Companhia de Teatro de AlmadaPensar : O que sou? O que fui? Para onde vou?
A peça com a duração de três horas, com intervalo, prende o espectador, pelo seu ritmo e pela intensidade do texto, que nos faz mergulhar nos dramas psicológicos de cada uma daquelas personagens que, tentam, afinal, descobrir o caminho para as “estradas felizes”.

Por Jornal Rostos
A peça “Uma longa jornada para Noite” leva-nos ao interior de uma família (americana) , onde cada personagem é um “estado de alma”, um “estado de consciência” que se digladia, consigo próprio e nas relações interpessoais familiares com um quadro de referência, onde, afinal, cada um deu o seu contributo no fazer o outro. Todos são fruto dos dramas psicológicos daqueles que o rodeiam.
É, talvez, muito objectivo, neste texto, que cada ser humano, afinal, é, ele próprio, também, fruto das relações com aqueles que o rodeiam e as circunstâncias epocais.
Sentimos na peça o presente e a solidão interior de cada personagem, numa permanente conflitualidade de procura de futuro, mas, onde, as memórias do passado emergem e se cristalizam como uma marca, que leva cada um a pensar: O que sou? O que fui? Para onde vou?
Um cenário imponente, que faz lembrar um Templo Grego ou um Cenáculo Romano, num ambiente teatral de “tragédia grega”, onde o jogo de luz e sombras, contribui para criar emoções e adensar a intensidade dramática, principalmente na segunda parte do espectáculo.
Uma encenação onde todas as marcações, contribuem para dar ritmo ao espectáculo, criar situações de “focamento” de luz, marcações que funcionam de forma sincopada para dar força e dimensão, em cada momento, em cada instante, à importância dos personagens no espaço cénico.
As marcações sente-se, foram estudadas ao pormenor, nos gestos, no enquadramento de luz, som e fazem parte do próprio ritmo das palavras, que brotam de todos os actores com uma dicção forte e enquadradas de forma perfeita na colocação corporal e na vivência das «situações» dos personagens.
A peça é muito exigente e coloca a cada actor um desafio enorme de dominio do personagem, quer nos seus silêncios, quer na interpretação dos seus dramas psicológicos.
Gostei da expressividade de Teresa Gafeira, no papel de Mary Tyrone, nos tiques que conseguiu construir com subtileza, que nos leva pouco a pouco a «penetrar» na agonia e traumas da personagem, com perfeição.
Marques D’Arede, no papel de James Tyrone, desenvolve um trabalho digno e firme na interpretação, num papel que lhe exige um grande esforço de concentração, de forma a impedir que o personagem saia em fuga, dada a sua diversidade de comportamentos psicológicos, principalmente, na segunda parte do espectáculo, quando se mistura e atinge o apogeu na ligação entre a “avareza” e a “bebedeira”.
Luis Ramos, no papel de James Tyrone Jr, atinge a apoteose da sua interpretação na segunda parte do espectáculo, dado que na primeira parte a projecção em palco está mais reservada para Mary e James.
Luis Ramos dá um importante contributo para o desenvolvimento da força dramática que, de forma intensa, em ritmo crescente, se desenvolve na segunda parte do espectáculo, onde, aliás, a peça atinge o expoente máximo, na construção de quadros de grande beleza estética, quer no jogo de sombras e luz, quer na intensidade colocada na vivência dos dramas dos personagens, que, na autenticidade do caminho percorrido, sentem, afinal, que estão a percorrer uma “estrada” sem retorno possível.
Elmano Sancho, no papel de Edmund, é o fio condutor das relações da família, pelas diferentes situações que vive a sua personagem, o seu desempenho exige uma grande «dialéctica» e, por essa razão, o corpo do actor tem que funcionar, com o apoio da caracterização, dando-lhe a dimensão dramática - espelho de dor – situação que merecia, talvez, uma melhor atenção.
O desempenho está perfeito, só que o desempenho de um personagem é difícil de aguentar quando a caracterização não o sustenta – ele é poeta e tuberculoso, fica-se um pouco por um poeta com tosse. O seu papel podia ser mais potenciado na vivência trágica.
Laura Barbeiro, no papel de criada, não deforma a sua personagem, funciona de forma perfeita como elemento de ligação com personagens ausentes de palco, mas, de referir que, na vivência da sua “bebedeira”, por momentos, dispersa-se da personagem. Gostei da sua presença e da sua sobriedade em palco.
Como nota final, sublinho que gostei de todas as interpretações. Gostei da cenografia. Gostei dos desenho de som, luz e do guarda roupa.
Gostei do espectáculo, e, tendo sido a minha primeira deslocação ao Teatro Municipal de Almada, aqui repito as palavras que usei no final do espectáculo: “Bravo! Bravo!”
António Sousa Pereira
Sinopse Técnica
James Tyrone, o pai, cabotino enriquecido, mas devorado pelo monstro da avareza.
Mary, a mãe, mulher com profundos dramas, vive dependente da morfina.
James, o filho mais velho, ébrio, vive de forma intensa entre a inveja e o carinho que dedica ao irmão mais novo.
Edmund, o filho mais novo, poeta minado pela tuberculose.
A vida de uma família que vive cada dia, entre a solidão e a partilha dos dramas.
Uma família que se divide entre o amor, a esperança e o fracasso, sendo cada um, o espelho do outro, partilhado entre as memórias do passado, a força do presente e a angústia do futuro.
116ª produção da Companhia de Teatro de Almada
“Uma longa jornada para a Noite”, de Eugene O’Neill
Encenação
Rogério de Carvalho
Tradução
Helena Barbas
Espaço Cénico
José Manuel Castanheira
Assistência de Encenação
Laura Barbeiro
Assistência de Cenografia
Paulo Oliveira e Pedro Silva
( Com a colaboração dos alunos do Curso de Cenografia da Faculdade de Arquitectura de Lisboa/UTL)
Figurinos
Mariana Sá Nogueira
Assistência de Figurinos
Patrícia Raposo
Execução de Guarda-Roupa
Mestra Teresa Louro e costureiras Maria José Baptista, Natália Ferreira e Palmira Abrantes
Penteados
Luzia Fernandes
Desenho de Luz
José Carlos Nascimento
Desenho de Som
Guilherme Frazão
Operação de Luz e Som
Paulo Mendes
Intérpretes
Elmano Sancho
Laura Barbeiro
Luis Ramos
Marques d’Arede
Teresa Gafeira
Direcção de Montagem
Carlos Galvão
Montagem
António Antunes
António Cipriano
Jorge Gomes
Marco Jardim
Paulo Horta
Paulo Mendes
Promoção
Rodrigo Francisco
Edições e Exposição
Ana Rita Fernandes
Miguel-Pedro Quadrio
Rodrigo Francisco
Sónia Benite
Váleri Suire
Teatro Municipal de Almada
Sala Principal
Estreia 18 de Março – Em cena até 18 de Abril













