Barreiro - De 22 de abril a 9 de maioContar Histórias (vividas) no 25 de Abril
No âmbito das iniciativas propostas para as comemorações do 40º aniversário do 25 de Abril, a Câmara Municipal do Barreiro voltou a convidar vários intervenientes da Revolução para que, em contexto escolar, possam partilhar os seus testemunhos. Hoje, dia 22 de abril, a primeira destas histórias foi contada, pelo jornalista barreirense António Sousa Pereira, aos alunos do 4º ano, turmas A e B da Escola Básica do 1º ciclo, nº 1 do Lavradio.

Por Jornal Rostos
A entrada na Biblioteca da escola, onde dezenas de alunos já o aguardavam, não podia ter sido mais eficaz. De gabardine, chapéu e óculos escuros, António Sousa Pereira depressa controlou os risinhos abafados que se faziam ouvir.
“Calados! Quero todos calados!”, gritou. “Separem-se. Eu não quero rapazes misturados com raparigas! E agora quero toda a gente de olhos fechados, em silêncio, em silêncio. Fechem os olhos, já disse!”
Nada habituados a este tipo de tratamento, os jovens alunos olharam uns para os outros mas, sem coragem para contestar, obedeceram.
“O que veem?”, gritou, novamente, o ‘ditador’.
“Nada, não vemos nada” disse um. “Está tudo escuro” confirmou o outro.
Entretanto, e já sem o traje que o transformara num homem do antigo regime Sousa Pereira pediu-lhes “vá, abram os olhos, já podem abrir, olhem em volta, vejam as cores e gritem, gritem bem alto, chegou ABRIL”.
E a história (vivida) tinha começado….
A irreverência do Povo Português
O que foi o 25 de Abril de 1974, como foi vivido, o que significou para o “irreverente Povo Português” abrir os olhos e gritar, foram algumas das explicações dadas por António Sousa Pereira que, aos 61 anos, casado e pai de três filhos, recordou a importância que os portugueses tiveram no mundo, ao longo de quase mil anos de história, detendo-se na época das Descobertas e do colonialismo.
Adaptando o seu discurso à plateia, recordou as torturas no Tarrafal, mostrou desenhos feitos por presos políticos e explicou que “só por pensarem de maneira diferente as pessoas iam para os campos de concentração, designadamente em Cabo Verde”.
Ao mesmo tempo que explicava, de uma mala iam saindo ‘tesouros’ que o ajudavam a mostra a história aos mais pequenos. Livros, revistas, dvd’s, e até um disco em vinil de Zeca Afonso, de tudo um pouco Sousa Pereira se socorreu para dar vida, cor e música à sua história vivida.
“O 25 de Abril é um dia que ficará para sempre na história de Portugal”, disse, até porque, acrescentou “nesse dia Portugal cortou com todo o seu passado e deu início a uma nova história”.
Para este jornalista, poeta e ‘contador de histórias’, o 25 de Abril não pode, nem deve ser encarado como algo antigo, do passado. “A responsabilidade do 25 de Abril está nas vossas mãos. O 25 de Abril é futuro e é lindo. O 25 de Abril é Liberdade. O futuro é Liberdade!”.
Neste ponto da sua história e depois de ter recordado inúmeros barreirenses presos ou mortos durante o tempo da ditadura/guerra colonial, Sousa Pereira fez a ponte com a noite de 24 de Abril de 74 através da declamação de um poema do seu livro «Um Sonho Chamado Liberdade».
Quase a terminar referiu que o 25 de Abril ‘tem’ três palavras – Democratizar – Descolonizar – Desenvolver – e que, na sua opinião, estas três ideias estão cumpridas.
À saída e porque afirmou também querer ficar com uma recordação desta ‘história’ de abril, já com 40 anos, Sousa Pereira deixou um pequeno caderno para que alunos e professoras possam deixar o seu registo. Ele, prometeu, voltar para o recolher.
«Contar Histórias (vividas) no 25 de Abril» é uma iniciativa que decorre até 9 de maio, destina-se aos alunos do Concelho, desde o 4º ano ao ensino Secundário, e apresenta como oradores nomes conhecidos da comunidade barreirense tais como Ercília Talhadas, (já amanhã, a partir das 10h00 na EB 2º e 3º Ciclo da Quinta da Lomba), Carlos Humberto de Carvalho ou Armando Teixeira.
Fonte - CMB













