Festival de Almada um dos de maior relevo na EuropaHomenagea em 2012 a actriz Cecília Guimarães
Joaquim Benite, director do Festival, apostou numa “criteriosa e oportuna selecção dos espectáculos apresentados”, com vista a manter “a qualidade, a diversidade, e a actualidade” de edições anteriores, que têm levado a imprensa internacional a considerar o Festival de Almada como um dos de maior relevo na Europa.

Por Jornal Rostos
A programação da 29.ª edição do Festival de Almada é marcada pelo contexto da crise económica que o nosso País atravessa. Para além de uma “redução inevitável no número de produções”, Joaquim Benite, director do Festival,
apostou numa “criteriosa e oportuna selecção dos espectáculos apresentados”, com vista a manter “a qualidade, a diversidade, e a actualidade” de edições anteriores, que têm levado a imprensa internacional a considerar o Festival de Almada como um dos de maior relevo na Europa. Entre 4 e 18 Julho, em onze teatros de Almada e Lisboa, o Festival de Almada apresenta 18 produções (7 portuguesas e 11 internacionais) num total de 45 sessões – para além de um programa de Actos Complementares que inclui colóquios, debates com criadores, e exposições documentais e de Artes
Plásticas. A personalidade do mundo do teatro homenageada em 2012 é a actriz Cecília Guimarães, e o Autor do Cartaz deste ano é o pintor José Loureiro.
Peter Stein e Christoph Marthaler: dois mestres do teatro europeu
A presença em palco – pela primeira vez em Portugal – de Peter Stein, o mítico director da Schaubühne de Berlim (entre 1970 e 1985) que traz ao S. Luiz Teatro Municipal o recital de poesia Fantasia Fausto, constitui um momento histórico para o Festival.
Sozinho em cena, acompanhado apenas pelo pianista Giovanni Vitaletti, Stein recitará excertos do Fausto de Goethe, uma obra que montou integralmente para a Exposição Universal de Hannover 2000, com 19 horas de duração e com Bruno Ganz no papel do protagonista, numa interpretação verdadeiramente épica. A música deste recital é da
autoria de Arturo Annecchino, que já colaborara com Peter Stein na produção original do Fausto. Na legendagem do espectáculo será utilizada a tradução que João Barrento fez da obra-prima de Goethe, um dos expoentes máximos da cultura europeia.
O suíço Christoph Marthaler, oboísta de formação, é um dos mais originais e requisitados encenadores do momento. Artista associado do Festival de Avignon 2010 (onde regressa este ano para mais uma estreia), tem criado espectáculos – da Suíça à Áustria, da França à Alemanha – que se debruçam sobre as várias realidades europeias, chegando mesmo a pôr em causa a possibilidade do denominado “projecto europeu”. Marcadas por uma ironia forte, por vezes sarcástica, as produções de Marthaler incluem geralmente actores/cantores, que interrompem a acção com interlúdios musicais nos momentos mais inesperados.
Para criar +-0 – Um acampamento no subárctico, Marthaler e a sua equipa fizeram uma residência artística na Gronelândia, onde o encenador rapidamente descobriu que “todas as premissas que tinha sobre aquele lugar estavam erradas”. “No entanto, mal cheguei senti de imediato uma imensa paz e fui invadido por um sentimento de liberdade”. O espectáculo é feito em co-apresentação com o Centro Cultural de Belém.
Espectáculos marcados pela actualidade
A companhia alemã Schaubühne am Lehniner Platz, presente pela segunda vez no Festival, apresenta no Teatro Nacional D. Maria II, em co-produção com o Teatro Habima de Telavive, um espectáculo de uma das mais polémicas jovens encenadoras da actualidade: Yael Ronen, vencedora do Prémio Europeu de Teatro (Novas Realidades)
em 2009.
Lançando um olhar provocador e desencantado sobre o tema das religiões, A véspera do dia final, uma criação colectiva, acaba por abordar também, inevitavelmente, o conflito israelo-árabe. Passando-se em 2030, a peça põe em cena uma mulher judia, um antigo cristão, um muçulmano sem fé, um ateu radical… e dois ou três agnósticos à procura de algum amparo. Entre as várias formas de combater a crise das religiões chega-se a propor, neste espectáculo, a requalificação comercial das mesmas, com a criação de slogans como “Adira ao judaísmo: apenas 0.3% da população mundial, mas 35% dos prémios Nobel”.
O Espectáculo de Honra 2012, Que fazer? (O regresso) com encenação de Benoît Lambert e protagonizado por um dos mais destacados actores franceses da actualidade, François Chattot, parte do título da obra Que fazer?, de Lenine, para construir uma irresistível e inteligente comédia, que é também uma viagem burlesca pela História do pensamento ocidental. A memorável interpretação de Chattot e de Martine Schambacher valeu-lhes a votação maioritária do público da última edição do Festival, que não resistiu às desventuras deste casal encarcerado numa cozinha-bunker de onde não param de emergir obras de Marx, Voltaire, ou Nietzsche, entre muitos outros.
Dança, performance, música e novo-circo
Em 2012, a diversidade do tipo de espectáculos apresentados pelo Festival de Almada volta a ter grande importância no conjunto da Programação.
Israel Galván, um dos principais nomes do flamenco contemporâneo, abre o Festival no dia 4 de Julho com A idade de ouro, no Palco Grande da Escola D. António da Costa. Presença regular nos principais palcos franceses, desde o Festival d’Avignon ao prestigiado Théâtre de la Ville, de Paris, Galván alia a tradição e o domínio perfeito da técnica do flamenco à inovação e à modernidade: emanam dos seus espectáculos influências de Buñel ou Kafka, por exemplo. A idade de ouro vai buscar o título aos anos 30 do século XX, considerados a época do grande apogeu da dança andaluza.
Aurélia Thierrée-Chaplin, neta de Charles Chaplin, apresenta na Culturgest um espectáculo que se situa entre o novo circo e o inclassificável. Na verdade, à intérprete de Murmúrios dos muros agrada-lhe o facto de não serem “categorizáveis” os espectáculos dirigidos pela sua mãe, Victoria Thierrée-Chaplin, como Oratório, apresentado em 2005 no Centro Cultural de Belém. “Gracioso e belo” (The Guardian); “Fantástico, onírico e original” (La libre Bélgique); ou “Mágico, vertiginoso e malicioso” (Télérama) são algumas das “classificações” atribuídas pela crítica a este espectáculo.
A Fondazione Pontedera Teatro, de Itália, traz ao Festival duas performances criadas a partir de Fernando Pessoa: Hábito, no Palco Grande da Escola D. António da Costa, e Lisboa, apresentada no Largo de S. Carlos, em parceria com o Festival ao Largo.
Hábito, com direcção de Roberto Bacci, consiste numa resposta deste criador ao Livro do Desassossego, ou, nas suas próprias palavras, numa tentativa de “libertarse do universo pessoano”, que o tem interpelado obsessivamente nos seus últimos espectáculos. Lisboa, a performance de rua que nasceu de Hábito, tem origem numa manifestação dos artistas italianos contra os cortes efectuados à actividade teatral no seu país: num dia de greve em que tinham ensaio marcado de Hábito, os intérpretes resolveram ir manifestar-se para a estação de comboios da sua cidade, vestidos com os figurinos de cena e pedalando nas bicicletas em cima das quais interpretaram ao vivo algumas canções portuguesas, com instrumentos como acordeões ou violinos.
Lisboa tem-se apresentado em Itália, Dinamarca, Japão e Brasil, e chegar agora à capital portuguesa é, para Anna Stigsgaard, a encenadora do espectáculo, como um “regresso a casa”.
O grupo romeno Passe-Partout apresenta no Palco Grande um espectáculo sem palavras. Dois de nós, de Ana Pepine e Paul Cimpoieru consiste numa combinação de teatro, dança e pantomima para contar uma história de amor.
Por outro lado, a exaltação da palavra como meio privilegiado da comunicação teatral é um dos princípios sobre os quais assenta o espectáculo Para Louis de Funès, de Valère Novariana, com encenação de Philip Boulay, que se apresenta no Institut Français de Portugal. Para Louis de Funès, mais do que um louvor ao célebre actor francês, consiste num elogio do Actor, ou num “longo poema centrado no ofício e no lugar do Actor no Mundo, um texto sobre o que verdadeiramente acontece quando as palavras sobem pelo corpo do Actor acima”.
Três estreias portuguesas e uma belga
Mantendo a prática das edições anteriores, o Festival de Almada torna a apresentar espectáculos em estreia absoluta – quatro, em 2012.
O colectivo belga tg STAN, presença habitual no Festival, estreia, em co-produção com o Maria Matos Teatro Municipal, Nora, um espectáculo que explora o carácter revolucionário, para a sua época, da célebre heroína de Ibsen, uma vez que põe em causa a instituição do casamento, considerado sagrado no século XIX. Para os STAN, que trabalham sem encenador, este texto incluiu uma “subtil crítica ao consumismo e às potenciais armadilhas que existem nas vidas das famílias da classe média europeia de hoje”.
No Teatro Municipal de Almada, em parceria com o Teatro Nacional de São João, Ricardo Pais refaz O mercador de Veneza, de Shakespeare, um texto que criara em 2008 no Porto e que agora remonta, para a Companhia de Teatro de Almada, com um elenco renovado praticamente na íntegra, com João Reis no papel de Shylock, Albano Jerónimo no de António, e Sara Carinhas no de Pórcia. A encenação de Ricardo Pais baseia-se numa versão dramatúrgica livre, assinada em conjunto com o tradutor Daniel Jonas, na qual todas as cenas relativas a Veneza foram agrupadas na primeira parte do espectáculo, e as cenas de Belmonte na segunda. Com esta leitura, o encenador pretende separar “o espaço sujo, mercantil, aventureiro, habitado pelos mercadores e pelos seus barcos, isto é, Veneza, do espaço que é a sua antítese, aquela espécie de paraíso artificial que é Belmonte”. A peça faz carreira a partir de 20 de Outubro no TMA.
Em co-produção com a Culturgest, Pedro Gil apresenta Enquanto vivermos, uma performance que cruza o texto escrito com a improvisação, e cuja autoria assina conjuntamente com Romeu Costa. Enquanto vivermos aposta na desconstrução do próprio espectáculo, inscrevendo-se claramente numa linha de teatro pós-dramático.
O que não quer dizer que ponha em causa as formas convencionais, segundo Pedro Gil: “Não combato o teatro convencional, de que não me sinto vítima, mas gosto de brincar com as convenções, e de ver o que acontece quando não se tem uma história, ou uma personagem, e se podem escolher outros caminhos”.
Num espectáculo que assinala os 20 anos do Teatro Meridional, Miguel Seabra dirige e co-interpreta (com Rui Rebelo), no Fórum Romeu Correia, em Almada, O senhor Ibrahim e as flores do Corão, de Eric-Emmanuel Schmitt – um texto que relata a relação de amizade, na Paris dos anos 60, entre Momo, um jovem judeu de onze anos, e um velho merceeiro árabe da Rua Azul. Para Miguel Seabra, esta peça resume, de alguma forma, alguns dos traços do que tem sido o percurso do Teatro Meridional: “é uma história sobre a amizade e a tolerância, sobre a aceitação e a inclusão de
diferenças, sobre o encontro de dois homens e de como esse encontro foi determinante para a vida de ambos, ou seja, uma enorme história sobre a Humanidade”.
Teatro da Cornucópia, Artistas Unidos, Comuna e Companhia Nacional de Bailado
Além da presença da Companhia Nacional de Bailado, cuja digressão nacional do seu mais recente espectáculo (La Valse, de Paulo Ribeiro / João Botelho, e A Sagração da Primavera, de Olga Roriz) passa pelo Teatro Municipal de Almada, o Festival acolhe ainda espectáculos do Teatro da Cornucópia, dos Artistas Unidos e d’A Comuna – Teatro de Pesquisa, mantendo o espaço dedicado aos criadores portugueses.
Luis Miguel Cintra prossegue na linha do que tem sido a sua mais recente forma de trabalhar, com a apresentação de uma dramaturgia original que consiste numa colagem de textos de alguns filósofos do Iluminismo, como Diderot, Voltaire, Marquês de Sade e Voisenon. O sonho da razão, que vai buscar o título à célebre gravura de Goya, insiste, segundo Cintra, numa questão eterna: “a necessidade de cada um se inventar e se responsabilizar como indivíduo”.
A encerrar o Festival, no dia 18 de Julho, no Palco Grande da Escola D. António da Costa, a Comuna-Teatro de Pesquisa apresenta A controvérsia de Valladolid, de Jean-Claude Carrière, um texto que, para João Mota, o encenador do espectáculo, “põe em cena a questão da liberdade, pois embora se passe no século XVI fala de realidades que
continuam a existir”. A controvérsia de Valladolid aborda o episódio histórico do debate promovido pelo Papa Paulo III, na capital castelhana de então, entre frei Bartolomeu de las Casas, que defendia a causa dos índios sul-americanos, e Juan Sepúlveda, que argumentava pela prossecução das conquistas nas Terras Novas.
Os Artistas Unidos repõem no Festival, numa carreira de nove espectáculos no Teatro da Politécnica, o monólogo Herodíades, do italiano Giovanni Testori, protagonizado por Elmano Sancho, com direcção de Jorge Silva Melo. Herodíades, escrito no final da vida por Testori, é a primeira apresentação de um texto deste autor em Portugal, e
consiste numa “intensa variação sobre a morte de S. João Baptista e do desejo recalcado de Herodíades”.
Actos Complementares: debates e exposições
Mais do que uma mostra de espectáculos durante 15 dias consecutivos, o Festival de Almada tem-se revelado como uma ocasião para a reflexão em torno da actividade teatral. Este ano, na Casa da Cerca, em Almada, ocorrem dois seminários sobre as relações entre o Teatro e o contexto económico actual. No primeiro, Sábado 7, às 10h30, André Albuquerque (Actor, e membro do Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e dos Audiovisuais), António Pinto Ribeiro (Programador de Teatro da Fundação Gulbenkian) Carlos Vargas (Presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II), Daniel Oliveira (Jornalista), os encenadores Fernando Mora Ramos, Joaquim Benite, Jorge Silva Melo, José Peixoto e Tónan Quito, e os directores dos teatro municipais de Lisboa, José Luís Ferreira (São Luiz) e Mark Deputter (Maria Matos), formam um painel para discutir A crise no teatro.
No Sábado 14, à mesma hora, em colaboração com o Festival Ibero-americano de Teatro de Cádis, discute-se o Teatro Ibero-americano e a crise que nos rodeia, com a presença de um painel de encenadores e críticos de teatro espanhóis e latinoamericanos.
Pepe Bablé, director do Festival Ibero-americano de Teatro de Cádis, modera o debate.
Mantêm-se também este ano os encontros entre os criadores presentes em Almada e o público do Festival, realizados às 18h00 na Esplanada da Escola D. António da Costa - à excepção do Encontro com Peter Stein, na Quinta-feira 5, no São Luiz Teatro Municipal. Os Colóquios na Esplanada deste ano serão com Ricardo Pais (Sexta, 6); Roberto Bacci e Anna Stigsgaard (Domingo, 8); Jorge Silva Melo e Elmano Sancho (Segunda, 9); Yael Ronen (Quarta, 11); Luísa Taveira (Sexta, 13); François Chattot e Martine Schambacher (Domingo, 15) e Natália Luiza e Miguel Seabra (Terça, 17).
Nesta edição, para além da exposição do artista plástico autor do cartaz do Festival, José Loureiro, que ficará patente na Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea até dia 2 de Setembro, o Festival apresenta ainda, na Galeria do TMA, uma instalação da artista plástica finlandesa Raija Malka intitulada Waiting for Godot.
As duas exposições documentais patentes na Escola D. António da Costa constituem duas grandes retrospectivas: a primeira, sobre os 59 anos de carreira da actriz Cecília Guimarães, a figura homenageada pelo Festival em 2012; a segunda, sobre os 40 anos de actividade (1971-2 11) da actual Companhia Teatro de Almada, e do Grupo de Campolide, que apresentou a primeira encenação de Joaquim Benite a 24 de Abril de 1971. Quando se mudou para Almada, o Grupo de Campolide veio a adoptar inicialmente o nome de Grupo de Campolide / Companhia de Teatro de Almada, até
aos anos 80, altura em que adoptou a designação actual.
Como habitualmente, os espectáculos apresentados no Palco Grande da Escola D. António da Costa, em Almada, são antecedidos de música ao vivo no Palco da Esplanada, onde o público do Festival pode jantar antes dos espectáculos da noite.













