Galeria do Teatro Municipal de AlmadaA palavra que rompe o silêncio, de Paulo T. Silva

Por Jornal Rostos
GALERIA DO TEATRO MUNICIPAL DE ALMADA
Até 6 de Março
PAULO T. SILVA | INSTALAÇÃO
(intervenções na galeria, na livraria e no sistema de som do foyer do teatro)
A PALAVRA QUE ROMPE O SILÊNCIO
“Agora a obra de arte tem que voltar a ser o verbo original, ou o grito – como diria Raul Brandão – responsável e comprometida com a sua própria aventura inauguradora do mundo. Concretamente, a obra de arte terá de voltar a ser palavra que rompe o silêncio entre mim e outrem. Isto significa, efectivamente, uma volta à oralidade, que a civilização das bibliotecas e da imagem rainha longamente interrompeu.”
Ernesto de Sousa
Oralidade, futuro da arte? (1968), publicado postumamente in Colóquio/Artes, n.81, Junho 1989,
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, pp.38-49
Não podemos dizer duas palavras ao mesmo tempo. Também não podemos dizer duas palavras ao mesmo tempo. Mas talvez achemos, no entanto, que podemos ver duas palavras simultaneamente quando estas se dão como imagem, por exemplo, como duas palavras sobrepostas. No entanto, precisamos de encontrar primeiro cada uma delas para então as visualizarmos na sua sobreposição. A palavra tem este efeito em nós, o de bastar apenas um vestígio da sua presença para nos fazer logo querer encontrá-la.
Cada palavra tem um lugar, ocupa o seu lugar. O seu sentido deriva do modo como se posiciona em relação às outras palavras, as que a antecedem ou as que a sucedem. Isto acontece mesmo com a palavra primeira, ou com a palavra última, ou ainda com aquelas que (a)parecem sozinhas. Porque outras antes se disseram, e outras depois se dirão. E a palavra sozinha só diz o que diz porque evoca as ausentes. Entre as palavras há movimento, há espaço e há tempo. Há então distância e proximidade porque existem relações entre as palavras.
E se relêssemos estas frases colocando “corpo” onde se encontra “palavra” e “corpos” no lugar de palavras? E se no balanço dessa releitura percorrêssemos “A palavra que rompe o silêncio”?
A palavra é para todos. Mas será sempre o que dela o corpo fizer. E o corpo é só de cada um.
Marta Traquino, 15 de Janeiro de 2011
Ficha técnica
Direcção de Montagem Carlos Galvão
Produção Paulo Mendes
Desenho de som Guilherme Frazão
Montagem Marco Jardim, Paulo Horta, António Antunes, Armando Vale
Agradecimento Nuno Carvalho
Voz Teresa Gafeira, Alberto Quaresma, André Gomes
Textos Richard Wagner e Gilles Deleuze (galeria e livraria), Samuel Beckett (sistema de som do foyer)













