Jorge Serafim apresenta «Contopias» no BarreiroSessão de Contos na Biblioteca Municipal

Por Jornal Rostos
O Barreiro recebe a 5ª edição do ciclo de programação infantil “Palmo e Meio”. Promovido pela Câmara Municipal do Barreiro, este ciclo de programação cultural é inteiramente dedicado aos mais novos, dos 0 aos 10 anos. O mês de fevereiro foi escolhido, especialmente, por ser o mais pequeno do ano, criando assim uma analogia com o público infantil.
Sinopse
“Contopias
Nos dias que correm, e é sempre importante salientá-lo, não é só a informação que corre a uma velocidade estonteante. Paralelamente a esta panóplia de veículos de divulgação mediática, decorre uma incompreensão alucinante da descodificação dessa mesma informação. Cada vez mais lemos para não interrogar. Desconhecendo toda a extensão da língua que usamos diariamente, reduzimos o nosso espaço sensorial a apenas um sentido, o olhar. O olhar torna-se assim no único leitor da linguagem diária, a do marketing e da publicidade. Exilamos a riqueza da língua para um quarto onde nem a memória tem ordem de entrar.
Ao fazermos da língua um vago acessório, e não o grande veículo de comunicação entre os cidadãos, não nos damos conta de que estamos a matar o tempo que devemos dedicar a uns e a outros. Falar pressupõe ouvir. Ouvir pressupõe atenção, concentração. Falar e ouvir, escutar e dialogar são as duas condições necessárias para a compreensão do Outro. Significa que será nas diferenças que nos aceitamos. A compreensão necessita de sentidos despertos, permanentemente ativos. Que despertam atitudes de reflexão permanente e de constante interrogação sobre o meio que nos rodeia.
Contar é o ato de apagar fronteiras. De separar o que importa do que não. Contopias são contos ao redor do mundo que têm na palavra a forma de reencontrar as pessoas em tudo o que as une e separa. Em tudo o que as assemelha e diferencia. São histórias, índias, africanas, europeias, orientais, árabes, narradas numa única sessão. Talvez o contador de histórias seja o último reduto da utopia. O homem que pela palavra encontra semelhanças que diluem as ignorâncias invasivas. Esta viagem condensada numa única sessão pretende atravessar o mundo e os seus ouvintes, reaproximando-os em toda a geografia do afeto. Essa é a força maior da memória e da palavra partilhada sem preconceito.
Saber quem somos, para saber que os outros também o são”.
Jorge Serafim
Durante o mês de fevereiro | EXPOSIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO DE JORGE SERAFIM - O Afinador de Memórias, na Biblioteca Municipal do Barreiro.
"Era uma vez um homem que pretendia recuperar as histórias das casas abandonadas. Para o conseguir, decidiu tornar-se num afinador de memórias. Num homem dedicado a consertar coisas esquecidas. Logo pela manhã, montava-se no verbo ouvir e percorria ruas e demais vizinhança com o propósito de acabar com a indiferença das pessoas perante tanto desleixo. Pretendia nomes, acontecimentos, factos, enredos e argumentos para reabilitar o que existiu restaurando o que ainda existe. Queria calcetar tudo no presente. Tinha pressa do passado. Ir de porta em porta armazenar futuro atrás de futuro.
Um dia, cansado de tanto esquecimento, declarou: "É do ar que todos vivem, pelo ar mudarão!" E começou a contar tudo o que sabia, de dia, de noite e de madrugada. As palavras saíam-lhe ininterruptas de modo a saturar o ar de histórias ainda não ouvidas. As pessoas, inspiravam-no pela pele, pelo nariz, pelos ouvidos, pelo sonho. Dentro delas, circularam respeitos até então desconhecidos".













