Saltar para o conteúdo
Moldura

Teatro Municipal de AlmadaTroilo e Créssida, de William Shakespeare: O regresso à nossa modernidade
por Miguel-Pedro Quadrio

A estreia portuguesa de um texto de William Shakespeare (1564-1616) não pode deixar de ser entendido como um acontecimento teatral.

Todavia, o particular interesse de encenar hoje Troilo e Créssida (c. 1602-03) – peça do dramaturgo inglês que subirá à cena na próxima quinta-feira, dia 29 de Abril (às 21h30), na Sala Principal do Teatro Municipal de Almada – advém da sua surpreendente actualidade.

3 min de leitura
Teatro Municipal de Almada Troilo e Créssida, de William Shakespeare: O regresso à nossa modernidade por Miguel-Pedro Quadrio

Por Jornal Rostos

O texto de Shakespeare situa a acção de Troilo e Créssida em plena Guerra de Tróia. São várias as fontes de que o autor se terá servido para recontar a história amorosa dos co-protagonistas, tendo recorrido, talvez, às narrativas quatrocentistas de John Lydgate e William Caxton, e, seguramente, ao poema Troilus and Criseyde (c. 1380), de Geoffrey Chaucer – que parte de outro poema de Boccaccio, Il Filostrato –, não se pondo ainda de lado a hipótese de Shakespeare ter conhecido a tradução da Ilíada que George Chapman publicou em 1598.
Uma vez mais, porém, o que está em causa nesta peça não são propriamente os confrontos entre os heróis gregos e troianos, decididos a pôr um fim a uma guerra desencadeada pelos gregos para recuperam Helena, mulher do rei Menelau que Páris raptara. Como a encenação de Joaquim Benite e José Martins bem sublinha, o verdadeiro conflito não advém da guerra, mas do desconcerto do mundo que se abate sobre todas e cada uma das personagens (e que nós, «personagens» da pós-modernidade, tão bem conhecemos). A lenda heróica de Aquiles, Agamémnon, Pátroclo ou Ulisses sofre aqui uma torção maneirista, transformando as personagens nos grandes inimigos de si mesmos. Por seu lado, os troianos Heitor, Páris ou Eneias reflectem de modo nostálgico, quase cansado, a desadequação moderna da ordem tradicional.
O amor falhado entre Troilo – ele o mais jovem dos filhos de Príamo, rei de Tróia – e Créssida – ela, troiana, filha de Calcas, sacerdote traidor, que será reclamada pelos gregos numa troca de prisioneiros – é a face incandescente deste tempo de mudança profunda, gerando-se em Troilo uma ambiguidade que o aproxima do protagonista de Hamlet (e não será por acaso que Shakespeare escreveu esta última peça entre 1599 e 1601, só um ano antes, portanto, de Troilo e Créssida) e, em Créssida, um fascinante processo de emancipação que a torna numa típica sobrevivente da Modernidade.
«Luxúria, luxúria, sempre guerras e luxúria: nada mais está na moda. Que um diabo em chamas os leve a todos» (Acto V, cena 2): eis como a acção é resumida por Térsito, o bobo de Troilo e Créssida e, portanto, como é recorrente no teatro de shakespeariano, a voz autoral que comenta a acção.
E é justamente este insaciável desejo de sucesso pessoal, que, prescindindo de qualquer objectivo colectivo e aliado à inevitável conflitualidade a que dá origem, perderá todas as personagens da peça (algumas morrendo, como Heitor, porque já não têm manifestamente lugar no novo mundo; outros, como Aquiles, assassinando Heitor não num duelo leal, como Homero cantara na Ilíada, mas instigando um cobarde ataque colectivo ao herói grego). No cenário despojado de Christian Rätz, vinte actores – da Companhia de Teatro de Almada, da Companhia de Teatro de Braga e A Companhia de Teatro do Algarve –, procuram dar corpo justamente a esta dilemática condição de seres em trânsito, fixados na constante e imprevisível oscilação de valores, buscando uma racionalidade adaptável que os impeça de naufragar (esforço de que Créssida é um exemplo paradigmático).
Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção