Teatro Municipal de Almada apresenta ELLA, de Herbert Achternbusch

Por Jornal Rostos
Sinopse
Em Ella a velha mulher que dá o seu nome à peça “vive” com Joseph num galinheiro. Está totalmente absorvida pela programação de televisão e não pronuncia uma palavra. Joseph prepara em silêncio o café que apenas beberá no fim da peça. Mistura nesse café um veneno mortal, depois coloca uma peruca de penas de galinha e, vestido com o avental da mãe, começa de repente a debitar sem nunca mais parar para recuperar o fôlego, a regurgitar o solilóquio que Ella, a sua mãe, calou durante toda a sua vida, dos anos do nazismo aos do boom económico, de decepção em decepção. Joseph engole finalmente o café e cai enquanto a mãe se levanta e anda às voltas no galinheiro dando gritos de galinha assustada.
Sobre Ella
Esta é uma história verídica, aqui obviamente ficcionada. Mas ficcionada a partir de uma memória directa. Herbert Achternbusch fala do que sabe, da sua família, dos seus, de si mesmo. Na Baviera conservadora, profundamente religiosa, em que nasceu, as Ellas são a expressão mais radical de uma subalternidade da mulher que é, por assim dizer, cultural.
O que é facto é que no mundo estas situações se repetem, criaturas humanas a viverem em condições próprias de animais. O galinheiro é a assoalhada que a família “generosamente” lhe cedeu. Não foi à muito que na Ucrânia, essa Europa que há-de vir, encontraram uma criança que crescera no meio de cães e que, com eles, se comportava como um cão. Uma história de abandono, aparentemente desenrolando-se à frente dos olhos de muita gente.
Mas Ella está muito para além da sua própria história. Se essa é a da humanidade negada, o pano de fundo histórico em que tem lugar, não deixa de sinalizar uma outra barbárie, o nazismo. E mesmo quando a peça se afasta desse tempo histórico é o pragmatismo economicista dos novos tempos que continua a condená-la a viver à parte, um verdadeiro apartheid familiar e social.
Fazer este texto é voltar a questionar a chamada sociedade dos dois terços. Será possível continuar a viver assim, mantendo os “intocáveis” de todo o numa margem controlada, como lixo na lixeira e ao mesmo tempo criar essas novas cidades onde só entram os que têm chave? Quantos muros se estão a erguer de novo, agora que o de Berlim é uma memória?
Como trabalho teatral é um grande desafio, uma longa fala construída numa infralíngua, uma língua inculta e agramatical, bebida na fonte da outra mas fruto de maus-tratos, de choques eléctricos e de uma deficiência que se foi acentuando. Porque Ella, como se diz hoje, é diferente. E isso também atrai.
UMA PEÇA PARA DOIS INTERPRETES e várias galinhas
O texto será interpretado por:
Joseph – Fernando Mora Ramos
Mãe – Clara Joana
EQUIPA ARTÍSTICA
Tradução: Idalina Aguiar de Melo
Assistência de encenação, dramaturgia e direcção de ensaios: Isabel Lopes.
Cenografia: José Carlos Faria
Figurinos: Isabel Lopes
Iluminação: Fernando Mora Ramos e António Plácido
Construção: António Canelas e Marco Albano
Produção: Ana Pereira
Encenação: Fernando Mora Ramos
Bilheteira: O preço dos bilhetes varia entre os cinco e os onze euros. Reservas através do telefone 212739360.













