Citemor - 37º Festival de Montemor-o-VelhoPor uma ideologia de esperança.
. Dias 6 a 8 Agosto 2015

Por Jornal Rostos
Tendo em conta o esforço das últimas edições e um percurso de mais de três décadas, entendemos que não devíamos tomar a decisão de suspender o festival entre nós. Porque o Citemor é uma construção colectiva, um festival historicamente muito participado, decidimos auscultar a comunidade artística. Ouvimos artistas e companhias com uma importância fundadora para o Citemor, que influenciaram o seu carácter e que têm uma noção clara do seu percurso. Do que foi e do que poderia ter sido. Ouvimos alguns programadores de teatros e de festivais muito diversos, mas também uma nova geração de criadores que, provavelmente, nunca terá acesso a meios de produção aceitáveis.
Fortalecidos com o resultado desta auscultação, decidimos dedicar todo o segundo semestre deste ano à reflexão e à discussão, cumprindo uma agenda de encontros de trabalho que se prolongarão pelo Outono, com o objectivo de identificar formas concretas para garantir a continuidade do festival. Por outro lado, concordamos com a pertinência de encontrar um gesto de carácter performativo que sinalize este Verão.
Vamos estar reunidos em Montemor-o-Velho para a 37ª edição do Citemor entre 6 e 8 de Agosto. Convidamos os públicos para uma palestra sobre o percurso do festival seguida de uma discussão. E para duas noites em que desenhamos um roteiro pela vila, que nos conduz através de diferentes propostas artísticas. Momentos únicos. Acontecimentos singulares, irrepetíveis.
Num quadro dominado pela precariedade absoluta, este programa é um gesto de puro activismo. Um gesto de indignação que se inscreve, que se imprime. Por uma ideologia de esperança.
Quinta 6 Agosto 22:00 Teatro Esther de Carvalho
QUE SE INTERROMPAM AS FÉRIAS, QUE SE PARE O PAÍS!_ CLÁUDIA GALHÓS
Sexta 7 Agosto 22:00 Teatro Esther de Carvalho
UMA FICÇÃO NA DOBRA DO MAPA_ ELENA CÓRDOBA & FRANCISCO CAMACHO
seguido de
BAIRRO DAS EX-COLÓNIAS_TEATRO DO VESTIDO
seguido de
THE HORN OF PLENTY DRESS - Summer 2015_ TANIA ARIAS
Sábado 8 Agosto 22:00 Teatro Esther de Carvalho
COLEÇÃO DE AMANTES_RAQUEL ANDRÉ
seguido de
PASOLINI IS ME_ COLECTIVO 84
Os percursos terão início sempre no Teatro Esther de Carvalho, sempre às 22:00, apesar das obras decorrerem em vários espaços da vila.
O espectador é que define o preço do bilhete: reservas@citemor.com
Quinta 6 Agosto 22:00 Teatro Esther de Carvalho
QUE SE INTERROMPAM AS FÉRIAS, QUE SE PARE O PAÍS!
A FESTA É AGORA EM MONTEMOR-O-VELHO
CLÁUDIA GALHÓS
Palestra/conversa sobre a história – passado, presente e visões de futuro – do festival Citemor
O título desta palestra/conversa recupera parte do subtítulo do artigo do jornal SE7E, de Miguel Santos, dedicado à entrevista à banda britânica Test Dept, que ia tocar no Castelo de Montemor-o-Velho, no contexto da edição de 1992 do festival. O título completo era: “Test Dept – Pop Convicta”, seguido de: “Depois de amanhã, no castelo medieval de Montemor-o-Velho, os Test Dept. fecharão com notas de metal brilhante a edição do Citemor 92. Que se interrompam as férias, que se pare o País. A festa é agora em Montemor-o-Velho”. Eu só acrescentei um «!» porque o momento é de urgência, não apenas porque importa despertar a memória de tudo o que o Citemor já fez e o que significou, mas também o que ainda significa, a importância da sua existência e viabilização para o futuro, mas também olhar para a desertificação e inacção em Montemor-o-Velho desse músculo que é o cérebro e dessas actividades que constroem possibilidadas de futuro sustentado, para a região e para o país. Lembrar o passado é um acto de inscrição da memória para construção do futuro. É resistir à morte sem porquê e contribuir para um movimento “por uma ideologia de esperança”.
Sexta 7 Agosto 22:00 Teatro Esther de Carvalho
UMA FICÇÃO NA DOBRA DO MAPA, seguido de
BAIRRO DAS EX-COLÓNIAS, e de
THE HORN OF PLENTY DRESS
UMA FICÇÃO NA DOBRA DO MAPA
ELENA CÓRDOBA & FRANCISCO CAMACHO
Conhecemo-nos desde há muitos anos, mas o que conhecemos de cada um são as obras. Temos mantido um diálogo através das nossas ficções mas apenas agora nos conhecemos a nível pessoal. Neste encontro, queremos que as nossas obras voltem a dialogar, mas com uma peculiaridade: transitaremos pelas memórias que temos das obras respectivas. Seremos um pouco um Francisco Camacho com corpo de Elena Córdoba e uma Elena Córdoba com corpo de Francisco Camacho.
Criação Elena Córdoba e Francisco Camacho
Iluminação Carlos Marquerie
Produção Executiva Sara Machado
BAIRRO DAS EX-COLÓNIAS
TEATRO DO VESTIDO
Apresentação de materiais e percursos do projecto futuro do Teatro do Vestido, "Filhos do Retorno." A partir da recolha de histórias e testemunhos de filhos de pessoas que habitavam as ex-colónias portuguesas e que regressaram muito novos à metrópole, ou que nem sequer chegaram a conhecer África, este projecto trata da transmissão familiar destas memórias ou da ausência dessa transmissão - num assunto ainda preenchido por silêncios, traumas e lacunas.
Escrito como um mapa afectivo a partir de um bairro de Lisboa que ainda retém a alcunha inoficial de Bairro das Colónias, esta performance em progresso apresenta um conjunto de possibilidades, mais do que resultados ou conclusões.
"No Bairro das Colónias em Lisboa, toda a gente já se esqueceu que o seu verdadeiro nome é Bairro das Novas Nações. E eu pensei: o que é que isto diz sobre mim que o habito?"
Criado especificamente para o festival Citemor, enquanto acto de resistência cultural.
Texto, Direcção, Interpretação Joana Craveiro
Produção e Assistência Cláudia Teixeira
THE HORN OF PLENTY DRESS - Summer 2015
TANIA ARIAS
O acessório como ponto de partida.
Um começo a partir da camada mais exterior, talvez a mais superficial.
Não tenho nada mais que um título e um complemento.
Aparece outro complemento, uma prenda, e surge um entre…
O corpo que aparece entre os complementos.
O movimento é então outra prenda mais, para pôr ou tirar.
Ideia e interpretação Tania Arias em diálogo com Mauricio Celeste González Colaboração especial Sindo Puche Complementos Porhacheoporbe Vestuário Mónica Cañete Música Unidad mínima de destrucción Apoio Comunidad de Madrid.
Sábado 8 Agosto 22:00 Teatro Esther de Carvalho
COLEÇÃO DE AMANTES, seguido de PASOLINI IS ME
COLEÇÃO DE AMANTES
RAQUEL ANDRÉ
Colecção de Amantes é sobre encontros. Raquel André é uma colecionadora de intimidades ficcionadas. Marca encontros em apartamentos desconhecidos com desconhecidos e durante uma hora ficciona uma intimidade de quem se conhece há vários anos. Entre o Rio de Janeiro, Lisboa e Ponta Delgada já soma 73 encontros, e a coleção quer-se infinita... Estes amantes serão elenco protagonista do espetáculo através do registo fotográfico destas sessões. Raquel, a colecionadora obsessiva, guarda estas pessoas como objetos raros de uma coleção peculiar – a catalogação do efémero. E cria um espetáculo com narrativas reais e ficcionadas do que esta coleção pode significar e projetar – porque, afinal o que se procura quando se encontra alguém?
No Citemor, apresenta a sua pesquisa antes de estrear em Setembro, e terá uma conversa com o público sobre os temas que aqui questiona. Uma partilha da sua intimidade no processo de criação de Colecção de Amantes. Trabalho que criou dentro da sua pesquisa de Mestrado e que se desenvolve agora em espetáculo.
Conceito e Direção Raquel André Criação e espaço cénico Raquel André e Bernardo de Almeida Interpretação Raquel André Produção executiva Fabíola Lebre Figurino António Pedro Lopes Desenho de luz Rui Monteiro Imagem do projeto Gui Garrido
Residência artística Festival Walk&Talk – Açores Apoio/parceria LARGO Residências, ZDB e BV90 Coprodução TNDM II, TEMPO_FESTIVAL (BR) Apoio à pesquisa de mestrado de Raquel André Bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian
Estreia 11 de Setembro no Teatro Nacional D. Maria II
PASOLINI IS ME
COLECTIVO 84
"Toda a obra literária, cinematográfica e até mesmo política de Pasolini parece atravessada por tais momentos de excepção em que os seres humanos se tornam pirilampos - seres luminescentes, dançantes, erráticos, intocáveis e resistentes, sob o nosso olhar maravilhado."
(Didier Huberman, A sobrevivência dos pirilampos, 2009)
A dança dos pirilampos, esse momento de graça que resiste ao mundo do terror, é o que existe de mais fugaz e de mais frágil. Em 1975 (no ano em que foi assassinado), Pasolini teorizou política e historicamente o desaparecimento dos pirilampos na periferia de Roma. Desapareciam porque eram ofuscados brutalmente pelos grandes projectores do poder, pelo que nos cabia (e cabe ainda) a nós poder ver os pirilampos, essas pequenas luzes em movimento do contra-poder, danças do desejo, de acasalamento, que formam comunidade.
Inspirado neste conceito de "excepção" pude verificar como a obra de Pasolini está recheada com os conceitos de movimento e de dança, associados tanto a um carácter ritualista e cerimonial como de diversão pura. Em ambos os casos, a dança associa-se a uma liberdade (que, mais tarde, deixará de ser livre), a uma inocência (que, mais tarde, se torna uma culpa) e a uma obsessão pelas margens, nascida "daquele período elegíaco friulano / de masoquista, exibicionista e masturbador, /entre as amoreiras e os vinhedos vistos pelos olhos mais puros do mundo". São muitas vezes danças contraditórias porque ora honram a luz ora festejam o medo e o conflito.
Os exemplos são inumeráveis: basta pensar na dança sem sentido de Ninetto Davoli na curta-metragem La sequenza dei fiore di carta (A sequência da flor de papel), de 1968, onde a inocência luminosa do rapaz se destaca sobre o fundo da movimentada Via Nazionale, no centro de Roma; voltamos a ver o Ninetto numa dança saltitante enquanto mensageiro de Teorema (1968); as aulas de dança assistidas por Totó e Ninetto em frente a uma taberna na periferia de Roma, em Uccellacci e Uccellini (Passarinhos e passarões), de 1966; a luta torpemente coreografada num chão empoeirado entre Accatone (Franco Citti) e o seu cunhado, em Accattone (1961); etc.
Depois de um ciclo de dois anos dedicado a Pasolini, queria agora fazer uma celebração de carácter informal: abordando a sua obra poética (sobretudo aquela inédita em português), num tom comemorativo e festivo, e com a colaboração dos artistas plásticos João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira e do músico Nicolai Sarbib, pensámos num recital que estabelecesse uma relação entre a poesia derrotista do autor e o conceito de movimento e de dança. presentes na sua obra. Dei-lhe o título PASOLINI IS ME (primeira frase da canção "You have killed me" do Morrissey).
"Dizem que o sistema come tudo, que assimila tudo. Não é verdade, há coisas que o sistema não pode digerir. Sei perfeitamente que a poesia é inconsumível no sentido mais profundo, mas eu quero que seja o menos consumível possível também exteriormente. O mesmo vale para o cinema: farei filmes cada vez mais difíceis, mais áridos, mais complicados e, talvez, mais provocadores, para que seja o menos consumível possível, e exactamente igual com o teatro, que não pode converter-se num meio de massas, pelo que o texto deve permanecer sem ser consumido."
(Pier Paolo Pasolini, excerto da entrevista com Giuseppe Cardillo, 1969)
Um recital/performance de John Romão em colaboração com os artistas plásticos João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira e o músico Nicolai Sarbib
Com Albano Jerónimo, Ana Bustorff, John Romão, Mariana Tengner Barros, Pedro Garcia e Solange Freitas
Recolha e tradução de poemas John Romão
Intervenção plástica João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira
Músicas Nicolai Sarbib
Co-produção Colectivo 84, Murmuriu, Festival Temps d´Images
Produção executiva Stage One













