Portugal é o sexto país da Europa que mais gasta com os AVCsAVC é a segunda doença cardiovascular que mais mata na Europa
Um em cada cinco AVCs está associado à Fibrilhação Auricular. Terapêutica pode prevenir dois terços dos casos. Os doentes com FA têm mais 50% de probabilidade de ficar permanentemente incapacitados ou morrer durante o ano seguinte ao AVC. Aumento estimado de doentes europeus, de 10 milhões para 25 a 30 milhões em 2050, terá forte impacto no aumento de AVCs.

Por Jornal Rostos
Cerca de 1,3 milhões de europeus morrem de Acidente Vascular Cerebral (AVC) todos os anos e os AVCs em doentes com Fibrilhação Auricular (FA) são mais graves do que os restantes. Por isso mesmo, os doentes que sofrem daquela que é a forma mais comum de arritmia constituem um dos mais importantes grupos para reduzir o peso global, humano e económico, dos AVCs.
O alerta é dado pelo “Grupo de Trabalho para a Prevenção do AVC por Fibrilhação Auricular” que, no seu mais recente relatório, concluído no último trimestre de 2012, reforça a necessidade de agir de forma concertada, em termos clínicos e da política de saúde, para travar o que ameaça ser uma nova “epidemia”.
O relatório divulgado no âmbito do Dia Nacional do Doente com AVC estima que existam cerca de 140 mil doentes em Portugal com FA, com idade igual ou superior a 40 anos e que em 2010 os AVCs eram responsáveis por cerca de 2,5 mil milhões de euros de custos anuais, tornando-se o sexto país da Europa que mais gasta em AVCs por ano.
Desenvolvido no âmbito da plataforma “Strike Out Stroke”, o Estudo “How Can We Avoid a Stroke Crisis in Europe? “ resulta do trabalho conjunto de mais de três dezenas de académicos e clínicos, na sua maioria europeus, que representam organizações como por exemplo a Stroke Alliance For Europe, a European Stroke Organisation ou a European Primary Care Cardiovascular Society. O estudo também é apoiado por associações de doentes e por uma das farmacêuticas de referência atualmente a atuar e inovar na área da cardiologia, a Bayer HealthCare Pharmaceuticals.
O relatório define nove linhas de ação indispensáveis para evitar que o AVC se transforme numa ainda mais alarmante crise de saúde, entre as quais a necessidade de maior e melhor informação sobre a FA e o seu impacto no AVC, a aposta na educação dos doentes para a prevenção dos AVCs relacionados com a FA, a sensibilização e educação dos médicos para o diagnóstico da FA e a prevenção do AVC nestes doentes, assim como o desenvolvimento de estratégias coordenadas para o diagnóstico precoce e adequado da FA.
“A prevenção eficaz do acidente vascular cerebral exige uma política de prevenção que assuma de forma clara este problema como uma prioridade. Os dois alvos essenciais, em Portugal, passam pelo controle adequado da pressão arterial e pelo diagnóstico e tratamento da fibrilhação auricular, assumindo estas duas entidades como os dois grandes responsáveis pelo flagelo que estamos a abordar.
O diagnóstico é simples e as medidas terapêuticas eficazes estão bem definidas. A introdução de novos anticoagulantes representa um salto qualitativo notável não só pela sua elevada eficácia, mas muito especialmente pela sua excelente segurança. Ao doente português deve ser dado acesso às medidas terapêuticas que melhor se adequam ao seu perfil de risco e não podem ser excluídos dos avanços e da inovação tecnológica que o podem favorecer. Não há crise económica capaz de justificar que o doente português seja, na Europa, aquele que fica mais longe do progresso e possa ver negado o acesso às intervenções mais eficazes. Prevenir não é mais caro do que tratar e todo o dinheiro que possamos gastar na prevenção vai ser compensado na redução do número de casos que a acontecer teremos de tratar”, afirma Dr. João Morais, Cardiologista do Hospital de Santo André.
Diagnosticar a FA para prevenir os coágulos que originam o AVC
Caracterizada por uma anomalia no ritmo cardíaco, expressa por sinais elétricos rápidos mas desorganizados, que levam a uma contração demasiado rápida, irregular e ineficiente, da aurícula, a Fibrilhação Auricular afeta cerca de 10 milhões de europeus. Em Portugal, estima-se uma prevalência de 2,5% na população de idade igual ou superior a 40 anos.
Com maior incidência na população mais idosa, a doença tende a aumentar a sua prevalência numa Europa cada vez mais envelhecida, com as estimativas a indicar um acréscimo dramático - para 25 a 30 milhões de pessoas em 2050.
Sabendo-se que a FA aumenta em cinco vezes o risco de AVC e que é responsável por 15 a 20% dos Acidentes Vasculares Cerebrais, este aumento de incidência aponta igualmente para um agravamento dos números de AVCs, que são já a segunda causa de morte por doença cardíaca no velho continente e a principal causa de morte em Portugal em pessoas com 65 ou mais anos de idade.
Refira-se que, além do risco acrescido de terem um AVC, os doentes com FA têm uma probabilidade 50% mais elevada de morrer durante o ano seguinte (face a 27% em doentes sem FA), aumentando, nesta mesma percentagem, o risco de incapacidade permanente.
Apesar de ser uma afeção comum, é frequente que a FA não tenha sintomas, pelo menos sintomas claros e específicos para um rápido diagnóstico, estimando-se que um terço dos doentes não tenha conhecimento da sua condição, o que os afasta de qualquer terapêutica preventiva.
Refira-se que um procedimento simples, de baixo custo, como a verificação da pulsação irregular com a confirmação de um eletrocardiograma (ECG), pode ter um papel crucial na melhoria da deteção de FA.
Terapia anticoagulante pode reduzir risco de AVC em cerca de dois terços
Mas mesmo quando o diagnóstico existe, muitas vezes falha a prevenção ou a forma como é feita. De acordo com estudos feitos em Itália, Alemanha e Espanha, as percentagens de doentes com FA e elevado risco de AVC sob terapêutica anticoagulante estava apenas entre os 25% e os 57%. Num estudo europeu mais vasto conclui-se quesó eram respeitadas as indicações da Sociedade Europeia de Cardiologia em 61% dos doentes.
O AVC por FA pode ser prevenido através de terapêutica anticoagulante (que impede a formação de coágulos sanguíneos), com claro impacto no decréscimo da mortalidade e no número de indivíduos incapacitados, assim como nos custos da doença.
“Quando bem aplicada e bem gerida [a terapia anticoagulante] é altamente eficaz, diminuindo o risco de AVC em cerca de dois terços. No entanto, apesar da existência de orientações para a sua utilização e gestão, esta terapia é subutilizada e mal utilizada na prática clínica, principalmente devido aos inconvenientes associados aos antagonistas da vitamina K (…)”, refere o relatório.
Esta parece ser a principal razão para o “Grupo de Trabalho para a Prevenção do AVC por Fibrilhação Auricular” sublinhar a necessidade de uma melhor aplicação das terapias existentes, de novas estratégias para compreender e gerir a FA, assim como de fazer chegar aos clínicos e doentes novas terapêuticas mais eficazes e com menos risco associado.
“O medicamento anticoagulante ideal é eficaz e tem um perfil de segurança favorável num vasto número de doentes, nomeadamente os mais idosos; um muito baixo risco de interações com alimentos ou outros medicamentos; e um regime de administração simples, sem necessidade de monitorização ou ajustes de dosagem regulares. Agentes que se aproximam desse ideal já estão disponíveis e o incentivo à sua utilização poderia aumentar a adesão ao tratamento e, potencialmente, melhorar os resultados em doentes com FA”, refere o relatório”
Fatores de risco que podem desencadear Fibrilhação Auricular
• Problemas cardíacos ou cardiovasculares
• Diabetes
• Hipertensão arterial
• Obesidade
• Tabaco
Sinais e sintomas da Fibrilhação Auricular
• Pulso irregular
• Palpitações
• Dor ou sensação de desconforto no peito
• Falta de fôlego
• Tonturas
• Desmaio
Muitos caso são assintomáticos e um estudo internacional recente indica um lapso de 2,6 anos entre os primeiros sintomas e o diagnóstico.
Fatores de risco de AVC em doentes com Fibrilhação Auricular
• Acidente Vascular Cerebral ou Acidente Isquêmico Transitório prévios
• Idade avançada
• Insuficiência cardíaca
• Diabetes
• Doença vascular
• Sexo feminino













