EDWARD PERRAUD]
Mais associados às estratégias da improvisação lower-case e aos redutos do near-silence, dos quais se constituíram como expoentes máximos no panorama contemporâneo francês e europeu, o saxofonista Jean-Luc Guionnet e o baterista Edward Perraud deixam de lado tais técnicas de contenção quando se juntam ao contrabaixista Benjamin Duboc neste feérico trio de nome The Fish. Dado o extenso currículo dos músicos nos terrenos sempre voláteis da música improvisada, esta formação poderá nem constituir uma surpresa absoluta, mas aquilo que ouvimos em Moon Fish – editado já este ano pela portuguesa Clean Feed - não deixa de nos espantar pelo seu poder de fogo físico e anímico. Recusando continuamente estancar nos arquétipos cansados de algum free jazz mais ruminante, este trio vai evocando de um modo quase informal alguns dos espíritos livres que mais interessam – Albert Ayler à cabeça, mas também os discos de Charles Gayle para a Silkheart ou a cena loft de Nova Iorque nos anos 70 – numa música tão instável quanto precisa e enérgica
CMB













