No Teatro Municipal de AlmadaVamos fazer uma ópera
Paulo MATOS / TMA -De Benjamin BRITTEN e Eric CROZIER, dia 2 de Outubro, 16h00 , M/6, Sala Principal
Na escola (Teatro) – encenação de Paulo MATOS - O Pequeno Limpa-Chaminés (Ópera) – versão portuguesa de Alexandre DELGADO.

Por Jornal Rostos
VAMOS FAZER UMA ÓPERA
Um divertimento para gente miúda
Paulo MATOS / TMA
De Benjamin BRITTEN e Eric CROZIER
2 de Outubro, 16h00 , M/6, Sala Principal
Na escola (Teatro) – encenação de Paulo MATOS
O Pequeno Limpa-Chaminés (Ópera) – versão portuguesa de Alexandre DELGADO
Let’s make an opera, na concepção original de Benjamin Britten e Eric Crozier nasceu da vontade de criar uma ópera para e feita por crianças. O público, maioritariamente constituído por jovens, deverá sentir não só que está a assistir a todo o processo de produção de um espectáculo de ópera, desde a sua criação, ao seu planeamento, ensaios, construção, etc, mas também que faz parte dele como personagem colectivo na forma do coro.
Paulo Matos
Um grande compositor do século XX
Benjamin Britten (1913-1976) foi sem dúvida o maior compositor inglês do seu tempo e um dos grandes criadores mundiais de toda a Música do século XX. Britten soube encontrar um caminho muito pessoal, conjugando a inovação com uma grande capacidade de despertar a adesão afectiva dos ouvintes. Esta vontade de se fazer compreender e de despertar as emoções do público a que se dirigia explica igualmente a preocupação que o compositor sempre teve em escrever para crianças e em conceber algumas obras que as ajudassem a entender o mundo da música erudita. Por outro lado, Britten gostava muito da sonoridade própria das vozes infantis.
Um Vamos fazer uma ópera diferente para cada produção
O projecto de Britten e Crozier era criar uma obra aberta, intitulada Vamos Fazer uma Ópera [“Let’s Make an Opera”]. […]. Crozier escreveu ele próprio uma peça para servir de primeira parte, mas deixando sempre a possibilidade de este texto ser substituído por outros criados de novo para cada produção. Dado que se destinava sobretudo a intérpretes amadores, a operazinha de câmara teria de ser escrita de maneira a poder ser executada sem demasiada dificuldade técnica por crianças e adultos sem grande formação musical e segundo uma forma fácil de entender por quem não estava habituado à linguagem e às regras da Ópera. Na versão original, a obra era escrita para um acompanhamento instrumental de quarteto de cordas e vários instrumentos de percussão, mas Britten previu igualmente a possibilidade alternativa de substituir o quarteto por uma parte de piano a quatro mãos, sobretudo de maneira a facilitar a execução onde não fosse fácil encontrar bons instrumentistas de corda para o efeito.
A obra foi estreada em 1949, no âmbito da segunda edição do festival de música que tinha sido fundado no ano anterior pelo próprio Britten na pequena cidade costeira de Aldeburgh, na região inglesa da Ânglia Oriental. Os intérpretes dos personagens adultos eram cantores famosos que colaboravam habitualmente com Britten, e os papéis das crianças eram desempenhados por alunos de uma escola local. A direcção era de um célebre maestro inglês desta época, Norman del Mar. O sucesso foi enorme, e a partir de então Vamos Fazer uma Ópera e O Pequeno Limpa-Chaminés tiveram uma carreira brilhante em todo o mundo, traduzidos nas mais diversas línguas e com a primeira parte do espectáculo sempre diferente em cada produção.
Neste espectáculo o texto da primeira parte é da autoria do próprio encenador, Paulo Matos, e a tradução do libreto da operazinha é da responsabilidade do compositor Alexandre Delgado – também ele, por sinal, um talentoso compositor de Ópera.
A dimensão social do projecto
Vamos Fazer uma Ópera e O Pequeno Limpa-Chaminés têm uma finalidade dupla. Por um lado, como já foi dito, procuram familiarizar os jovens com a maneira como se faz uma ópera e mostrar bem como a Ópera não é uma coisa artificial, pomposa, afastada da realidade, mas pode traduzir situações humanas comoventes que dizem muito a qualquer ouvinte. Nesse sentido, trata-se de um equivalente, agora para o universo da ópera, da função pedagógica que Um Guia da Orquestra para Jovens tem em relação à orquestra.
Por outro lado, o espectáculo tem também uma mensagem social importante. Já na sua ópera mais conhecida, Peter Grimes, de 1945, o compositor tinha abordado o tema das crianças pobres – em particular dos órfãos – que na Inglaterra do século XIX eram quase vendidos pelos orfanatos a quem os quisesse empregar, muitas vezes em trabalhos demasiado pesados para a sua idade e em condições de vida miseráveis, e é de novo essa mensagem de liberdade que O Pequeno Limpa-Chaminés agora transmite. A esta mensagem junta-se a defesa de um princípio de fraternidade activa, para lá de todas as diferenças sociais, que as crianças intervenientes na história afirmam de forma apaixonada, não hesitando para isso em enfrentar a autoridade dos adultos malvados (o Zé Carvão, a D. Berta) mas contando com o apoio da personagem redentora que representa o lado bom do mundo adulto, a ama Rosa.
Retrato musical dos personagens
Musicalmente, a ópera é um prodígio de inteligência e de economia de meios, sobretudo porque consegue retratar os personagens e as situações dramáticas de forma muito eficaz utilizando um mínimo de meios instrumentais e vocais. A D. Berta canta com uma voz imponente de Contralto, num estilo dramático e pesado que define logo à partida o carácter autoritário e desagradável do personagem. Zé Carvão e Quim, Baixo e Tenor, respectivamente, têm também eles uma escrita musical autoritária e agressiva. Rosa, pelo contrário, é um Soprano lírico de voz doce, com uma linha melódica carinhosa. As partes vocais das crianças e dos assistentes são em geral melodias simples, cantadas em homofonia (ou seja, com todas as vozes, sejam elas de crianças ou de adultos, a cantarem a mesma melodia em uníssono ou à distância de oitava), mas muito bem ritmadas, com uma energia que parece sugerir o entusiasmo infantil por uma causa em que se acredita de todo o coração. O acompanhamento instrumental reforça esta força rítmica, sobretudo pelo uso dos instrumentos de percussão que vão marcando as acentuações da música.
Rui Vieira Nery
Vamos, de novo, Fazer Uma Ópera
Let´s make an opera, na concepção original de Benjamin Britten e Eric Crozier nasceu da vontade de criar uma ópera para e feita por crianças. Os protagonistas do espectáculo são crianças, quer as que desempenham os papéis da história do limpa-chaminés quer as que cantam na plateia as canções emblemáticas da ópera e que, supostamente, participaram activamente na sua criação e construção.
É este o principal desafio: o público, maioritariamente constituído por jovens, deverá sentir não só que está a assistir a todo o processo de produção de um espectáculo de ópera, desde a sua criação, ao seu planeamento, ensaios, construção, etc, mas também que faz parte dele como personagem colectivo na forma de coro.
Quando há 16 anos atrás realizei a primeira montagem desta obra no Teatro S. Luiz no âmbito da Lisboa/94, a minha primeira opção de fundo, que mantenho para esta remontagem, foi a de colocar todo esse processo – de produção de um projecto com e por crianças – dentro de uma escola. Pareceu-me então, como hoje ainda, que é dentro de uma escola, nas suas dimensões de aprendizagem, crescimento, confronto e vivências, que os jovens se constroem e, numa primeira fase, se relacionam com os universos culturais. Por isso me pareceu e parece que faz todo o sentido que este Vamos Fazer Uma Ópera seja uma decisão de projecto colectivo dentro de uma escola imaginária que construiremos no Grande Auditório da FCG.
O desafio agora, tantos anos e tantos projectos depois – obrigado Catarina por tanto percurso partilhado - será o de saber sentir e recriar tudo o que mudou nos jovens e nas escolas desde então. Encontrando, uma nova linguagem, um renovado universo de relacionamentos e, até, uma redobrada competência como resultado de uma crescente maturidade.
Vamos, de novo, fazer uma ópera!













