No Auditório da Freguesia da Verderena - BarreiroGrupo Projéctor Teatro repõe «Solário»

Por Jornal Rostos
O Solário
Sinopse
Início dos anos 70 do século XX. Clínica de luxo na zona de Sintra. Um solário quase sempre nevoento como é normal naquela região, mas onde se respira o ar puro do mar e da serra. Para ali eram depositados os filhos ou familiares, gente de uma gama social superior. Uns com traumas da guerra, outros de doença do foro psíquico
Quatro personagens cheios de tiques, birras, medos e preconceitos, uma denúncia angustiada de uma enorme hipocrisia social que os vitimou. Cada um tenta desvalorizar o motivo que os levou para aquele lugar. Com histórias, agressões, de família, de guerra, que desabafam com mais ou menos violência como se a confissão fosse o tratamento adequado. Acaba sempre violência. E ali estava a enfermeira, no fundo também ela vítima dos mesmos males, mas que se impõe e tenta esconder a sua sensibilidade como se uma pedra de gelo se tratasse.
Esta peça recorda-me o filme “Voando Sobre Um Ninho de Cucos”.
O final é trágico, como trágico é o mundo de mentiras em que vivemos quase nunca reagindo contra os falsos valores impostos pela sociedade decadente.
BREVE NOTA PARA A MEMÓRIA
“Há pessoas que dizem (mentindo com os dentes todos, creio eu) que não têm memória. Agem como se ela se pudesse apagar com uma borracha, como se fosse uma leitosa pedra de gelo, derretendo, sem defesa.”
“Há pessoas que, deitando terra preta e húmida em cima do passado; em pânico; evocando toda a corte do céu para o não revisitarem.
Solário é uma alegoria, uma viagem ao passado.
Ao nosso. Recente.
Passado que tenho à cabeceira da memória, assim como outros têm à cabeceira da cama, um Cristo de Marfim ou uma Senhora do Carmo, de barro vidrado.
São coisas, cheiros, pedaços, ecos, imagens.
De avós com saias de baixo, guarnecidas a primorosos bordados; de mesas de consoada em alvíssimas toalhas; de um esquilo de lata e corda mecânica.
Estas, doces.”
E tão amargas, outras.
O prof. Carlos de Sousa, deixando os alunos recitar Alda Lara nas aulas de dicção, no velho casarão da Rua dos Caetanos, com medo que, sobre os esfiapados tapetes do Conservatório, estivessem bufos, pides e coisas assim; o mundo inteiro, ignorando-nos, isolando-nos, humilhando-nos, durante 50 anos; o Silva esmigalhado por uma mina, sem tempo para acabar seu curso de regente agrícola, para viver.
Por isso este texto.
Que me dói.
Que eu queria que vos doesse.”
Fernando Augusto













