CRITICAS E CRÓNICAS «Um momento no cinema»Do realizador do filme «Gravity» Alfonso Cuarón

Por Jornal Rostos
Hoje falarei de mais um realizador notável que só agora está a sentir o reconhecimento que já merecia desde 2006. Falo do realizador do filme "Gravity", Alfonso Cuarón.
Alfonso Cuarón é um realizador e argumentista mexicano que começou por contribuir para o cinema através de projectos de lingua espanhola que cedo ganharam visibilidade devido às suas elaborações visuais e à extraordinária cinematografia e visão estética que viriam a ser as suas imagens de marca.
Após um periodo de crescimento profissional, recebe o desafio de realizar um dos filmes da saga Harry Potter e fê-lo com distinção. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban é hoje considerado um dos melhores, se não o melhor, filme da longa e estimada saga do rapaz feiticeiro.
Após ter terminado o blockbuster, decidiu enveredar por um caminho mais "experimental", ou digamos, mais independente. É precisamente no filme que sucedeu ao esmagador sucesso comercial de Harry Potter que irei focar esta crónica, filme esse intitulado: Filhos do Homem (Children of Men).
Filhos do Homem é, possivelmente, um dos melhores filmes da década de 2000. Protagonizado por Clive Owen, conta uma história futurista no ano de 2027 em que a humanidade está à beira do colapso pois nenhum bébé nasceu nos últimos 18 anos. A personagem de Clive Owen é encarregado de escoltar uma rapariga refugiada até um lugar seguro de maneira a esconder o seu segredo, ela está grávida e pode ser a chave para desbloquear a situação calamitosa que se vive no mundo inteiro.
Parece uma história de ficção cientifica bastante simples, com poucas personagens e no fundo a relatar uma demanda de personagens que pretendem ir de ponto A a B durante toda a extensão temporal do filme. A questão é que a história, embora envolvente, satirica e sobretudo inteligente, tem de se conformar pelo rótulo de componente mais fraca do filme apenas porque a nivel técnico este filme é, sem sombra de dúvidas, uma obra-prima.
Alfonso Cuarón constrói, ao longo de praticamente duas horas, blocos extensos de planos-sequência sem um único corte (ou muitas das vezes esse corte é mascarado digitalmente) que revelam uma fluidez de movimentos e de situações sincronizadas e coreografadas que são verdadeiramente notáveis e absurdamente complexas na sua totalidade. Esses momentos são a chave do filme e elevam-no ao estatuto de clássico dentro de alguns anos (aparentemente é necessário esperar umas boas décadas para um filme ver o seu reconhecimento alcançado), aproximando-nos sempre da acção e dinamizando o enredo com momentos de tensão e de realismo que cada vez mais se aproximam do estilo "documentário" do que de ficção pura.
O elenco é fantástico mas sobretudo devido aos pequenos momentos e às personagens que pouco aparecem. É aqui que um actor tem o material perfeito para se revelar, através de poucas cenas onde as performances existem ou não existem, onde os momentos são capturados de forma mágica ou apenas filmados como num dia normal. A verdade é que, com Alfonso Cuarón, esses momentos mágicos são parte integrante do seu portfolio e a sua verdadeira voz enquanto artista. Um artista sem medo de arriscar, de elaborar e de dificultar todos os caminhos para que embarquemos com ele na viagem, em cada filme e em cada momento. Esperemos que Gravity seja uma obra tão enriquecedora e tragicamente bela. Se não for, ora bem, os Filhos do Homem continuará a ser.
Diogo Ferro













