A batalha contra a raiva – uma história de sucessoNo Dia Mundial da Raiva, a FAO destaca o projeto de controlo em Bali
Por Jornal Rostos
Um projeto de sucesso em Bali, Indonésia, demonstra que a raiva pode ser controlada através do combate ao vírus em animais, antes que possa ser transmitida aos seres humanos.
A raiva chegou através dos mares
Acredita-se que o vírus da raiva tenha chegado à ilha de Bali em 2008, devido a um cão infetado de um barco de um pescador vindo de uma das ilhas vizinhas onde a raiva é endémica. No final de novembro de 2008, Bali confirmou a sua primeira morte humana devido à raiva e até 2010 o número de casos continuou a aumentar de forma constante, atingindo um pico nesse ano de 11 mortes num mês. Até à data, mais de 140 pessoas morreram.
O vírus da raiva, mais frequentemente transmitido por uma picada ou um arranhão ou por um cão infetado, viaja através do sistema nervoso até que atinge o cérebro. Pode levar semanas, ou pode levar anos. Mas, assim que os sintomas aparecem, a doença é quase inevitavelmente 100 por cento fatal.
“As mortes humanas soaram o alarme de que a raiva estava a circular pela população de cães de alta densidade de Bali”, afirmou Katinka de Balogh, responsável de saúde pública veterinária da FAO e ponto focal para a raiva.
Estima-se que Bali tenha mais de 350.000 cães, a maioria dos quais são considerados “cães comunitários”. Andam livremente nas ruas das vilas e cidades, onde os seus latidos são uma característica no barulho de fundo da vida diária” – diz-se que quase todas as famílias tem pelo menos um cão.
Nas fases iniciais da chegada da raiva à ilha, anteriormente livre de raiva, o foco foi colocado sobre a redução da população de cães através do abate, enquanto a vacinação foi uma ferramenta menos utilizada. No entanto, relatos de novos casos de raiva continuaram a aumentar e os grupos de proteção animal expressavam cada vez mais preocupações sobre o abate.
Grupos de proteção dos animais ajudam a mudar a abordagem
Em 2010, a Bali Animal Welfare Association (BAWA), financiada pela Sociedade Mundial de Proteção dos Animais e a Agência Australiana para o Desenvolvimento Internacional (AusAID), iniciaram em toda a ilha campanhas de vacinação em massa grátis, visando a população de cães vadios. O resultado foi uma queda acentuada nos novos relatos de infeções de raiva em seres humanos. A Direção de Saúde Animal da Indonésia, ao ver os resultados concretos, pediu à FAO suporte técnico para manter o ritmo e desenvolver o projeto com as lições aprendidas na luta contra o vírus da raiva em Bali.
“Se a ação tivesse sido feita mais cedo, vidas e recursos poderiam ter sido salvas. Mas os sistemas de resposta de emergência e os planos de contingência não estavam ativos no momento para conter a propagação dos primeiros casos isolados de raiva”, afirmou a Sra. de Balogh.
“Agora temos de reverter a doença, uma vez que já está em toda a ilha, temos de continuar a reduzir a quantidade de vírus a circular nos cães da ilha”, explicou ela.
Assistência da FAO
No início de 2011, a FAO começou a trabalhar com os serviços veterinários para desenvolver uma estratégia orientada para combater a raiva, a coordenação foi feita a vários níveis: local, provincial e com as autoridades do governo central em Jacarta. Além disso, os serviços de saúde humana, ONGs e grupos locais de proteção animal foram também envolvidos no estabelecimento de uma frente unida contra a raiva. A FAO apoiou o governo, ajudando a harmonizar todas as partes interessadas para lançar um programa de controlo eficaz contra a raiva.
Na primeira ronda de vacinações implementadas pela BAWA, cerca de 239.000 cães foram vacinados. Durante a segunda ronda, coordenada pelo Serviço de Pecuária da Província de Bali e pela Direção de Saúde Animal do governo central, com financiamento da FAO, Austrália e Estados Unidos, mais de 235.000 cães foram vacinados em quatro meses. A terceira ronda de vacinação está em curso agora e vai abranger mais 250.000 cães.
A FAO também apoiou a formação de pessoal veterinário e ligado à pecuária na captura de cães, imobilizando-os com redes e administrando a vacina contra a raiva em segurança – de forma a proteger os cães e também as pessoas ao seu redor. Foram também treinados para colocar coleiras nos cães para marcá-los como tendo sido vacinados. O Programa de Cooperação Técnica da FAO também envolveu:
• Apoio operacional de vacinação de emergência pelo governo local a cães após casos de raiva positivos;
• Fornecimento de vacinas e equipamentos;
• Sensibilização de larga escala para que as pessoas saibam o que fazer se forem mordidas por um cão;
• Apoio à coordenação entre médicos humanos e veterinários para uma rápida comunicação e resposta quando os seres humanos são mordidos por um cão;
• Fornecimento de apoio ao governo local para a monitorização de cães vacinados e não-vacinados em cada aldeia para garantir a cobertura de vacinação;
Imunidade da matilha
Com mais de 70 por cento dos cães vacinados, eles ficam com “imunidade de matilha”. Com este nível de cobertura vacinal, o vírus da raiva é incapaz de se espalhar numa população de cães que tem proteção imunológica, e eventualmente morre.
As mortes de humanos devido à raiva diminuíram de 83 em 2010 para 26 em 2011. Até agora, em 2012, apenas sete pessoas foram vítimas de raiva.
Ultrapassar o último obstáculo
No entanto, a vacinação terá de continuar, uma vez que novos cachorros sem imunidade estão constantemente a nascer e, geralmente, a revacinação deve ser feita uma vez por ano. Os casos de raiva continuarão assim em declínio constante até um dia desaparecerem da ilha.
Jim McGrane, Responsável de Assessoria Técnica da FAO que lidera o trabalho em saúde animal na Indonésia sobre a raiva, bem como em relação à gripe aviária, sublinha que, no entanto, há ainda um trabalho considerável a ser feito para garantir o sucesso.
“Como tem havido cada vez menos casos de raiva a cada mês que passa, há o risco de que as pessoas baixem a guarda e não tomem as medidas de precaução que ainda têm de tomar”, explicou McGrane.
Para continuar estas últimas etapas da campanha em Bali contra a raiva, o apoio tem que ser mantido, senão ela vai certamente voltar.
Fonte - FAO













