Festival Internacional de Teatro de SetúbalUm público incondicional que ultrapassa as fronteiras da cidade
Uma das novidades foi a utilização do recuperado Fórum Municipal Luísa Todi, duplicando o número de lugares disponíveis relativamente às edições anteriores.

Por Jornal Rostos
Balanço da XV Festa do Teatro
A continuidade na aposta da qualidade foi ponto de honra da organização (Teatro Estúdio Fontenova em parceria com a Câmara Municipal de Setúbal), e também, exigência mantida pelo público que tem acorrido nas edições anteriores. Nesse sentido, a excelência da programação da XV edição do Festival Internacional de Teatro levou ao palco em Setúbal uma mostra do melhor que se faz em Portugal e no mundo.
O certame conta com um público incondicional que ultrapassa as fronteiras da cidade, daí se percebe o grande destaque e interesse da imprensa nacional que ajudou na maior visibilidade dos espectáculos do Festival.
Uma das novidades foi a utilização do recuperado Fórum Municipal Luísa Todi, duplicando o número de lugares disponíveis relativamente às edições anteriores.
Apesar dos tempos que correm e destas evidências a afluência de público superou as expectativas! Sobrelotando os habituais espaços do Festival como se pôde verificar na abertura em que as cadeiras disponíveis se mostraram insuficientes para a moldura humana que acorreu, moldura esta que voltou a marcar presença no muito bem composto Fórum Municipal Luísa Todi, facto relevante para o espaço, até ao momento, em espectáculos do género.
A abertura deu-se no lotado salão nobre da Câmara Municipal de Setúbal.
No discurso de abertura, o Director do Festival José Maria Dias realçou o enorme destaque na imprensa nacional, e, a afirmação da Cultura em Setúbal como complemento ao imaginário de que Setúbal é apenas a terra do choco frito. É Cidade das Artes complementou. Falou da luta que é erguer o Festival todos os anos devido aos parcos apoios, problema que a vontade e o querer da equipa vão contornando.
Invocou as palavras de Jorge de Sena como linha condutora ”A cultura serve para mostrar a nós próprios que somos melhores do que aquilo que pensamos ser”.
Maria das Dores Meira Presidente da Câmara Municipal de Setúbal agradeceu o esforço do Teatro Estúdio Fontenova, e, elogiou a programação do Festival, marco incontornável da vida da cidade. Salientou também a disponibilidade futura do município para o evento.
Dia 24
O sobrelotado espectáculo “Que Raio de Mundo” do Teatro Regional da Serra de Montemuro, com gente que fez questão de assistir em pé apesar de já não haver cadeiras, trouxe a magia do sorriso e a arte de nos rirmos de nós próprios e do mundo que nos rodeia.
A contagiante melodia que deixaram nos ouvidos dos espectadores, marcou o ritmo das excelentes interpretações de todos os actores num espectáculo altamente divertido.
A metáfora à espuma dos dias com que o Teatro de Montemuro agraciou quem se lhes juntou na noite de Sábado, é entretimento puro ao ar livre com o “pauzinho na engrenagem” que José Mário Branco canta.
Dia 25
No muito bem composto Fórum Municipal Luísa Todi, o Teatro Estúdio Fontenova, brindou-nos com a visceral interpretação de Eduardo Dias.
“A noite antes da floresta” de Bernard-Marie Koltés, é um magistral texto com o poder de sufocar, de criar a revolta e o desassossego. A minimalista mas bela encenação teve o condão de libertar a escrita de Koltés para o elemento humano, o actor.
Eduardo dias numa soberba actuação conseguiu dar vida à montanha russa de emoções no monólogo, criando um uníssono no respirar e sentir com a plateia. Um espectáculo que nos lembra o que a realidade não consegue desmentir, a emigração, os mais desfavorecidos e o flagelo que é o desemprego. Um espectáculo para nos fazer sentir, porque o Teatro é isto, é a Vida.
Dia 26
A mais recente produção de Paulo Lage “Branca de Neve” em modo de leitura encenada, foi um momento de partilha e debate. O público teve a oportunidade de ver o trabalho em curso antes da estreia e discutir opiniões e debater com os artistas a estética, a encenação, o experimentalismo e o sentir que o espectáculo lhes trouxe. A interacção com o público para poder falar do caminho percorrido e a percorrer.
Dia 27
O espectáculo do Teatro dos Aloés “Ensaio ou Café dos Artistas”, é pedaço de luta partilhado pela maioria da gente que cria a magia do Teatro pelos palcos espalhados neste mundo. O sublime texto do argelino M´ Hamed Benguettaf é minuciosamente interpretado pelo Teatro dos Aloés, numa brilhante encenação de José Peixoto. O delírio a que este viver muitas vezes leva os artistas, é prato vazio que a vida cospe em muitos outros viveres na busca dos seus sonhos. Muitas vezes é necessário erguer barricadas e lutar por espaço, compreensão, respeito e dignidade, apelo em forma de dádiva para o público partilhar.
Dia 28
Existem momentos em que o nada nos assalta, em que nos sentimos pequenos, em que reaprendemos a ser e não conseguimos fugir a sentir. Este momento é um lugar chamado “Um precipício no Mar” magistralmente interpretado por João Meireles dos Artistas Unidos. Numa sobrelotada sala José Afonso na Casa da Cultura, onde ninguém ficou indiferente, toda a gente trouxe um pouco das estórias retratadas como se fossem suas tal a comunhão entre o actor e o público.
Dia 29
Uma grande produção, por uma grande companhia e uma sábia e inteligente encenação por Jorge Silva Melo tem destas coisas, Forúm Municipal Luisa Todi cheio!
“A estalajadeira” de Carlo Goldoni pelos Artistas Unidos é bom gosto num texto em que muitos caiem no ridículo e na brejeirice. Com variadas interpretações de alto nível, crime seria destacar um só numa equipa que funciona como um todo.
É popular? Sim, claro que é! Os artistas Unidos lembram-nos, e bem, que por ser para todos não implica falta de gosto, educação nem falta de profissionalismo. Um bom contributo para a democratização da arte teatral.
Dia 30
A “troika” João de Brito, Wagner Borges e Marta Lapa estrearam “T3” após residência artística em pleno Festival.
Os dois actores misturam registos diferentes numa encenação arrojada e “contemporânea”. Contemporaneidade artística que serviu de mote de gozo, para os espectáculos que nada querem dizer da vida, do que nos rodeia e vivem da diferença pela diferença.
O “T3” é arrogante no aspecto em que olha de alto para os seres amorfos em que querem que nos transformemos. É interventivo e esclarecedor, temos de tomar posição!
Muita gente na Escola Sebastião da Gama para participar neste grito de revolta.
Dia 31
A heterogeneidade do Festival permite pequenos prazeres, trazer a Portugal uma das melhores companhias do Mundo de Teatro Gestual é um deles.
Da companhia pouco haverá a dizer, o seu currículo ilustrado com Prémios nos melhores festivais mundiais fala por si, o público teve a oportunidade de o confirmar.
O “2º acto” dos franceses Dos à Deux é horrivelmente belo, de uma simplicidade atroz!
A amizade, cumplicidade, solidariedade, tristeza, solidão e a morte são poesia elevada ao sublime no palco pelos Dos à Deux. O sentir da beleza em todos os momentos, sejam eles tristes ou felizes,
foi terapia em comunhão que explodiu numa tremenda ovação.
Resta-nos agradecer a todos aqueles que colaboraram e participaram tornando possível mais uma edição da Festa do Teatro, especialmente aos nossos parceiros, nomeadamente, Câmara Municipal de Setúbal, Escola Secundária Sebastião da Gama e Fórum Municipal Luísa Todi.
Sempre numa procura de uma verve criativa existente nas periferias, sempre pugnando pelo valor artístico e social das produções apresentadas. Sempre na partilha de novos caminhos e visões.
De 24 a 31 de Agosto de 2013,
Convosco a Festa fez-se!
Fonte - Teatro Estúdio Fontenova













