Saltar para o conteúdo
Moldura

«A Caminhada dos Elefantes»Entre o simbolismo e o real a «morte» torna-nos humanos

. Estreia nacional no Fórum Cultural da Baixa da Banheira - Moita, dia 17 de Novembro

Um espectáculo que procura humanizar a morte, dando-lhe o sentido real e transportando-a para a linguagem e vivências do quotidiano.
Um tema sobre o qual é proibido falar, mas, precisamente por ser proibido, torna-se durante todo o espectáculo como tema nuclear – um enigma, um mistério, vivido de forma dinâmica, com ritmo e intensidade teatral.

5 min de leitura
«A Caminhada dos Elefantes» Entre o simbolismo e o real a «morte» torna-nos humanos

Por Jornal Rostos

Ontem, pela manhã, assisti no Forum Cultural José Manuel Figueiredo, na Baixa da Banheira, à sessão de apresentação à comunicação social do espectáculo «A Caminhada dos Elefantes», que vai ter a sua estreia nacional, ali, naquele espaço, no próximo dia 17 de Novembro, pelas 16 horas.
Um espectáculo de Miguel Fragata e Inês Barahona, que se afirma como uma reflexão “sobre a existência, a vida e a morte”.

Nesta apresentação não tivemos a oportunidade de ver todo o espectáculo, facto que gerou uma sensação de ansiedade, curiosidade e uma imensa vontade de não perder a estreia.
O palco é o lugar onde tudo acontece, numa mistura harmoniosa do público com os actores, partilhando a «sala comum», numa proximidade que permite que actores e público possam conversar, trocar olhares e sorrisos.
De certeza que, ao longo do tempo, em cada um dos espectáculos levado à cena, existirão «factos inéditos», momentos de partilha que vão enriquecer esta «Caminhada dos Elefantes».
O espectáculo tem um público alvo – as crianças – visando desmistificar os «tabus» que emergem da ideia de «morte», através de um discurso carregado de afectos e construído a partir do mundo imaginário das brincadeiras infantis.
Um espectáculo que procura humanizar a morte, dando-lhe o sentido real e transportando-a para a linguagem e vivências do quotidiano.
Um tema sobre o qual é proibido falar, mas, precisamente por ser proibido, torna-se durante todo o espectáculo como tema nuclear – um enigma, um mistério, vivido de forma dinâmica, com ritmo e intensidade teatral.

O cenário coloca-nos em lugares de mistério, num jogo de luz e contraluz, penumbras, os sopros dão vida aos bonecos, podendo cada qual dar-lhe realidade até onde a sua imaginação o levar, sentido o espectador que o actor é o criador da vida, mas ele também pode recriar pela sua experiência e valores – a mãe, o pai, o irmão, o amigo.
Os bonecos vão nascendo para o espectáculo num jogo de sombras chinesas, ou como que estivessem a ser criados como personagens para serem projectadas num ecran de cinema ou emergir numa televisão, começam imóveis e de súbito parece que têm vida, movem-se e são uma referência na acção.

A vida é como um jogo de sombras.
A paisagem nasce, na nossa frente, com uma beleza estética que, de repente pensamos ter ali, à nossa frente, um pouco de África.
Naquele nascimento e movimento de vida, com criatividade, o actor, é um criador, um artista plástico em acção, que nos faz sentir como, afinal, também nós, nos lugares onde estamos presentes quotidianamente na partilha da vida com os outros e com a natureza, também podemos ser actores - transformar e dar sentido à paisagem e aos dias.
Sentimos a energia do começo da caminhada dos elefantes, de forma humanizada, nos seus nomes e nos afectos que os levam a tomar caminho rumo à «despedida da morte».

O primeiro momento da peça que assistimos é poderoso, musicalmente, cenicamente, num misto de «teatro de marionetes» e na força colocada pelo actor, com muita energia, versatilidade, interpretando o papel com muita autenticidade, aliás, como se exige, num espectáculo que vai crescer, certamente, com a proximidade do público e na sua relação com o público.
Um espectáculo que nos faz sonhar, pensar e exteriorizar sentimentos. Apetece-nos intervir, colocar perguntas.

Em certos momentos, pessoalmente, imaginei-me nos cenários das minhas brincadeiras de criança, e, até, neste pensar e sentir a morte, mergulhei pelas minhas memórias de criança, quando com sete anos perdi a minha mãe, e, recordo, ninguém queria falar comigo sobre o assunto – mas eu sentia que ela tinha partido para sempre.
É um espectáculo por aquilo que nos apercebemos, na troca de opiniões no final, com os seus autores, não pretende dar respostas, pretende promover a reflexão e fazer que todos nós encaremos a morte, com serenidade, como uma «caminhada» que faz parte da «caminhada» da vida.
Gostei imenso, porque, digo-vos, sinto que é uma peça de teatro com humanidade, com criatividade, com plasticidade, com musicalidade, que num espaço diminuto, move-se de forma dramática com muita expressividade entre o simbolismo e o real, nos torna humanos e familiares no próprio contexto teatral – permitindo a «catarse» da morte por dentro dos valores da vida, com espiritualidade, com humanismo.
Afinal é um brotar de estórias que vão nascendo e dão sentido ao teatro e provam que o teatro é vida.
Reservem um lugar para estreia. Obrigado!

O espectáculo «A Caminhada dos Elefantes», é co-produzido pela ArtemRede – Teatros Associados, Maria Matos Teatro Municipal, Centro Cultural Vila Flor e Teatro Viriato.

António Sousa Pereira

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção