Barco Viking em LisboaO Tejo pareceu reencontrar uma imagem perdida na História.

Por Jornal Rostos
Com cerca de 28 metros de comprimento, o ORKAN, uma embarcação de inspiração viking, entrou em Lisboa depois de uma viagem pela costa portuguesa que passou por Vila Real de Santo António, Sines e Setúbal, despertando a curiosidade de milhares de pessoas que acompanharam a sua progressão ao longo do rio.
A chegada à capital constituiu um dos momentos mais marcantes da viagem promovida pelo IPAC – Instituto Português de Arte e Cultura, numa iniciativa que procura cruzar património marítimo, investigação histórica, cultura, navegação tradicional e participação das comunidades.
Em Lisboa, o projeto contou com o importante envolvimento da Junta de Freguesia de São Vicente, responsável pelo acolhimento e dinamização de várias iniciativas destinadas a aproximar a população da embarcação, da sua tripulação e da memória marítima que o ORKAN representa.
Não foi apenas a chegada de um barco. Foi o reencontro de Lisboa com uma parte remota da História marítima europeia.
Milhares acompanharam a passagem pelo Tejo
A silhueta invulgar do ORKAN tornou-se rapidamente num elemento de atração ao longo do estuário. Das margens do Tejo, de diferentes pontos da cidade e de embarcações que navegavam no rio, milhares de pessoas observaram, fotografaram e filmaram a passagem do ORKAN.
A imagem adquiriu um significado particularmente forte em Lisboa.
Há mais de mil anos, navegadores nórdicos percorriam a fachada atlântica da Península Ibérica. Séculos mais tarde, seria precisamente deste rio que Portugal partiria para algumas das maiores viagens marítimas da História.
Por momentos, essas duas memórias pareceram encontrar-se na mesma paisagem.
Uma embarcação inspirada na tradição naval viking avançava pelo Tejo, diante de uma cidade cuja identidade foi construída, em grande parte, pela relação com o mar.
Mais de 200 visitantes conheceram o ORKAN
A passagem por Lisboa não se limitou à navegação da embarcação.Com o envolvimento da Junta de Freguesia de São Vicente, mais de duzentas pessoas tiveram oportunidade de visitar o ORKAN, conhecer o seu interior, contactar com a tripulação e perceber de que forma se vive e navega a bordo de uma embarcação desta natureza.
Para muitos visitantes, particularmente crianças e famílias, tratou-se de uma experiência pouco habitual: deixar de observar a História através de fotografias, livros ou vitrinas e entrar fisicamente num barco que está efetivamente a realizar uma viagem marítima pela costa europeia.
Madeira, cordame, convés, espaço limitado e vida coletiva a bordo ajudaram a revelar uma realidade que nenhuma representação museológica consegue reproduzir completamente.
O contacto direto com a embarcação transformou, assim, a História numa experiência.
Este princípio está no centro do projeto desenvolvido pelo IPAC: retirar o património do espaço exclusivamente contemplativo e colocá-lo novamente em movimento, junto das populações.
Museu da Água recebeu encontro dedicado ao mar e à memória. A permanência do ORKAN na capital incluiu igualmente uma componente de reflexão cultural e histórica.
No Museu da Água – Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, em Lisboa, realizou-se um encontro dedicado ao mar, ao património, à História e às condições de navegabilidade da costa portuguesa.
O seminário permitiu cruzar diferentes perspetivas sobre a importância do património marítimo e recordar que uma viagem como a do ORKAN não constitui apenas uma evocação histórica.
A embarcação está verdadeiramente a navegar.
Isso significa enfrentar diariamente aquilo que os homens do mar conhecem há séculos: vento, ondulação, correntes, marés, entradas de barra, mudanças meteorológicas e a necessidade permanente de adaptar os planos às condições do oceano.
A tecnologia mudou profundamente. O respeito pelo mar, não. IPAC transforma uma viagem marítima numa iniciativa cultural
A organização da passagem do ORKAN por Portugal pelo IPAC – Instituto Português de Arte e Cultura nasceu precisamente desta vontade de transformar uma viagem marítima numa experiência cultural de dimensão nacional.
O objetivo não se esgota na presença de uma embarcação singular nos portos portugueses.
Em cada escala pretende-se criar uma oportunidade de encontro entre História, património, territórios, instituições e populações.
A viagem tem mobilizado municípios, autoridades marítimas e portuárias, instituições culturais, associações ligadas ao mar e comunidades locais ao longo da costa.
Depois de Vila Real de Santo António, Sines e Setúbal, Lisboa representou um momento particularmente simbólico do percurso.
O envolvimento da Junta de Freguesia de São Vicente permitiu acrescentar uma importante dimensão comunitária ao projeto, demonstrando como as instituições locais podem contribuir para transformar o património num instrumento de conhecimento, participação e aproximação entre gerações.
Mais do que acolher uma embarcação, São Vicente ajudou a acolher uma história. Uma memória viking ainda pouco conhecida em Portugal A viagem permite também chamar a atenção para um capítulo da História portuguesa ainda pouco divulgado junto do grande público. Os navegadores nórdicos chegaram à fachada atlântica da Península Ibérica há mais de mil anos, utilizando o oceano e os grandes rios como vias de penetração, comércio, exploração e, em determinadas ocasiões, conflito.
A costa do atual território português fez parte desse espaço marítimo.
A presença contemporânea do ORKAN permite recuperar essa memória e, simultaneamente, recordar a extraordinária continuidade histórica das rotas marítimas europeias.
O mar nunca foi apenas uma fronteira. Foi também uma estrada. Por ele circularam homens, embarcações, técnicas, mercadorias, línguas, crenças e culturas. É essa dimensão de contacto entre povos que o projeto pretende recuperar.
ORKAN continua na Doca de Alcântara
O ORKAN permanece atualmente na Doca de Alcântara, em Lisboa, podendo ainda ser observado antes de iniciar a próxima etapa da viagem. A partida deverá ocorrer segunda-feira, 24 de agosto, ou terça-feira, 25 de agosto, dependendo das condições meteorológicas e marítimas. A segurança da tripulação e da embarcação determinará o momento exato da saída de Lisboa.













