Emília Nadal exposição em SetúbalO tempo e as circunstâncias

Por Jornal Rostos
Integrada nas Comemorações do Março/Mulher, em que o MAEDS (Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal) sempre participou desde a sua fundação, a presente exposição, constituída por cerca de meia centena de trabalhos, traz a Setúbal pela primeira vez a obra de Emília Nadal, uma das mais importantes artistas plásticas contemporâneas portuguesas.
A obra de Emília Nadal permite interrogarmo-nos sobre a existência entre nós de uma Arte do Género. Com efeito, mesmo durante o período de encerramento do país aos ventos de mudança do Exterior, situação que só a Revolução de Abril de 1974 viria a alterar radicalmente, a artista cultivou o cosmopolitismo e uma extraordinária capacidade de critica social, rompendo tabus e demais interdições.
No seu trabalho, Emília Nadal opera a desconstrução dos “modelos femininos de esposa ideal” instituídos pelo Estado Novo, usando linguagens e metodologias inovadoras no meio artístico português, como as famosas “embalagens para produtos naturais e imaginários liofilizados”. Mais recentemente, na série “produtos emergentes” reflecte sobre problemas estruturais e abrangentes da sociedade portuguesa.
Com uma sólida formação académica, Emília Nadal afirma-se não só como artista singular, com vasto curriculum, mas também como cidadã pró-activa que tem feito “escola” na defesa dos interesses dos artistas portugueses, nomeadamente na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Sobre a exposição:
Integrada nas Comemorações do Março Mulher/2015, a presente exposição, constituída por 48 trabalhos, traz a Setúbal pela primeira vez a obra de Emília Nadal, uma das mais importantes artistas plásticas contemporâneas portuguesas.
Já vai longe o tempo (1949) em que Emília Nadal entrou primeiro para a Escola de Artes Decorativas António Arroio e depois para a Escola Superior de Belas-Artes (1956-1961), onde concluiu a licenciatura em pintura com a melhor classificação do seu curso, e pode ser hoje difícil imaginar quanta firmeza de carácter era necessária para subverter os papéis atribuídos ao género, rompendo as paredes do espaço doméstico para conquistar um lugar público, em uma sociedade fortemente androcêntrica e avessa a qualquer mudança.
A obra de Emília Nadal permite interrogarmo-nos sobre a existência entre nós de uma Arte do Género. Com efeito, mesmo durante o período de encerramento do país aos ventos de mudança do exterior, situação que só a Revolução de Abril de 1974 viria alterar radicalmente, a artista cultivou o cosmopolitismo e uma extraordinária capacidade de crítica social, rompendo tabus e demais interdições. Tenha-se presente a série de aguarelas-gouaches de 1973, obra de “clandestinidade” contra a guerra colonial, que viria a contaminar a intervenção da artista no painel colectivo de 10 de Junho de 1974, promovido pelo Movimento Democrático de Artistas Plásticos, infelizmente hoje desaparecido. Citem-se também dois trabalhos da série Sereias, de 1972 (Crepúsculo e O Festim), onde a sereia é literalmente devorada por “inocentes” cordeiros. De notar que em O Festim, o cenário, algo apocalíptico, possui ressonâncias das suas Arqueologias do Futuro — colapso de um tardo capitalismo descontroladamente voraz— que hoje se nos afiguram premonitórias da tragédia de 11 de Novembro de 2001, em Nova Iorque. De 1972, importa ainda referir uma obra de identificação com o género (?). Trata-se de uma extraordinária composição de contexto familiar onde o protagonismo recai sobre as crianças (viagem à infância feliz de Emília Nadal?). Valorizando as actividades de manutenção relacionadas com os cuidados e socialização da infância, nela sobressai a conciliação entre vida familiar e projecto artístico conjugados no feminino; porém, outros aspectos e inquietações de tão complexa obra, que nos remetem para a permeabilidade entre trajecto de vida privada e produção artística, ficam fora da brevidade desta introdução.
No pós 1974, Emília Nadal opera a desconstrução dos “modelos femininos de esposa ideal” instituídos pelo Estado Novo, usando linguagens e metodologias de filiação Pop Art, segundo interpretação muito própria. Na série das embalagens para produtos imaginários, destacam-se os trabalhos de 1977, Mulher ideal e A esposa Ideal.
De um modo geral, é possível afirmar que a obra artística de Emília Nadal reflecte criticamente problemas estruturais e abrangentes da sociedade portuguesa e, nessa óptica, reconfigura o acto criativo nas suas dimensões social e política, abrindo frestas para lúcida e sensível experimentação do real.
Com uma sólida formação académica, Emília Nadal afirma-se não só como uma artista plástica singular, com vasto curriculum, mas também na comunicação escrita, com destaque para textos sobre educação e ensino artístico, violência contra as Mulheres. Na sua participação cívica destacam-se a integração em diversas comissões governamentais destinadas à análise da educação e do ensino artístico, e a acção de democratização do ensino e da fruição pública das artes visuais, na Sociedade Nacional de Belas Artes onde desempenha presentemente o cargo de Presidente da Assembleia Geral. Em 2013, foi condecorada pelo Presidente da República com o grau de Grande Oficial do Mérito Civil.
A exposição deverá proporcionar uma viagem através dos percursos artísticos de Emília Nadal, organizando-se por núcleos temáticos.
As obras expostas permitem observar ecos da matricial cultura visual mediterrânea (ambas as margens incluídas), em especial da italiana e catalã, com revisitações da Flandres (J. Bosch), do mundo luminoso de Turner, do cosmopolitismo da Pop Art americana (Andy Warhol, Tom Wesselmann, Roy Lichenstein) (AAVV, 2011). Como ilustração da afirmação precedente, observe-se o Canto XI, de 1973, onde o conceito de Pop Art está presente não só na linguagem pictórica, como na ideia de desconstrução dos mitos estereotipados da cultura portuguesa, em cuja sombra estagnava e morria lentamente o país em interminável guerra colonial. A linguagem plástica utilizada por Emília Nadal neste trabalho recorre à “caixa” de dramatização, exposição, ou simplesmente de selecção temática, para de seguida a desactivar através das suas diagonais ou oblíquas luminosas. A irreverência colocada na desmistificação da figura de Camões (desgastada pelo abusivo uso que dela fez a ideologia do Estado Novo) materializa-se genialmente em caneca de loiça de feira, de tradição popular oitocentista (Rio-Carvalho, 1986).
Emília Nadal move-se, em oposição dialéctica, entre geometrismo, estabilidade, busca de equilíbrio e de rigor (caixa, pêndulo, fio de prumo) de remota influência italianizante (Piero della Francesca) e as suas oblíquas de luz em trânsito para o infinito, que atravessam e instabilizam a aparente solidez das coisas e das ideias. Uma terceira camada impõe-se na construção da narrativa pictórica de Emília Nadal que compele à observação crítica da sociedade de consumo massificada, com seu ritmo triturador da condição humana e à percepção das patologias do contexto sociopolítico de pertença mais próximo, usando uma imagética realista em aparente mimetismo com as imagens icónicas dessa realidade social, mas estética e eticamente transformadas pelo génio criativo.
Referências
AA.VV. (2011) – Museu Berardo. Um Roteiro.
RIO-CARVALHO, Manuel (1986) – Emília Nadal. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
Joaquina Soares
Emília Nadal
Imperativos 1970-2015
O tempo e as circunstâncias
(Pintura, desenho e instalação)
De 28 de Março a 20 de Junho de 2015.
Horário de visitas – de terças a sábados, das 9h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30. Encerra às segundas, domingos e feriados. Entrada livre.
Avenida Luisa Todi, nº162. 2900-451 Setúbal.













