As reservas alimentares mundiais sobem, mas os riscos de fome persistem no Sahel e no Médio Oriente
Por Jornal Rostos
O relatório Perspetivas das colheitas e situação alimentar prevê um aumento recorde de 3,2 por cento na produção mundial de cereais em 2012, totalizando cerca de 2.419 milhões de toneladas, principalmente devido a um forte aumento da produção de milho nos Estados Unidos. Os preços do trigo e dos cereais para rações diminuíram em maio, principalmente durante a segunda quinzena, impulsionados pelas boas perspetivas de abastecimento.
A FAO adverte que, apesar das tendências globais positivas, os países do Sahel continuam a enfrentar sérios desafios à sua segurança alimentar devido aos elevados preços locais dos alimentos e às guerras civis. A Síria e o Iémen também estão entre os países que enfrentam níveis crescentes de insegurança alimentar.
“As situações do Iémen e da Síria demonstram a clara ligação entre a segurança alimentar e a paz. Neste caso, o conflito interno está a causar insegurança alimentar. Mas, isto também funciona ao contrário. Por todo o mundo vemos crise após crise provocada, total ou parcialmente, pela falta de alimentos ou por disputas sobre recursos naturais, em especial o solo e a água”, afirmou o Diretor-Geral da FAO, José Graziano da Silva.
O relatório também indica 35 países com necessidade de ajuda alimentar externa, incluindo: Afeganistão, República Popular Democrática da Coreia, Haiti, Iraque e Mali. Desse total, 28 países encontram-se em África.
“Mais uma vez, isto só serve para mostrar que, hoje em dia, a fome é principalmente um problema de acesso. Milhões de famílias pobres em todo o mundo carecem dos meios para produzir os seus próprios alimentos ou de empregos e rendimentos dignos para comprarem a comida de que necessitam", explicou Graziano da Silva.
África e Médio Oriente
A África Ocidental continua a enfrentar “insegurança alimentar e a subnutrição crescente em vários países”, devido a uma queda acentuada na produção de cereais e pastagens em 2011, combinada com os elevados preços locais dos alimentos e com os conflitos civis.
O crescente conflito no Mali, o consequente deslocamento para os países vizinhos e os surtos de gafanhoto do deserto que se estão a mover do norte da África para o sul, são outras das ameaças à produção agrícola de 2012 na região do Sahel, especialmente no Níger, Mali e Chade, afirmou a FAO.
Na África Oriental, as chuvas da estação começaram tarde, encurtando o período de crescimento das culturas. Além disso, as inundações afetaram algumas áreas no Quênia, Somália, Tanzânia e Uganda, ao mesmo tempo que persistem as condições de seca severa em partes dos distritos do nordeste e litoral do Quênia.
No Norte de África, espera-se que Marrocos observe quedas acentuadas na produção após chuvas “erráticas e insuficientes”, enquanto o resto da região deverá obter colheitas acima da média.
As condições climáticas desfavoráveis em 2012, incluindo secas e ciclones, resultaram na queda da produção de cereais em partes da África Austral, enquanto os preços elevados dos alimentos no Malawi agravaram a insegurança alimentar.
No Médio Oriente, a situação de insegurança alimentar foi citada como uma grande preocupação na Síria e no Iémen, devido à agitação civil. Estima-se que 1 milhão de pessoas necessitem de assistência humanitária na Síria devido ao impacto dos tumultos sociais contínuos sobre as famílias e os canais de distribuição alimentar em diversos mercados.
No Iémen, estima-se que cerca de 5 milhões de pessoas se encontrem em situação de insegurança alimentar grave e a precisar de assistência alimentar de emergência, devido aos altos níveis de pobreza, ao conflito prolongado e aos elevados preços dos combustíveis.
Cesta de pão vulnerável na Ucrânia
Na Comunidade de Estados Independentes (CEI) da Europa, a FAO prevê um declínio de seis por cento na produção de cereais, para as 148 milhões de toneladas, em relação ao nível do ano passado. Isto reflete principalmente as perspetivas desfavoráveis na Ucrânia, onde as condições climáticas adversas durante a temporada de inverno estão a ter um efeito negativo sobre a produção de cereais. Estima-se que a produção de trigo seja de 14 milhões de toneladas, quase 40 por cento abaixo da abundante colheita do ano passado e bem abaixo da média dos últimos cinco anos.
A queda significativa na Ucrânia, um dos maiores produtores de alimentos na região, deverá ter um impacto na oferta e nos preços dos países vizinhos.
Na CEI da Ásia, estima-se que a produção de trigo no Cazaquistão, o principal produtor de cereais na sub-região, seja de 14,7 milhões de toneladas, um terço abaixo do nível registado no ano passado.
Ásia e Américas veem ganhos
O relatório da FAO prevê um aumento recorde de 3,2 por cento na produção mundial de cereais em 2012, totalizando cerca de 2.419 milhões de toneladas, principalmente devido a um forte aumento da produção de milho nos Estados Unidos.
Eram esperadas colheitas recordes e uma melhoria da produção em grande parte da Ásia, América do Norte, América Central e América do Sul.
A previsão para os stocks mundiais de cereais para as culturas que terminam em 2013 é a de um aumento para as 548 milhões de toneladas, ou seja, de 7 por cento em relação aos níveis iniciais e os mais altos desde 2002. Esta previsão é de 4 por cento (ou 23,5 milhões de toneladas) superior do que a que foi relatada no mês passado, inteiramente devido a um aumento na previsão sobre os stocks mundiais de cereais para rações, que estão agora nos 201 milhões de toneladas – um aumento de 20 por cento face ao baixo nível de 167 milhões de toneladas da temporada anterior.
Os preços dos alimentos
Globalmente, o Índice de Preços dos Alimentos da FAO, que mede a variação mensal dos preços internacionais de um conjunto de produtos alimentares, caiu 4 por cento em maio devido à oferta geralmente favorável, ao crescimento das incertezas económicas mundiais e ao fortalecimento do dólar americano.













