Companhia de Teatro de AlmadaEstreia «A mãe» de Bertolt Brecht
. Joaquim Benite dirige um elenco de 18 actores encabeçado por Teresa Gafeira
O espectáculo integra as canções e músicas originais, da autoria do músico alemão Hanns Eisler (o maestro Fernando Fontes assegura a direcção musical, suportada pela interpretação ao vivo de um dispositivo instrumental).

Por Jornal Rostos
Die Mutter foi escrita em 1931 a partir de adaptação teatral de Günther Weisenborn do romance A mãe, do escritor e activista político russo Máximo Gorki, que o publicara originalmente em inglês, em 1906.
Estreada no Theater am Schiffbauerdamm de Berlim, em 1932 – numa encenação de Emil Burri, com cenários de Caspar Neher –, A mãe só em 1951, no Berliner Ensemble, será dirigida por Bertolt Brecht, depois de ter voltado do exílio nos EUA (regressara a Berlim Oriental, em 1949).
Pelagea Vlassova – assim se chama a «mãe» que protagoniza a peça – sofre um dos mais cinzelados e conseguidos processos de formação da consciência no primeiro teatro de Brecht. Ultrapassando definitivamente o mero didactismo, o dramaturgo alemão deixa que Vlassova, sinuosa e progressivamente, aprenda a interpretar (e a partilhar) a luta revolucionária de seu filho, que acabará por morrer. De dona de casa timorata e apaziguadora, Pelagea Vlassova transforma-se em revolucionária activa, porta-estandarte de uma projecto ideológico novo.
Em Fevereiro no Porto
Após a carreira no Teatro Municipal de Almada, o espectáculo A mãe apresentar-se-á ainda no Porto, no Teatro Nacional São João, entre 12 e 21 de Fevereiro.
A peça «A mãe» na obra de Brecht
Die Mutter é ideal para historiar a produção de uma peça de Brecht, quer pelo texto em si mesmo, quer pelo conjunto das suas encenações. A estética e a política de confrontação características da peça colocam desafios particulares aos encenadores que procuram transferi-la para novos contextos e novos públicos, como o próprio Brecht descobriu. Die Mutter é de facto o único texto que ele encenou na República de Weimar, no exílio e na RDA, além de ter aconselhado também a sua co-produtora Ruth Berlau, nas produções de Copenhaga, em 1935, e de Leipzig, em 1950. As produções de Brecht para Die Mutter mostram como se desenvolveu a sua prática teatral, como ele respondia aos diferentes contextos políticos, culturais e institucionais, e como a experiência de encenar e avaliar peças contribuiu para a evolução das suas teorias; revelam, igualmente, de que maneira e até que ponto as teorias de Brecht se articulavam com a sua prática e a influenciavam em diferentes momentos.
Desde a morte de Brecht em 1956, Die Mutter foi levada à cena por mais quatro destacados encenadores alemães – Peter Stein, Ruth Berghaus, Manfred Wekwerth e Claus Peymann – e por outros homens de teatro, na maior parte dos países da Europa e da América, na Austrália, no Japão, na Índia e no Afeganistão. Nas décadas de 1970 e de 1980, tornou-se um texto essencial para os teatros politizados da Grã-Bretanha e da Escandinávia.
Como peça abertamente comunista, Die Mutter dividiu os críticos segundo as suas orientações políticas logo na estreia, reacção que se tem repetido desde então. Durante a Guerra-fria, críticos da Alemanha Oriental como Werner Hecht, Werner Mittenzwei e Ernst Schumcher, apresentaram-na como um importante passo em frente na obra de Brecht. Pelo contrário, muitos críticos do Ocidente consideravam Die Mutter uma aberração e rejeitaram-na, por vezes, em termos polémicos.
A questão da influência de Brecht sobre o teatro do século XX é decisiva, porque muitos foram os homens de teatro do pós-guerra que o usam como ponto de referência, quer positiva quer negativamente. O seu nome tornou-se sinónimo de teatro político: depois de 1968, encenadores de Esquerda do Ocidente – como Peter Stein – invocavam explicitamente Brecht como seu modelo, enquanto na década de 1990 os encenadores pós-modernos – como Frank Castorf – apresentaram o seu trabalho como uma reacção ao teatro político da razão de Brecht. Ainda assim, Sarah Bryant-Bertail e Meg Mumford sugeriram ambas que a representação pós-moderna explora na realidade o potencial radical das experiências de Brecht.
Brecht escreveu Dir Mutter em 1931-1932 em colaboração com a escritora Elisabeth Hauptmann, o compositor Hanns Eisler, o encenador búlgaro Slatan Dudov e o dramaturgo Günther Weisenborn. As fontes literárias da equipa eram o romance de Gorki A mãe (Мать), de 1907 na tradução alemã de Adolf Hess, e uma dramatização completada em 1931 por Weisenborn e Günther Stark, um dramaturgo da Volksbühne.
A adaptação selectiva por Brecht do romance de Gorki realçava os paralelos entre a situação na Rússia pré-revolucionária e na República de Weimar, centrando-se nas questões correntes dos cortes de salários, das greves e da brutalidade da polícia. Ao prolongar a acção até 1917, Brecht lembrava aos seus espectadores que o comunismo já tinha triunfado na Rússia e desafiava-os a lutarem por uma solução revolucionária para a crise política e económica da Alemanha. A música de Eisler intensificava o impacte político da peça: as canções refinavam os argumentos da peça e em 1932 eram interpretadas separadamente em concertos e concentrações.
A peça de Brecht regista a transformação de uma viúva russa apolítica, Pelagea Vlassova, numa revolucionária activa. A primeira cena apresenta a sua situação desesperada: o salário do filho, Pavel, foi reduzido e ela não vê maneira de fazer face aos gastos.
O teatro épico pressupõe que tanto os actores como os espectadores conservem desperta durante a representação a sua consciência crítica e política. Em vez de se identificarem com as personagens, os actores «narram-nas» ao público. Os actores não se transformam completamente; mantêm uma distância em relação às personagens que representam, apelando directamente ao sentido crítico do espectador. Este último pressuposto exige que os actores permaneçam numa atitude de não identificação emocional, de maneira a estimular a crítica da personagem.
Na década de 1920, Brecht e Piscator foram pioneiros de novas formas de representação no teatro alemão. Mas enquanto Piscator se apoiava principalmente na moderna tecnologia de cena, incluindo o cinema, para dar um comentário político e alargar o alcance das suas produções, Brecht desenvolveu novas formas dramáticas e teatrais. Através das suas técnicas dramáticas, métodos de representação e dispositivos de cena, criou um teatro dialéctico que expunha as contradições da realidade social e descrevia a sociedade como um processo em constante mudança, e não um estado fixo.













