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Moldura

Encerramento em SetúbalSeminário Internacional sobre golfinhos

O presidente da Associação da Baía de Setúbal (ABS), André Martins, apontou hoje, no encerramento do seminário internacional sobre golfinhos, a necessidade de regulamentar as actividades relacionadas com a observação da comunidade de roazes do Sado.

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Encerramento em Setúbal Seminário Internacional sobre golfinhos

Por Jornal Rostos

O responsável máximo da ABS, também vereador do Turismo e Ambiente, falava na sessão de encerramento do Seminário Internacional sobre Golfinhos-Roazes do Sado, que decorreu ontem, todo o dia, e hoje, de manhã, no Esperança Centro Hotel, em Setúbal.

O autarca referiu que, se tivesse de resumir o seminário numa expressão, destacava uma frase da intervenção de Manuel Eduardo Santos, um dos vários interlocutores que participaram na reunião: "Os golfinhos são outra nação, mais antiga do que nós."

André Martins lembrou a intervenção de uma outra especialista em golfinhos, a bióloga Raquel Gaspar, para destacar também a necessidade de se imporem algumas restrições à circulação de embarcações nas zonas mais sensíveis para a comunidade de roazes residente no Sado.

Uma outra questão salientada na conclusão dos trabalhos foi o facto de a maior parte dos participantes no Seminário encarar a extinção daquela espécie como um problema verdadeiramente dramático, tendo sido referidos os exemplos das comunidades de golfinhos residentes no Sado e nas ilhas Losinj, no mar Adriático, onde, em poucos anos, a colónia destes mamíferos perdeu 40 por cento dos elementos.

A sessão de encerramento contou também com as participações de Miguel Perestrelo, em representação do secretário de Estado do Turismo, e do presidente da Região de Turismo Costa Azul, Eufrázio Filipe.

O representante governativo sublinhou que a "preservação de uma comunidade de golfinhos única no mundo será um factor de diferenciação de Portugal face ao resto do mundo e numa época em que o turismo no nosso país evolui de forma positiva, urge, mais que nunca, preservar o património", neste caso o natural.

Para Eufrázio Filipe, acima de tudo, é importante "saber ouvir os golfinhos e dar-lhes voz - saber ouvi-los é preservá-los, dar-lhes voz é, por exemplo, fazer chegar à Assembleia da República e porque não ao Parlamento Europeu os resultados deste Seminário".

Após a sessão de encerramento do colóquio internacional, os participantes receberam na Doca das Fontainhas, um catamarã, que, com o patrocínio do Clube das Mais Belas Baías do Mundo (CMBBM), partiu da região da Bretanha, na França, dia 9 de Maio, e fez escala em todas as baías do Atlântico Norte que pertencem àquele clube.

A tripulação entregou uma escultura de um golfinho em madeira à presidente da Câmara Municipal, Maria das Dores Meira, que, prontamente, a passou para as mãos de André Martins e do secretário-geral do CMBBM, Bruno Bodard, que expressou o desejo de ver construída uma "Casa do Golfinho" em Setúbal, onde, acrescentou, aquela "peça pudesse ter um lugar de destaque".

André Martins aproveitou para agradecer o esforço da tripulação em transmitir pelas várias baías onde passaram a "importância dos golfinhos na baía de Setúbal".

Num dia em que se celebra mundialmente a Criança, cerca de 80 alunos do ensino básico da Escola da Fonte do Lavra tiveram o privilégio de acompanhar a bordo de embarcações típicas do rio Sado - Hiate de Setúbal, Pego do Altar e Riquitim - a chegada do catamarã ao estuário.

Mas não foram só as crianças que receberam o bicasco. Curiosamente e para delícia de todos quantos estavam a bordo, também os roazes do Sado - quem sabe, cientes que eram a outra figura central da festa -, receberam e acompanharam desde a entrada do estuário a pequena frota de embarcações.

Uma outra notícia já havia encantado os participantes do Seminário, quando ontem, um dos interlocutores do evento, Pedro Narra, da empresa Vertigem Azul, uma operadora turística de observação de golfinhos, informou os presentes do nascimento, anteontem, de uma nova cria, o "Moisés".

Uma notícia que, embora traga o carimbo de esperança na luta contra a extinção da espécie no Sado, é manifestamente insuficiente para combater o decréscimo acentuado, nas últimas duas décadas, da comunidade de golfinhos no estuário.

Raquel Gaspar, da Associação Viver a Ciência, que abordou, ontem, o tema "Evolução da população residente de roazes do Sado, propostas para um plano de acção e medidas de conservação", foi um dos interlocutores mais preocupados não só com a diminuição da comunidade como com o envelhecimento da mesma e a taxa elevada de mortalidade juvenil da espécie.

"Antigamente, eram tantos os golfinhos no Sado que serviam de alimento aos pescadores. Nos últimos 20 anos, os jovens roazes da comunidade foram morrendo e outros migraram e juntaram-se aos da mesma espécie no mar", referiu a bióloga.

Raquel Gaspar foi mais longe e explicou que, actualmente, 15 dos 26 roazes do Sado "têm cabelos brancos, ou seja, daqui a 10 ou 15 anos poderão já cá não estar e a população de golfinhos vai ter um corte brutal".

Para evitar esta extinção, a especialista em golfinhos, apresentou quatro propostas, através das quais é possível inverter a situação.

Uma delas passa pela exclusão de embarcações - durante a Primavera/Verão, época de nascimento das crias - das zonas de preferência dos roazes do Sado, nomeadamente junto das futuras instalações da marina em Tróia e no chamado canal sul.

Outras medidas que podem contribuir para a sobrevivência da comunidade de roazes do Sado são a regulamentação da observação dos golfinhos, a elaboração por parte de crianças de um mural subordinado à pergunta "O que é que vocês acham que as pessoas que decidem deviam fazer para proteger os golfinhos do Sado?" e a realização de um percurso pedestre interpretativo da história dos roazes.

Manuel Eduardo dos Santos, outro especialista no estudo de golfinhos, membro do Projecto Delfim e professor do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, sublinhou que o seminário "peca por chegar atrasado 15 anos" e lembrou que o naturalista Bocage, primo do poeta setubalense, foi o primeiro a fazer um registo científico sobre a passagem daquela espécie pelo estuário do Sado.

Desde então, destacou, vários estudos têm sido elaborados mas as incertezas sobre a espécie continuam. "Continuamos sem saber quais são os agentes concretos que têm levado a uma elevada taxa de mortalidade juvenil, o que é grave numa perspectiva de preservação. Não conhecemos também o nível de trocas genéticas e sociais que estes animais têm com outras populações da mesma espécie, bem como os impactes que as embarcações têm realmente sobre os golfinhos", disse.

Como prioridades para a investigação dos roazes do Sado, o responsável pelo Projecto Delfim - criado em 1992 e que se dedica entre outros ao estudo do meio aquático, em especial dos mamíferos marinhos no seu ambiente natural - apontou a constituição genética da população e a continuidade da monitorização anual da mesma.

Embora seja cada vez mais difícil angariar financiamento para a investigação, o professor universitário referiu que é essencial medir as cargas de contaminação nas águas do estuário, nas espécies que servem de alimento aos golfinhos e nos próprios animais, bem como conhecer melhor os recursos alimentares mais importantes para os roazes e os problemas ecológicos que mais os afectam.

O croata Drasko Holcer, da organização não governamental "Blue World Institute of Marine and Conservation", falou sobre o arquipélago das ilhas Losinj, no Adriático Norte, e da Reserva Zoológica Especial, a primeira do tipo no Mediterrâneo. "Nesta reserva temos a única comunidade de golfinhos residente no mar Adriático, embora nos últimos dez anos ela tenha diminuído 40 por cento, principalmente devido ao turismo em massa, excesso de pesca e degradação do habitat com a construção massiva ao longo da costa", frisou.

Em representação da Região de Turismo da Costa Azul interveio Jorge Humberto que centrou a sua abordagem no tema "Setúbal, Turismo e Golfinhos".

"Nós como cidadãos temos uma dívida para com a comunidade de golfinhos do Sado. Espero que este seminário sirva para a começar a pagar", começou por dizer o técnico da Costa Azul, acrescentando que, do ponto de vista de uma ideia turística para Setúbal, os roazes entram em duas grandes áreas: Imagem e Diferenciação.

"Se pensarmos no que Setúbal tem de único podemos lembrar-nos de várias coisas, mas uma das primeiras serão os golfinhos", destacou Jorge Humberto que, em jeito de conclusão, disse ainda que muitos dos passos que é necessário dar não dependem de recursos financeiros, têm a ver com a sensibilidade e atitude da população do Concelho.

André Anciães, representante da Turmares, operadora turística que se dedica à observação de cetáceos no Estreito de Gibraltar e na Baía de Algeciras, foi outro dos interlocutores do Seminário, e salientou que este tipo de empresas devem "envolver-se em projectos de cooperação científica, disponibilizando as suas embarcações como plataforma de observação".

Além deste, foram também oradores Pedro Narra, da empresa setubalense Vertigem Azul, um dos parceiros da ABS e da Câmara Municipal na organização do Seminário, Octavian Postolache, professor nos institutos Superior Técnico e Politécnico de Setúbal. O primeiro deu a conhecer as actividades da empresa de que é responsável e que se dedica, também, à observação de golfinhos no Sado, enquanto o docente de origem romena falou do "Projecto Goa - Ouvir os golfinhos e medir a qualidade da água onde vivem".

Graça Viegas, da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, abordou o tema "A protecção do ambiente na actividade portuária", e João Barbas, da Associação Portuguesa do Património Marítimo, centrou a sua intervenção na "Importância da preservação do património marítimo e ribeirinho do estuário do Sado e da Baía de Setúbal para um desenvolvimento sustentado".

Filipe Marchand e Fernando Completo, membros da equipa de Turismo que está a elaborar o Plano Director Municipal, foram os interlocutores do último painel do Seminário, com o tema "Desenvolvimento e Animação Turística e o Planeamento Municipal".

Os técnicos colaboradores da Autarquia em matéria de PDM referiram-se ao Plano Estratégico Nacional de Turismo, que vai condicionar a evolução do próprio turismo, ou seja, inverter a ideia que em termos turísticos há apenas três regiões importantes: Lisboa, Algarve e Madeira. "O objectivo é tornar o País todo como um destino total", explicou Filipe Marchand.

Os técnicos apontaram, ainda, os grandes eixos que estão a aprofundar no âmbito da elaboração do PDM e que passam, entre outros aspectos, pela valorização urbana/turística de Setúbal, dos equipamentos, da frente ribeirinha alargada - até às praias -, do património natural, dos recursos humanos da área da hotelaria e da animação turística.

Fernando Completo lembrou que, "quando falamos de animação turística no Concelho, temos de falar de multi-centralidade geográfica, pois deparamos, em Setúbal, com dimensões territoriais rural, urbana, de montanha, fluvial e litoral".

Durante a tarde de hoje os participantes no Seminário realizaram uma visita técnica ao estuário do Sado.

"Desenvolvimento eco-turístico e medidas de conservação da comunidade de golfinhos residentes" foi o tema central do evento, que visou promover o debate e reflexão sobre a comunidade de golfinhos-roazes do Sado e a conservação do seu habitat, numa perspectiva de compatibilização com as actividades económicas e de lazer no estuário.

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