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Moldura

Arte Viva – 25 anosFidelidades – um encontro com o mundo dos afectos

A Companhia de Teatro do Barreiro ARTE VIVA levou à cena o seu 35º espectáculo, neste ano que comemora 25 anos de acção e criatividade teatral permanente.
“Fidelidades” de Maria do Céu Ricardo, com encenação de Onivaldo Dutra, é o novo espectáculo que pode ser visto no Teatro Municipal do Barreiro.

7 min de leitura
Arte Viva – 25 anos Fidelidades – um encontro com o mundo dos afectos

Por António Sousa Pereira

As luzes apagaram-se. Somos mergulhados na escuridão total. O espectáculo vai começar. Parece que somos convidados a abandonar a nossa vida real e somos transportados pelos sons e pela luz para a cena que emerge, diante de nós, assim como quem nos convida a assistir, e mergulhar naquela noite “festiva de Natal”. A temporalidade da peça é, ali, quase que vivida num tempo real.
Uma noite de 24 de Dezembro, a família prepara-se para viver a consoada . O ritual das prendas. O peru. A família. Os presentes. Os ausentes. Os mortos. Os vivos.
Depois, pelo diálogo dos personagens, somos levadas a reflectir sobre esse valor, que é afinal a “essência” das Noites de Natal - a Família ( ou será que é o amor ?).

A cultura judaico-cristã

A Sala emerge perante nós como uma tabuleiro de xadrez, propondo quase que pensemos as relações humanas como um jogo, uma conflitualidade de busca, de procura, de preenchimento dos espaços, de descoberta de sentimentos, da comunicação e da ausência de comunicação.
É interessante pensar a “dialéctica da mesa” da consoada : inicialmente vazia, depois vai sendo preenchida por iguarias, até que chegam os “sonhos da avó”, e, por fim, de novo, fica vazia, mas desta vez, na verdade, o seu vazio ficará preenchido pelas imagens que a nossa memória (de espectadores- actores) guardou das cenas anteriores.
Há como que um preenchimento dos vazios, como se o real e o sonho se misturassem, nos simbolismos da noite.
A mesa tem uma carga simbólica bem explorada pelo encenador para nos transmitir, até, o sentido do consumismo que é, muitas vezes, na sociedade actual o Natal - os excessos.
A luz funciona na peça com um elemento central, dando força e expressividade às marcações e às movimentações dos personagens naquele tabuleiro vermelho e branco.
É pela luz, que somos convidados a transportar o nosso olhar para o presépio em construção, naquele momento em que o projector foca sobriamente, apenas, sobre o “Menino Jesus”, que ocupa o seu lugar no “presépio” ainda em construção mas que, irá, pouco a pouco, sendo, peça peça, construído pela Alice, pela Octávia e pela avó.
Um momento que coloca, no centro da reflexão, afinal, a questão de fundo de toda a peça – a nossa civilização Cristã, ou Judaico Cristã - pois dá-nos o sinal que tudo se consubstancia nessa luz que irradia do “filho” que celebramos...
Aquele “Menino Jesus” que Alice questiona se é preto, e que conduz ao desabafo de André : “Preto e Judeu”.
Os diálogos dos personagens são, em crescendo, uma proposta de reflexão sobre a família, o amor, a alegria, a tristeza, a liberdade – o cada um ser o que deseja, sendo capaz de rasgar a barreira do “parecer” para se afirmar como “ser”, afinal uma caminhada que o texto nos propõe, ao longo do diálogo entre personagens, sermos capazes de caminhar na descoberta do “mundo dos afectos” e da nossa interioridade.
As personagens, por vezes, parecem que funcionam como um jogo de espelhos, em que cada um procura encontrar no outro, ou lançar sobre o outro os seus fantasmas e dramas.

A angústia da tradição

A D. Felicidade ( representada por Célia Figueira) é uma presença forte nesta peça, uma presença que transporta consigo a responsabilidade de nos fazer pensar e repensar a “tradição”.
Célia Figueira vive intensamente a sua personagem, com expressividade, gesticulação corporal e fisionómico e, nas cenas onde entra, torna-se praticamente o centro dos “discursos”, porque esta personagem tem a responsabilidade de nos conduzir ao enquadramento do tema, através das referências às suas memórias – o quadro da família - e ao mundo que está em mudança, que ela quer compreender, procura aceitar, com angústia, porque vive o ideal da família como um sonho.
Esta personagem atinge um ponto de grande força estética, num quadro de grande beleza, quando, subitamente, entra em cena e diz : “Querem provar os sonhos da avó ?”.
O texto, sublinhe-se, tem uma importância central nesta peça ( valorizando as personagens), quer enquanto elemento que permite conhecermos as suas interrogações, quer enquanto fio condutor da reflexão que a peça nos propõe sobre os valores que marcam o nosso tempo, e o confronto com as suas raízes.
O texto coloca perguntas. Lança-nos desafios. E deixa a cada um de nós e às próprias personagens a responsabilidade de procurar as respostas.
O mundo e muitos dos seus dramas estão presentes ali naquela sala, nos sonhos e paixões. A vida.

Respirar Amor-Liberdade

Octávia ( representada por Maria Matos) transporta para a cena o ideal da “Liberdade”, a sua entrada em cena é uma lufada de ar fresco, introduzindo um novo ritmo no espectáculo e colocando numa nova dimensão as ideias que emergem do texto.
Octávia, representada por Maria Matos, com energia e uma interpretação estupenda, cria um ambiente de “euforia” e anuncia o debate sobre a(s) dualidade(s) das relações humanas, criando o clima de confronto de ideias que exige que se respire amor- liberdade.
Octávia humaniza o ambiente, numa tensão dialéctica que vai abrir o caminho ao debate entre o ser e o parecer, que será o desafio central que esta peça deixa em aberto : o cada um ter o direito de construir a sua felicidade. Octávia é o símbolo de uma “modernidade” que se opõe à “tradição” da D. Felicidade.
Octávia arrasta consigo André (papel desempenhado por José Carracedo) obrigando-o a soltar-se e assumir-se.
José Carracedo, com a entrada de Maria Matos em cena, sente-se que começa a viver de forma mais intensa a sua personagem ( quando contracenou directamente com Célia Figueira foi uma personagem mais perra).
Aliás, José Carrecedo, explode de forma plena, sentindo-se que já está senhor do seu papel e plenamente àvontade, na cena que vai contracenar com extrema violência com Pedro ( papel desempenhado por Ricardo Sousa).
Pedro (Ricardo Sousa), sublinhe-se é uma presença que permite com sobriedade sentirmos as mutações psicológicas de André e, sublinhe-se, ambos vivem de forma intensa o jogo de movimentação dos seus personagens e conduzem-nos, com energia e intensidade, de forma implacável, para o momento final do espectáculo.

A criança dentro de nós

Neste espectáculo, um registo para a personagem Alice (desempenhado por Joana Antunes) que marca, com equilíbrio, graça e jovialidade a irreverência da juventude, a ironia a adolescência, uma personagem que dá o sinal e estabelece a ponte entre o real e o imaginário do natal, que coloca em questão a tradição ( interrogando a avó) e a modernidade ( questionando a Octávia) e por fim a presença da ternura ( no abraço fraterno ao seu pai, André).
Uma personagem que muda o seu guarda roupa ( como dando simbolismo diferenciado a diferentes momentos da sua presença no palco, e do papel que desempenha no contexto global da peça (vestindo-se com seda para receber o Natal).
Joana Antunes nota-se que está com plena sinceridade no palco, domina bem a personagem, quer na linguagem, quer na gestualidade. Ela é, afinal, na peça, a criança que todos transportamos dentro de nós. Um encontro com o mundo dos afectos.
De sublinhar ainda, Patrocinia Cristovão, que fez a sua estreia como actora. Está de parabéns. Fica o registo e os votos de boa...sorte, né !
Gostámos da sua presença em palco. Um papel que era marcado por grandes dificuldades, quer por contracenar com Célia Figueira, quer por contracenar com Maria matos. A sua personagem foi abafada pela força destas duas personagens.
No entanto, Helena ( que Patrocínia Cristovão representa) vai-se libertando, e no seu diálogo com André já está mais senhora de si, menos convencional e vive a sua personagem com intensidade.

Teatro..arte Viva !

A Companhia de Teatro do Barreiro “Arte Viva” está de parabéns. Todos foram brilhantes.
O Barreiro está de parabéns por estar a comemorar os 25 anos de actividade do “Arte Viva”.
A Jorge Cardoso, a todos os que contribuíram para chegar até aqui...resistindo, sábado a sábado, anos após ano, no Externato e agora no Teatro Municipal, afinal, ficam uma certeza...quando se vive com FIDELIDADES, e se descobre o MUNDO DOS AFECTOS, o teatro é uma ARTE VIVA!

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