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Montijo - Sala cheia na apresentação do 10º livro de Alcídio TorresA crise não foi originada por as pessoas e os Estados viverem acima das suas possibilidades

A sala da Biblioteca Municipal do Montijo encheu-se para o lançamento da obra de Alcídio Torres “Não interessa a cor do gato desde que ele cace o rato? – A peugada neoliberal desde os anos 80.

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Montijo - Sala cheia na apresentação do 10º livro de Alcídio Torres A crise não foi originada por as pessoas e os Estados viverem acima das suas possibilidades

Por Jornal Rostos

A sessão de lançamento iniciou-se com a intervenção de Eugénio da Fonseca. O Presidente da Cáritas Nacional elogiou as qualidades do autor, a vasta bibliografia utilizada, recomendando vivamente a leitura do livro, que considerou de grande profundidade e uma resposta à altura dos grandes problemas hoje vividos pela humanidade.

Por sua vez, Alcídio Torres começou por distinguir dois períodos essenciais da história, um que vai de 1940 a 1970 e um outro do final dos anos 70 até aos dias de hoje. No primeiro período, assiste-se a uma correlação de forças favorável ao trabalho, ao aumento do poder de compra, ao aumento do investimento público e ao aumento dos lucros.
No segundo período, segundo o autor, a situação inverte-se e, como consequência, vivemos ainda uma crise sem precedentes. Esta viragem neoliberal, segundo o autor, teve como objectivo essencial reduzir a massa salarial para aumentar de maneira directa o lucro das empresas, que é investido agora maciçamente não em operações de produção, como na fase anterior, mas em operações de transferência de propriedade. Estas enormes transacções traduziram-se na absorção de empresas privadas e na aquisição de empresas publicas (através de privatizações em massa como aconteceu em Portugal).

Perante a diminuição generalizada da capacidade de consumo das grandes massas, o sector da banca procurou responder ao problema encharcando maciçamente o mercado de crédito fácil e barato. O crédito mal parado desencadearia uma crise imobiliária sem precedentes e só comparável à grande depressão de 1929.
Na óptica do autor, como pela boca morre o peixe, como costuma dizer o povo, a banca acabaria por sucumbir e muitos dos bancos e instituições financeiras viriam a sobreviver com a ajuda dos Estados, ou seja com o dinheiro dos contribuintes. Os Estados endividavam-se para pagar a irresponsabilidade, a incompetência e os crime do sector bancário.

“Portanto foi a crise financeira que originou as dívidas soberanas e não as dívidas soberanas a originarem a crise financeira. Ou seja a crise não foi originada por as pessoas e os Estados viverem acima das suas possibilidades, mas sim pela distribuição desigual dos rendimentos e da riqueza, pela redução do consumo e do poder de compra, que impediu as pessoas de pagarem as prestações das casas e outros compromissos”, referiu Alcídio Torres.
Um outro tema abordado pelo autor foi o discurso hegemónico da corrupção defendido em Portugal pela Transparência Internacional (TI), que confundindo conceitos e escondendo a fraude e a evasão fiscal, concentra todo o seu ataque na corrupção do sector público.

“A TI omite que o custo da corrupção oriundo de práticas antiéticas no sector público é 25 vezes inferior aos fluxos ilícitos de capitais resultantes da fuga e evasão fiscal provenientes do sector privado, segundo um relatório anticorrupção de 2014 da EU. Ou seja por cada 26 milhões de euros de fluxos ilícitos, só um milhão é proveniente da corrupção.
Segundo o Observatório de Economia e Gesta de Frades, a economia paralela ou não registada corresponde a 27% do PIB português, ou seja 50 mil milhões de euros. Por este valor não arrecadado não se pode responsabilizar a corrupção , mas a fraude fiscal oriunda do sector privado e potenciada pela permissão do Estado, concluiu o autor.
Este valor representa um “monte” de notas de 100 euros com quase 10 quilómetros de altura, superior ao Monte Evereste, o segundo maior do mundo.
Se esta verba fosse arrecadada daria para pagar durante mais de 20 anos os gastos do OE com o Ensino Superior e a Ciência.

Na óptica de Alcídio Torres, a TI, secundado pela Fórum Económico Mundial e pelo FMI, o que pretende com o discurso hegemónico da corrupção no sector público é endeusar o mercado e as suas virtudes e sentar no banco dos réus o sector público e os políticos, alegadamente repleto de privilégios e privilegiados.
Este discurso da TI em Portugal e na Europa contra a corrupção nos Estados serviu para atacar o Estado Social e os que viviam, alegadamente, acima das suas possibilidades, serviu para perpetrar toda a política de austeridade, traduzida em redução de salários e pensões, no aumento de impostos, no aumento do desemprego, no aprofundamento das desigualdades sociais e na venda sem critérios do património do Estado.

Alcídio Torres apresentou um conjunto de ideias, de propostas de soluções para os grandes problemas com que as sociedades são hoje confrontadas. Nas actuais circunstâncias políticas, segundo ele, as sociedades actuais estão confrontadas com 4 grandes desafios:

1 – o primeiro grande desafio passa por modificar a actual correlação de força.

2 – O segundo desafio passa por reinventar um modelo económico que tenha como centro da cidadania política o combate às desigualdades sociais e pela distribuição mais justa dos rendimentos e da riqueza;

3 – O terceiro desafio passa por criar lideranças políticas e sindicais viradas essencialmente para a defesa do que se designou chamar os 99% da população;

4 – O quarto desafio passa por criar em cada país um forte e sustentado sistema nacional de ética pública. Esta Rede incluiria uma nova forma de avaliação dos candidatos a cargos políticos e privados, com base na avaliação de 3 competências fundamentais: A técnica, a emocional e a ética. A conjugação destas três inteligências daria lugar a um único quociente, (Quociente Integrado das Três Inteligências). Este método provocaria uma verdadeira revolução ao nível do recrutamento qualificado no sector público e privado.

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