Companhia de Teatro de AlmadaEstreia "Tio Vânia" de Howard Barker

Por Jornal Rostos
Rogério de Carvalho, que já encenou, no Porto, Limites/Possibilidades (em 1998) e Mãos mortas (em 2006), do mesmo autor, dirige desta vez no Teatro Municipal de Almada um elenco de actores em que há a destacar Elmano Sancho, Marques D’Arede e Teresa Mónica. O espectáculo estará em cena até 20 de Abril, de Quarta a Sábado às 21h30 e Domingos às 16h00.
Sinopse
Tio Vânia, escrito em 1991, é livremente inspirado na conhecida obra de Tchecov. Na peça de Barker, as personagens libertam-se de um criador que as sufoca. Reclamam o direito de exercer a sua vontade, subtraindo-se desta forma à paralisia a que Tchecov as condenou. A fatalidade do seu destino humano, presente no texto original do dramaturgo russo, é completamente despedaçada na versão de Barker: as personagens de Tio Vânia deixam jorrar livremente para fora de si as pulsões de amor e de morte até aí inibidas. Neste texto, Howard Barker apodera-se de um mito literário para manifestar a sua visão sobre o teatro da condição humana.
O autor
Howard Barker, nascido em 1946 em Dulwich, nos arredores de Londres, é autor de mais de cinquenta peças de teatro, sendo também pintor, poeta, encenador e autor de textos de teoria teatral. Barker esteve durante algum tempo ligado ao movimento de teatro político do Royal Court de Londres, juntamente com Edward Bond e David Edgar, fundando posteriormente, com um grupo de actores e encenadores seus amigos, a sua própria companhia: a Wrestling School, com o objectivo de produzir exclusivamente as suas peças.
A dramaturgia de Barker, que encontra em Brecht e em Shakespeare as suas principais influências, procura fundar uma concepção moderna da tragédia, em que se exprimam a complexidade dos seres humanos e as formas que estes encontram para se debaterem contra os movimentos da História e os valores morais dominantes. As situações dramáticas, nas peças de Barker, situam-se sempre nos dias que se seguem às catástrofes, nos períodos pós-revolucionários, ou períodos de pós-guerra. Quer se trate de fábulas, de epopeias, ou dramaturgias mais “sequenciais” a partir de uma temática específica, os textos de Barker penetram sempre na alma humana, revelando aquilo que ela tem de mais terrível e magnífico, situando-se entre o racional e o irracional, entre a razão e as pulsões.
O teatro da catástrofe
Para descrever a sua obra, Barker criou a expressão teatro da catástrofe. Geralmente as suas peças giram em torno de temas como a violência, a sexualidade, o desejo de poder e as motivações humanas. Rejeitando a ideia de que o público deve ter uma resposta unânime ao que acontece em cena, Barker procura fragmentar as respostas dos espectadores, confrontando individualmente cada um de nós com o que se passa no palo. “Temos de ultrapassar a urgência de fazer as coisas em uníssono”, escreve. “Cantar em conjunto, murmurar em conjunto melodias banais, não é sinónimo de colectividade”. Onde outros dramaturgos poderiam eventualmente clarificar uma cena, Barker procura torná-la mais complexa, ambígua e instável. Opondo-se à predominância da comédia na cultura contemporânea, que nos unifica por meio da banalidade em que consistem as respostas partilhadas, Barker luta pelo renascimento de um teatro trágico, que nos force a reconhecer as nossas diferenças. Só através de uma renascença trágica, defende Barker, é que a beleza e a poesia poderão regressar aos palcos. “A tragédia liberta a linguagem da banalidade”, assegura. “Faz com que a poesia regresse ao discurso”.
Bilheteira: Entradas entre os seis e os treze euros. Reservas através do telefone 212739360.
Ficha artística
Autoria Howard Barker Encenação Rogério de Carvalho Tradução Paulo Eduardo Carvalho Cenário José Manuel Castanheira Figurinos Mariana Sá-Nogueira Desenho de luz José Carlos Nascimento Interpretação Bernardo de Almeida, Elmano Sancho, Laura Barbeiro, Laurinda Chiungue, Marques D’Arede, Miguel Sopas, Paula Garcia, Teresa Mónica e Wagner Borges.













