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Moldura

FESTIVAL «MÚSICA EM LEIRIA» 2004

O projecto «Música em Leiria», que ao longo de vinte e um anos consecutivos vem cumprindo o seu objectivo principal de dinamizar a cultura na região de Leiria, conhecerá a sua 22ª edição entre 18 de Maio e 8 de Junho de 2004
5 min de leitura

Por Jornal Rostos

O sucesso e a consistência deste evento, que lhe permite um reconhecido e inequívoco prestígio entre os mais importantes festivais de música clássica do País, advém sobretudo de uma experiência acumulada assente na continuidade, quer no que se refere à programação quer relativamente ao apuramento de sensibilidades que lhe permitem uma verdadeira interacção com o diversificado público que habitualmente acorre ao Festival e, consequentemente, uma melhor compreensão do mesmo, no sentido de proporcionar uma intervenção cultural dinâmica e adequada à sua peculiaridade. Esta permanente preocupação relativamente à recepção do Festival junto do público é tanto mais importante quanto a consciência existente da dimensão da intervenção do «Música em Leiria» na formação e sedimentação de hábitos culturais numa região que, apesar dos assumidos esforços quer a nível autárquico e governamental quer de diversas entidades privadas, continua a verificar carências no quadro de um equilibrado e digno desenvolvimento cultural.

Assim, o Festival «Música em Leiria» tem orientado a sua intervenção de forma a proporcionar às populações da região o acesso a uma programação musical de qualidade, que lhe tem permitido, ao longo de mais de duas décadas, conquistar um público diversificado e numeroso. Recusa-se, no entanto, o recurso a estratégias de programação de pendor populista, sem que, por isso, se deixe de sustentar uma postura eclética, o que vem contribuindo para a consistente maturação cultural desse mesmo público.

Mas muito mais além do inequívoco alcance regional da programação do «Música em Leiria», o que, por si só, já seria louvável, a acção do Festival, vem igualmente contribuindo para a qualificação e consolidação da realidade musical do País, através da articulação e colaboração permanente com os mais diversos agentes culturais nacionais. Neste âmbito, sublinhe-se o constante recurso a artistas e agrupamentos portugueses, estimulando, inclusivamente, a prática musical local através da integração de músicos da região, onde cabem, evidentemente, os agrupamentos associados ao Orfeão de Leiria e à sua escola de música; a execução de obras de compositores portugueses dos nossos dias, algumas destas, encomendadas pelo próprio Festival especificamente para ali serem estreadas, divulgando e incentivando a composição musical no País; e, por último, deitando mão de parcerias na produção de espectáculos, tendo em vista a optimização de recursos, o que configura igualmente uma atitude de pendor pedagógico, num país onde grande parte das instituições culturais tarda em partilhar esforços na execução dos seus programas.

A programação do «Música em Leiria» 2004 assenta, mais uma vez, na diversidade – diversidade de géneros, diversidade de estilos, diversidade temporal e diversidade artística. Da Renascença aos nossos dias, propõe-se um percurso por diferentes universos, utilizando os mais variados recursos, que podem ser tão contrastantes como os que dão forma à identidade percutiva do Drumming, que convida uma série de compositores portugueses a olhar para o Pop e o Rock como referência para a escrita das suas obras, e a guitarra de um dos mais consagrados guitarristas da actualidade, o espanhol José Miguel Moreno, que nos “tocará” 400 anos da história daquele instrumento.

Tão inusual, pelo menos para Leiria, como aquele programa que o Drumming traz ao Festival é igualmente a proposta que nos chega de Inglaterra através do grupo I Fagiolini. Trata-se da apresentação semi-cénica da obra L’Amfiparnaso, do compositor italiano quinhentista Orazzio Vechi, onde se mistura de forma magistral e com muito humor as tradições madrigalesca e da commedia dell’arte.

Ao nível dos artistas portugueses que percorrem o Festival, à parte de algumas figuras e agrupamentos de renome que nos visitam e que por si só constituem interesse bastante (Pedro Burmester, António Saiote, Coro Gulbenkian, Capela Real e Segréis de Lisboa, entre outros), destacam-se mais duas propostas, pela novidade que estas sustentam. A primeira, diz respeito ao concerto em que será solista a jovem violoncelista Teresa Valente Pereira, que o «Música em Leiria» faz questão de apresentar enquanto uma das mais promissoras revelações artísticas no panorama musical português dos mais recentes tempos. A outra, é o concerto de estreia do agrupamento Vivaldianas, uma orquestra de cordas constituída exclusivamente por elementos femininos, espelhando a prática musical do Ospedale della Pietà, orfanato veneziano celebrizado pela sua associação a Antonio Vivaldi.

Não podendo deixar de assinalar a passagem do tri-centenário do nascimento de um dos compositores portugueses de maior significado, Carlos Seixas, o «Música em Leiria», em associação com a Fundação Calouste Gulbenkian, propõe também um programa centrado numa das suas mais interessantes obras religiosas, a famosa Missa em Sol Maior, que será interpretada pelos Segréis de Lisboa e pelo Coro Gulbenkian, tendo como solistas Jennifer Smith, Nicki Kennedy, Nicolas Domingues, Mário Alves e António Wagner Diniz.

A Dança é uma das vertentes que, já tradicionalmente, cabe também na programação do «Música em Leiria». Na presente edição, para além de duas coreografias de Paulo Ribeiro e de Rui Horta que o Ballet Gulbenkian traz ao Festival, Leiria terá oportunidade de conhecer a leitura que uma das mais prestigiadas companhias de dança portuguesas, a CeDeCe – Companhia de Dança Contemporânea, propõe do deslumbrante romance de Agustina Bessa Luís Dominga, numa co-produção com o Centro Cultural Olga Cadaval (Sintra).

Concluindo este breve périplo, em nada exaustivo, pela programação do «Música em Leiria» 2004, é ainda obrigatória a referência ao agrupamento que encerrará o Festival, o Musica Antiqua de Colónia. Com o seu carismático líder, Reinhard Goebel, é um dos mais antigos e conceituados agrupamentos no domínio da recuperação do repertório musical pré-clássico, exemplo de qualidade, coerência e consistência de uma história evolutiva com mais de trinta anos, que foram e são o garante do seu grande sucesso à escala internacional.

Miguel Sobral Cid
Director Artístico

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