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Moldura

No coração do Barreiro VelhoTEB - o amor no centro da dignidade humana

O TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro estreou ontem a sua nova peça «É urgente o amor», de Luis Francisco Rebelo, com encenação de Graciano Simões.

O espectáculo é agradável, tem ritmo, tem uma mensagem muito positiva, tem uma encenação criativa e viva.

7 min de leitura
No coração do Barreiro Velho TEB - o amor no centro da dignidade humana

Por Jornal Rostos

O TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro estreou ontem a sua nova peça «É urgente o amor», de Luis Francisco Rebelo, com encenação de Graciano Simões.
Um espectáculo que vai estar em cena até ao próximo dia 23 de Junho, aos sábados, na Oficina de Teatro Mário Pereira aos sábados, pelas 21h30.

Foi uma noite agradável, num espectáculo com ritmo e intensidade.
A encenação tem o cunho de Graciano Simões, com momentos pictóricos que marcam pela positiva o espaço cénico.
Uma peça marcada pela linha de encenação, com os recursos possíveis, mas com muita imaginação.
O final do 1º acto é deslumbrante, aquela luz ao fundo do túnel, que abre o caminho entre a vida e a morte, que, anteriormente, foi anunciada, numa «aragem» que sentimos no esvoaçar dos cortinados.
É um momento «delicioso», um daqueles momentos que demonstra como o teatro é uma arte que nasce e cresce no espaço.

As portas de luz, do 2º acto, que se abrem subitamente, elas, ali, emergem como a marca da diversidade discursiva dos personagens, ao mesmo tempo que prendem os personagens ao lugar, aquele espaço, onde sentimos que dramaticamente existe um conflito, uma fuga, uma ruptura nos discursos entre o passado, o presente e a busca de futuro – porque, afinal, a vida tem que continuar, mesmo que reinventada ou reformulada.
Uma história que nos faz sentir as palavras e o peso das palavras. A solidão. O amor. A sobrevivência. Os valores da dignidade humana.
Uma peça que deixa em aberto muitos temas para reflexão, numa noite de sábado, ali, no coração do Barreiro Velho, onde a esperança ainda se escreve com a palavra TEATRO.

Stanislavski, escreveu que “o actor como o soldado tem que se submeter a uma disciplina de ferro”, porque o seu próprio trabalho depende unicamente de si.
Uma estreia é sempre uma estreia e fica com uma marca de referência, por essa razão, cada actor deve esforçar-se por conhecer profundamente o seu papel, para melhor desempenho e para que funcione a equipa, porque o teatro é um trabalho de equipa.
Sentimos que, num ou noutro momento, algo faltou, na relação entre os personagens.
No entanto, tal não perturbou de forma global que a peça decorresse com ritmo e eficácia, mas, convém, naturalmente, um pouco de esforço no domínio dos papeis.

Uma nota especial, porque, de facto, esteve brilhante Ana Vitória, no papel de «Branca», que, de forma plena, assumiu a sua personagem, nas suas desdobragens psico-dramáticas, e com perfeita interpretação corporal.
Também, Susana Cunha, no papel de Madalena, foi uma personagem vivida de forma intensa.
A mãe representada por Conceição Lopes, no 1º acto pareceu-nos um pouco presa, mas, no 2º acto e no epilogo, soltou-se e deu força à sua personagem.
O Jorge, representado pelo veterano António Jorge Santos, esteve igual a si próprio, mas, talvez com excesso de confiança.
O Alberto, representado por Pedro Fona, devia soltar mais o personagem, porque tem todas as potencialidades para lhe dar dimensão e força.
O Chefe, papel de Pedro Baião, foi vivido dando-lhe a intensidade exigida, mas, pelo que conhecemos do actor, tem muito mais dentro de si para dar e de certeza com o rodar da peça vai sentir que a personagem, tem que sentir o texto e não pode estar ausente do texto.
O Agente, Nuno Antunes, está coerente, tem simplicidade e dinâmica.
A Margarida – representada por Carolina Alberto, esteve positiva, mas, devia soltar mais a voz, dar força aos sentimentos. O seu papel é crucial para aumentar a intensidade da peça naquele momento dramático que estamos a caminhar para o desfecho. Garra e para a frente sem receios, porque sente-se tem genica.

Em suma, o espectáculo é agradável, tem ritmo, tem uma mensagem muito positiva, tem uma encenação criativa e viva.
Convido-os, numa noite de sábado a deslocarem-se à Oficina Teatro Mário Pereira, ver mais este espectáculo do TEB, um trabalho que nos fala de amor e, sem dúvida, é feito com muito amor.

O TEB, neste ano que comemora os seus 50 anos de actividade, continua a manter o teatro vivo no Barreiro.
Por isso, uma terra que não demonstrar amor ao seu teatro, comparecendo nos espectáculos, não contribui para que estes homens e mulheres que amam o teatro, fazem teatro, sintam que vale a pena continuar a proporcionar-nos estas noites gratificantes que, no final, nos deixam temas para pensar e momentos de grande beleza estética.

Sim, este espectáculo do TEB, tem na sua encenação uma grande mais valia, proporcionando belos quadros, dignos de ser fotografados e montar uma exposição donde possa continuar a emergir o grito: “É urgente o AMOR”.
Parabéns TEB. Parabéns Graciano!

António Sousa Pereira

Ficha Artística

Branca — Ana Vitóría
A Mãe — Conceição Lopes
Madalena — Susana Cunha
Margarida — Carolina Alberto
)orge — António Jorge dos Santos
Alberto — Pedro Fona
Chefe — Pedro Baião
Agente — Nuno Antunes

Ficha Técnica

Autor — Luiz Francisco Rebello
Encenador — Graciano Simões
Contra Regra — António 3orge dos Santos
Cenografia — Graciano Simões
Executado por — José Brito, Fernando Santos e António Jorge dos Santos
Projecto de Luz e Som — Graciano Simões
Operadores de Luz e Som — Susana Santos, Tina Santos, João Santos, Ricardo Aboim e
Nelson Mendes
Guarda Roupa – Maria Teresa Simões e Elizabete Santos
Electricista — António 3orge dos Santos
Caracterização — Tina Santos e Celeste Ricardo
Ponto — Fernando Santos
Publicidade e Marketing — João Santos
Apoio à Divulgação — CMB

Sobre o Autor

Luiz Francisco Rebello nasceu em Lisboa a 10 de setembro de 1924 e faleceu a 9 de dezembro de 2011.
Foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores e Presidente do Conselho de Autores de Obras Audiovisuais da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores. A sua produção teatral compreende as seguintes peças: “O Mundo Começou às 5 e 47’;“O Dia Seguinte’;“Alguém Terá de Morrer’;“O Fim da Ultima Página’;“E urgente o Amor’;“Condenados à Vida”;“A Lei é a Lei” e “A Visita de Sua Excelência’.
Traduziu também um grande número de peças estrangeiras do qual destacamos “A Sogra de Luís XIV’ de Georges Feydau, recentemente reposta em cena pelo T.E.B. (Teatro de Ensaio do
Barreiro).
Publicou diversos volumes de crítica e historiografìa teatral, entre os quais Teatro Moderno — Caminho e Figuras, Imagens do Teatro Contemporâneo, História do Teatro Português.

O crítico Carlos Porto aquando da estreia de “E Urgente o Amor’ sublinhou a “segurança, limpidez e simplicidade” da sua construção e o “perfeito domínio da técnica teatral, a sensibilidade agudíssima, o conhecimento profundo das contradições psicológicas do homem” que permitiram ao seu autor “estruturar e dar vida a esta peça”.

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura até doer.
é urgente o amor, é urgente permanecer.

Eugénio de Andrade
“Urgentemente”

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