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FAO defende sistemas alimentares energeticamente inteligentesdurante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável

A forte dependência da agricultura dos combustíveis fósseis está a dificultar a capacidade do sector em alimentar o mundo, perpetuando a pobreza e comprometendo os esforços para se construir uma economia mundial mais sustentável, afirmou hoje a FAO.

O aviso coincide com a apresentação por parte da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura de um estudo sobre produção alimentar “energeticamente inteligente”, em vésperas da próxima conferência Rio +20 sobre desenvolvimento sustentável, onde os desafios globais em relação à energia serão prioritários na agenda.

6 min de leitura

Por Jornal Rostos

O estudo da FAO mostra que, no seu todo, os sistemas mundiais de produção alimentar – desde as explorações agrícolas onde os alimentos são cultivados até às etapas posteriores de processamento e comercialização – consomem 30 por cento de toda a energia disponível.

A maioria do consumo energético – 70 por cento – ocorre depois dos alimentos deixarem as explorações agrícolas, quando estes são transportados, processados, embalados, embarcados, armazenados, comercializados e preparados.

E uma quantidade significativa de toda a energia usada na cadeia alimentar, cerca de 40 por cento, é simplesmente perdida devido às perdas e desperdícios alimentares (globalmente, um terço de todos os alimentos, cerca de 1.3 mil milhões de toneladas são deitados fora ou desperdiçados todos os anos).

Ao mesmo tempo, cerca de 3 mil milhões de pessoas têm acesso limitado a serviços energéticos modernos para aquecimento e cozinha, e 1.4 mil milhões não têm acesso ou têm acesso limitado à eletricidade, afirma o relatório da FAO.

“Os elevados custos do petróleo e do gás natural, a incerteza sobre as reservas limitadas em relação a estes recursos não renováveis ??e o consenso global sobre a necessidade de se reduzirem as emissões de gases de efeito estufa, podem prejudicar os esforços globais para responder à crescente procura por alimentos, a menos que a cadeia agroalimentar se dissocie do consumo de combustíveis fósseis”, indica o estudo.

O relatório também observa que, sem acesso à eletricidade e a fontes energéticas sustentáveis, as comunidades têm poucas hipóteses de alcançar a segurança alimentar, e nenhuma oportunidade de garantir meios de subsistência produtivos que os retire da pobreza.

Alimentos e energia: uma relação estreita

“Para alimentar o planeta, a produção mundial de alimentos precisa de energia. Ao mesmo tempo, a produção de alimentos não só consome energia como também a desperdiça. No entanto, existem grandes oportunidades para melhorar a eficiência energética na cadeia alimentar, bem como para produzir energia sustentável no âmbito da agricultura – estas oportunidades devem ser exploradas com coragem, e eu espero que ocupem um lugar de destaque nos debates do Rio +20”, afirmou o Diretor-Geral da FAO, José Graziano da Silva.

Na Cimeira do Rio sobre Desenvolvimento Sustentável espera-se que os governos exijam uma expansão da iniciativa da ONU para a Energia Sustentável, que visa garantir o acesso universal aos serviços básicos de energia, melhorar a eficiência energética, duplicar a quota das energias renováveis ??no mercado energético global e promover um desenvolvimento baixo em emissões de carbono.

É necessário um novo paradigma para o uso de energia na agricultura

“As fontes baratas de energia estão a diminuir e os mercados energéticos são cada vez mais voláteis”, afirmou Alexander Müller, Adjunto de Diretor-Geral da FAO para os Recursos Naturais e o Meio Ambiente.

“Alimentar a crescente população mundial vai exigir que a produção de alimentos aumente em 60 por cento até 2050, mas não poderemos cumprir essa meta tal como fizemos durante a Revolução Verde, com uma grande dependência dos combustíveis fósseis” explicou Müller. “É necessária uma abordagem muito diferente”, acrescentou.

Produção alimentar energeticamente inteligente

Segundo a FAO, o modelo de produção alimentar energeticamente inteligente envolve:
• Aumentar a eficiência do uso direto e indireto de energia em sistemas agroalimentares, sem reduzir a produtividade
• Usar mais energia renovável para substituir os combustíveis fósseis na cadeia agroalimentar
• Melhorar o acesso das famílias pobres aos serviços energéticos, particularmente de energia renovável e, assim, promover o desenvolvimento económico através de uma melhor integração da produção alimentar e energética.

De acordo com o novo documento da FAO, em cada fase da cadeia alimentar podem adaptar-se práticas para reduzir o consumo de energia.

A lavoura do solo é geralmente a operação com maior consumo de energia no ciclo da cultura. A agricultura de conservação, a sementeira direta e outras técnicas sustentáveis de intensificação podem reduzir a quantidade de energia usada nas explorações agrícolas.

Outras medidas podem ser tomadas ao nível da exploração agrícola, como aumentar o uso de motores mais eficientes no consumo, reduzir a dependência de fertilizantes e pesticidas não-orgânicos através da adoção de técnicas integradas para combater pragas e ervas daninhas, e mudar para variedades de culturas e para raças de animais que exijam menos fatores de produção.

Outro campo de ação: acabar com os desperdícios de água e outras ineficiências dos sistemas de irrigação, que reduzem a eficiência energética total da agricultura e aumentam os custos de produção.

Finalmente, existem diversos exemplos onde o uso de energias renováveis ??(solar, eólica, mini-hidro e bioenergia) em sistemas agrícolas e aldeias melhoram a agricultura e os meios de subsistência.

Eficiência pós-colheita, a energia da produção alimentar

Como a maioria das perdas de energia ocorrem na cadeia alimentar fora das explorações agrícolas, há muito espaço para melhorias no transporte de alimentos e respetivas infraestruturas: melhor isolamento das instalações de armazenamento, redução de embalagens, redução dos desperdícios de alimentos e cozinha mais eficiente, de acordo com o relatório da FAO.

Os sistemas agroalimentares também podem produzir uma grande quantidade de energia. Os resíduos de biomassa provenientes da produção e preparação alimentar e florestal e de outras energias renováveis, como eólica, solar, mini-hidro e geotérmicas são fontes potenciais de energia renovável que podem ser exploradas em sistemas alimentares energeticamente inteligentes. Até agora, os esforços para aproveitar resíduos de origem animal e de outros subprodutos orgânicos para a geração de energia têm-se centrado nas explorações agrícolas, mas pode também fazer-se o mesmo nas instalações de processamento alimentar. No entanto, os riscos e benefícios da produção de energia na cadeia agroalimentar devem ser cuidadosamente ponderados.

Nova Parceria

Para ajudar a promover este modelo, a FAO lançou um Programa de alimentos energeticamente inteligentes para a população e o clima (ESF, na sigla em inglês), uma iniciativa com múltiplos parceiros que visa ajudar os países membros a adotar sistemas alimentares energeticamente mais inteligentes.

O programa concentra-se em três áreas: eficiência energética, diversificação energética através das energias renováveis ??e melhoria do acesso à energia e da segurança alimentar, através da integração da produção alimentar e energética.

Ana Muller

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