Festival de AlmadaEspectáculo de Honra 2010
Todas as criações propostas para votação, à excepção de uma, receberam votos da parte do público, o que significa uma grande adesão a programação oferecida.

Por Jornal Rostos
Foi assim anunciado por Rodrigo Francisco, no final da representação da estreia absoluta de Comédia Mosqueta – uma encenação de Mário Barradas, produzida pela Companhia de Teatro de Almada, que encerrou o Festival deste ano –, que a maioria dos votos se concentrara na peça Diálogo de um cão com o seu dono sobre a necessidade de morder os seus amigos de Jean-Marie Piemme, uma encenação de Philippe Sireuil, com o Théâtre National de la Communauté Française de Bruxelas (Bélgica). Enviam-se, em anexo, fotografias do espectáculo apresentado no Palco Grande da Escola D. António da Costa na segunda-feira, dia 6 de Julho (© Da Maia Nogueira).
O segundo lugar foi atribuído a Uivos, espectáculo de marionetas da companhia espanhola Teatro Corsário, com concepção e encenação de Jesús Peña.
Diálogo de um cão com o seu dono sobre a necessidade de morder os seus amigos
Esta peça de Jean-Marie Piemme, encenada por Philippe Sireuil, constituiu um dos grandes êxitos do último Festival d’Avignon. Texto, encenação e interpretação foram saudados com os mais fortes elogios. A peça de Piemme narra a história do encontro de um homem, porteiro de um hotel de luxo, mas que vive na precariedade de uma caravana, com um cão que passa a vida a exibir as suas cabriolas. Com a ferocidade salutar de uma escrita que não usa pinças para agarrar o Mundo, esta peça, de acordo com o encenador, «dá-nos o osso, o nervo e a carne de um belo pedaço de teatro que deve ser devorado sem qualquer moderação».
Esta é a história (fértil em reviravoltas) de um encontro entre um homem e um cão, mas não de um homem nem de um cão quaisquer. O primeiro é porteiro de um hotel de luxo mas mora nas condições precárias de uma caravana; o segundo passa o tempo a fazer cabriolas à frente dos carros para saborear o rangido das derrapagens. Era preciso que se encontrassem…
No que toca à retórica, os nossos dois comparsas poderiam ganhar todos os concursos: a mesma eloquência, a mesma sagacidade, a mesma indignação, a mesma manha, a mesma alegre irreverência quanto ao estado do Mundo. E também a mesma língua pendente perante a sede de felicidade e de justiça, o mesmo apetite para melindrar os poderosos deste Mundo, para criticar a estupidez de uns e o egoísmo de outros, e o mesmo agitar de cauda diante do prazer.
É a história de um homem e do seu melhor amigo. É a história de dois indivíduos tão pouco recomendáveis que só se pensa numa coisa: recomendá-los.
«Neste espectáculo veremos dois actores com os trajos de Roger e de Prince, o primeiro porteiro no Hotel Claridge, e o segundo rafeiro dos bairros pobres, ou seja um resmungão que morde e um espancado que resmunga, ou ao contrário, ou seja um grandalhão e um cretino de pêlo curto […] saboreando tostas de salmão e carne picada, vodka, tequilha e uísque – no mesmo copo – seis ovos e uma costeleta no forno com três cervejas para empurrar, e até uma mão de um morto.
Nele veremos alguns acessórios: a caravana onde o primeiro vive, as cortinas vermelhas e brancas das janelas, uma poltrona esventrada, um céu negro ou cor-de-rosa; um rabo falso (de cão), uma libré verdadeira (de porteiro), orelhas falsas (de cão), uma barbicha autêntica (de porteiro), um focinho falso (de cão), um verso autêntico de Paul Valéry, farsas e disfarces.
Ouviremos histórias, sonhos, falsas verdades e mentiras verdadeiras: as de uma menina que cresceu nos olhos do seu pai romancista, as de um fanfarrão de flauta especialista em falsas notas (de despesa), as de uma baronesa russa, de um Freddy que se chama John, etc.; essas e as deste dono e deste cão, duo improvável à conquista de uma humanidade na qual é preciso ainda acreditar.»
Philippe Sireuil
Philippe Sireuil | biografia
Nascido em 1952, no então Congo Belga, Philippe Sireuil é um dos mais destacados encenadores de língua francesa da actualidade. Ao longo da sua carreira encenou textos de Strindberg, Peter Handke, Bertolt Brecht, Alfred Musset, Tchecov, Koltès, Marguerite Duras, Jean- Luc Lagarce, Paul Claudel, Ibsen, Marivaux, Broch, Molière, Shakespeare, entre outros.
Jean-Marie Piemme | biografia
Jean-Marie Piemme (Valónia, 1944) estudou literatura na Universidade de Liège e teatro no Instituto de Estudos Teatrais em Paris. Dramaturgo no Ensemble Théâtrale Mobile, colabora em seguida com o Théâtre Varia, de Bruxelas. Entre 1983 e 1988, integra a equipa de Gérard Mortier na Ópera Nacional da Bélgica. A sua primeira peça é de 1986 (Neige en décembre). Seguiram-se mais de trinta textos de teatro, representados na Bélgica e no estrangeiro, alguns dos quais estão publicadas na Actes Sud e nas edições Lansman.
Intérpretes: Philippe Jeusette e Fabrice Schillaci
Cenografia e luz: Philippe Sireuil
Assistente de encenação: Christelle Alexandre
Figurinos: Catherine Somers
Música original: David Callas
Técnico de palco: Jean-Marc Feniou













