Barreiro - «O Inspector» de Gogol encenado por Jorge CardosoSentir no teatro o pulsar da vida...porque a vida é uma gaiola!
Uma peça divertida. Um espectáculo que recomendo a todos que gostam de teatro e que gostam de sentir no teatro o pulsar da vida.

Por Jornal Rostos
O teatro é a vida e a vida é o teatro. A vida real é aquela que sentimos pulsar todos os dias e quando, no palco, sentimos essa vida real a pulsar, de súbito, ficamos com uma terrível sensação de não sabermos onde começa a vida real e a ficção – o teatro!
«O Inspector» de Gogol, encenado por Jorge Cardoso, é mais um pretexto para pensarmos o contexto dos tempos que vivemos, assim como quem escuta, vê ou vive, por dentro dos dias ou da memória, “uma história que podia ter acontecido”, porque não, aqui, nesta cidade de província, hoje, ou há muitos anos.
Essa conflitualidade entre o ser e o parecer e vice versa, onde, o importante, é, afinal, manter a ilusão e sobreviver no sistema.
Começo por referir a sensação que me transmitiu aquele cenário, ali, vivo e intenso, como quem olha para um quadro esvaziado de madeira, que serve de mera decoração para o encenador colocar as suas personagens, dando-lhes formas e personalidades num contexto que se divide naquele mundo – o quadro esvaziado - e o outro, uma espécie de ringue - «grade» ou «gaiola» - , onde os personagens entram, mexem-se, remexem-se e «mergulham» por dentro de si mesmos e fazem emergir as suas conflitualidades, temores, decisões e indecisões.
Aquele «quadro de madeira esvaziado» dá uma beleza muito especifica ao cenário e proporciona uma dimensão visual que permite viajar entre o realismo de uma paisagem distante, e, ao mesmo tempo coloca-nos naquele lugar, o espaço cénico, onde mais de uma dezena de personagens movem-se, agem e saltam para a vida, deslumbrantes, pintadas de um colorido expressivo, que se sente num guarda roupa riquíssimo que dá às personagens a sua própria autenticidade.
Cada cena é um quadro que o encenador “pinta”e dá vida ao «quadro de madeira esvaziado», numa sucessão de «quadro figurativos» de uma grande beleza.
Depois, aquela «grade/gaiola», o ringue dos conflitos psicológicos, o símbolo do sistema que aprisiona as personagens, de todos os sistemas – judicial, saúde, ensino, as comunicações, o poder politico - tudo é marcante naquela «prisão» de vida e de vidas.
Aquela «grade» é estruturante do espectáculo, e, afinal, é também estruturante da realidade. O pulsar do texto no contexto – o sistema.
Uma peça onde cada personagem é um elemento figurativo da realidade. Todas bem interpretadas. Todas com expressão corporal e uma dicção que permite sentir as palavras, até, nos comportamentos das personagens, nos seus tiques ou características especificas. Foram todos formidáveis.
Uma peça divertida. Um espectáculo que recomendo a todos que gostam de teatro e que gostam de sentir no teatro o pulsar da vida.
António Sousa Pereira
Ficha Técnica
Governador – Rui Quintas
Mulher do Governador – Patrocinia Cristovão
Filha do Governador – Carla Carreiro Mendes
Intendente Escolas Públicas – João Parreira
Mulher do Intendente – Vanda Robalo
Juíz – Rui Félix
Provedor Hospitais e Misericórdias – Ricardo Guerreiro
Mulher do Provedor – Manuela Ramos Félix
Director dos Correios – Vítor Nuno
Proprietário – Vítor Nuno
Proprietário – Alexandre Antunes
Funcionário – Henrique Gomes
Óssip, criado – Gonçalo Cardoso
Chefe da Policia –Manuel Alpalhão
Criada do Governador – Catarina Santana
Criado da Estalagem – Hugo Pires
Título – O Inspector
Autor – Nikolai Gogol
Tradução – Orlando Neves
Encenação – Jorge Cardoso
Assistente de Encenação – Catarina Santana
Cenografia – João Pimenta
Figurinos – Ana Pimpista
Música – Miguel Félix
Construção do Cenário – António Santinho
Apoio Figurinos – Oficina de Costura Criativa e «O Dedal»
Apoio Caractarização – Manuela Ramos Félix
Luminotecnia – João Oliveira Jrº
Operação Técnica - Maria Inês Santos
Design Gráfico – João Pimenta
Fotografia – Cláudio Ferreira
Produção Executiva – Catarina Santana
Apoio Geral –João Henrique Oliveira
Este espectáculo é dedicado a Eugénio Silva













