Setúbal - Exposição de fotografia, pintura e gravura«O tempo de uma paragem»
Às 17h, e aproveitando "o tempo de paragem", Anne-Marie Dégut dançará "Lucciola".

Por Jornal Rostos
O tempo de uma paragem
Josette Paquet-Grégy
Casa da Avenida
O tempo de uma paragem, na Casa da Avenida, apresenta um conjunto de trabalhos anteriores a 2005 – fotografias, gravuras, pinturas, objectos, livros de artista – e outro conjunto de trabalhos inéditos, produzidos entre 2005 e 2014 – fotografias, pinturas, e dois vídeos - , de Josette Paquet-Grégy (1946, Mâcon en Saône-et-Loire).
A exposição O tempo de uma paragem surge no seguimento de uma busca continuada de Josette Paquet-Grégy por traduzir visualmente fragmentos de uma realidade que é a sua, numa percepção subjectiva que nos chega aumentada em gesto e simplificada em forma, numa metodologia reminiscente do fauvismo do início do Século XX. O termo “les fauves” - as bestas selvagens - surgiu em 1905, pela voz do crítico Louis Vauxcelles para definir o trabalho de Henri Matisse (1869-1964, Le Cateau-Cambrésis - Nice) e André Derain (1880-1954, Chatou, Yvelines - Garches, Hauts-de-Seine) com as suas cores fortes, não naturalistas dadas por gestos soltos do pincel em formas simplificadas, muitas vezes quase abstractas.
É precisamente neste processo simultaneamente forte e de abstracção que as fotografias, as gravuras, e as pinturas – como a série 366 – 2008 (2008) - , de Josette Paquet-Grégy, se assumem. Quando entramos no espaço da Casa da Avenida, somos recebidos por uma imensidão de cores luminosas e movimentos. Somos levados a uma multiplicidade de micro-histórias de um dia-a-dia pessoal, como um diário.
O carácter diarístico do trabalho de Josette Paquet-Grégy surge em séries de fotografias e pinturas como o Journal intime (2008), que revela momentos de uma vida itinerante ao longo de um ano nas margens do Mediterrâneo; o Ritual (2015) que descreve cinco meses de idas à Lagoa de Santo André; o Totem (2015) que manifesta a efemeridade de um lugar – a Lagoa de Santo André - com a passagem de cada dia; ou os vídeos que são, para a artista, fotografias em movimento que expressam – mais do que narrar - momentos; ou as Imaiku (2009), imagens às quais se associa um haiku, um poema de três linhas.
A passagem do tempo surge, no trabalho de Josette Paquet-Grégy, como uma performance, seja através de fotografia, de pintura, de gravura, de vídeo, ou de poemas haiku em livros de artista. A performance emerge nestas formas sempre como uma intersecção entre imagens e coreografias. Desde a década de 1990 que Josette Paquet-Grégy colabora com Anne-Marie Dégut, uma artista com uma prática assente na dança e na criação de figurinos. No cruzamento dos gestos fotográfico e coreográfico, criam aquilo que designam de “foto-coreo-grafias”, muitas vezes na forma de livros de artista (como os Ille Corégraphique, 2011-14 e os Petits Bonheurs, 2010), que revelam, em última instância uma escrita performática.
A escrita é, no trabalho de Josette Paquet-Grégy, uma ferramenta tão conceptual quanto formal. Nos livros de artista e em séries de fotografias, escreve poemas haiku, um tipo de poesia Japonesa em pequenos textos com três linhas e dezassete sílabas. Muitas das suas séries de fotografia, como as Imaiku (2009), colocam em diálogo imagens e estes pequenos textos que, formalmente, lembram entradas num diário.
O conjunto de cores, imagens, e traços sobrepostos nos trabalhos da exposição O tempo de uma paragem, numa composição propositadamente aleatória, emerge de um processo de adições de impressões e movimentos, ora por meio de observação ora por meio de coreografia mas sempre de um modo activo. Na exposição que revela o corpo de trabalho de Josette Paquet-Grégy ao longo de mais de duas décadas, o elemento que surge evidenciado é a efemeridade inerente à condição humana.
Totem (2015) apresenta a ideia de duração no tempo enquanto algo inerente à existência dos objectos, tal como da natureza. Material, lugar e tempo, em perfeita consonância, são de facto, parte do mesmo movimento da água que encontra a areia na Lagoa de Santo André, onde as fotografias foram feitas. A artista regressou, entre 27 de Maio e 29 de Outubro de 2015, todos os dias ao mesmo local para encontrar um tronco de árvore morto habitado por um novo elemento que esvoaça ao vento que, invariavelmente, o expulsará antes do dia seguinte. O processo de ida e volta de Josette Paquet-Grégy àquele lugar para encontrar sempre algo de novo, conta-nos dos movimentos eternos do mar e do vento.
É justamente nesta relação aparentemente contraditória entre tempos efémero e eterno que o corpo de trabalho – ora ao longo de um ano de (re)visitas cíclicas, ora com o tempo de uma performance cristalizada num momento irrepetível – em O tempo de uma paragem, se escreve.
Texto: Luísa Santos













