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Moldura

Redes mosquiteiras protegem o gado e impulsionam a produção de leiteImpregnadas com inseticida, evitam pragas em estábulos e reduzem mosquitos nas casas

Em Kisii, nas terras altas do oeste do Quénia, uma utilização simples, mas inovadora, de mosquiteiros impregnados com inseticida para proteger o gado está a duplicar, e até a triplicar, a produção de leite em pequenas propriedades leiteiras, reduzindo também as doenças transmitidas por mosquitos às pessoas. O projeto da FAO faz parte de uma estratégia mais ampla para melhorar significativamente a sanidade animal nas áreas mais afetadas por doenças tropicais.

7 min de leitura

Por Jornal Rostos

As redes são seguras para o meio ambiente e têm reduzido drasticamente, em cerca de 90 por cento, o número de moscas, mosquitos e outros insetos portadores de doenças. Os casos de mastite bacteriana, uma doença transmitida por moscas ou pela falta de higiene durante a ordenha, caíram para metade em propriedades leiteiras de pequena escala. Os agricultores também aprenderam medidas básicas de higiene para reduzir as doenças que afetam as suas vacas.

Além disso, as redes estão a ter um impacto positivo para as famílias: em Kisii, os primeiros resultados indicam que os agricultores têm relatado menos 40 por cento de casos de malária. Como os quenianos muitas vezes atribuem uma doença à malária, sem saber a causa real, é natural que haja um benefício direto para a saúde humana.

Uma agricultora da região de Kisii, Maria Munyega Nyandeo, explica: “eu costumava ordenhar 2 litros de leite por dia, mas desde que se instalaram as redes e as moscas desapareceram, agora obtenho cerca de 4 ou 5 litros de leite, por isso tenho lucro.”

Além disso, acrescenta, “não tivemos mais malária.”

“Costumava pensar que o leite era só para o consumo familiar. Nunca pensei que a venda de leite poderia ajudar-me a pagar a escola dos meus filhos”, disse outra agricultora, Maria Owendo. Ela também consegue pagar a eletricidade da casa, graças às vacas.

Do pastoreio livre ao “pastoreio zero”

Nas últimas décadas, com o declínio de terras disponíveis devido à expansão urbana ou da sua utilização para outros fins, os pequenos agricultores têm adotado cada vez mais o modelo de “pastoreio zero”, no qual se alimentam as vacas leiteiras em estábulos bem ventilados, em vez as deixar pastar em campo aberto. Em Kisii, à medida que os pequenos agricultores foram tendo terrenos cada vez mais pequenos, um após o outro passaram a usar este sistema. O desafio, no entanto, foi passar a gerir as crescentes populações de moscas e outros insetos atraídos pelos estábulos e as suas fossas de dejetos.

“Os kits de sanidade animal, específicos para cada sítio, contêm redes para proteger os estábulos e as fossas de dejetos e provaram não só serem eficazes a manter a área livre de moscas e de mosquitos, mas também a melhorar a sanidade dos animais em geral”, explicou Rajinder Saini, um entomologista do ICIPE, parceiro da FAO na execução do projeto em Kisii. O ICIPE, um instituto de investigação com sede em Nairobi, mudou de nome e agora é conhecido como Instituto Africano de Entomologia para a Alimentação e a Saúde.

“Agora as vacas estão contentes, não perdem energia a pisotear e a agitar a cauda para afastar insetos, comem melhor, ganham peso e produzem mais leite. Obviamente, os agricultores também estão contentes”, afirmou Saini.

O grande benefício para a saúde humana advém, naturalmente, da redução do número desses mesmos vetores que transmitem também doenças às pessoas, muitas vezes através do seu próprio gado.

Caem como moscas

“Nos meus primeiros anos em África, vi ao meu redor os animais a morrer em grande número, especialmente as raças exóticas”, contou Burkhard Bauer, um consultor da Universidade Livre de Berlim, que trabalha no projeto da FAO. A principal estratégia do projeto é a utilização de mosquiteiros tratados com inseticida para tornar as pequenas explorações mais saudáveis, mesmo em locais com recursos limitados.

Bauer veio pela primeira vez para o Quénia em 2001, onde liderou um projeto financiado pela UE de produção de leite em áreas atingidas pela mosca tsé-tsé. A mosca tsé-tsé transmite aos animais a tripanossomíase ou nagana, que é responsável pela morte de 3 milhões de vacas e por perdas económicas de mais de 4.500 milhões de dólares todos os anos na África subsaariana. Quando transmitida aos seres humanos é conhecida como “doença do sono”, e é fatal se não for tratada a tempo. Cerca de 30.000 pessoas por ano contraem a doença em África, e é um sério obstáculo ao desenvolvimento económico das áreas designadas por T&T (tsé-tsé e tripanossoma) do continente.

Em países como o Quénia, onde os pequenos agricultores proprietários apenas de algumas vacas, às vezes só uma, possuem cerca de 80 por cento dos animais leiteiros e produzem mais de três quartos do leite do país, a perda de um animal pode ser devastadora para a economia familiar.

“Estávamos a tratar animais que já estavam doentes, mas continuavam a morrer. Portanto, tínhamos de encontrar os verdadeiros culpados: os insetos que transmitem a doença”, explicou Bauer. A ideia de Bauer, com o apoio da Universidade e de parceiros como a FAO, foi testada no terreno e aperfeiçoada ao longo do tempo.

A solução era tão simples, que Bauer não acreditava que ninguém tivesse pensado nisso antes.

Ecologicamente sustentável

Os mosquiteiros impregnados com inseticida também têm demonstrado ser ecologicamente seguros. Além disso, utiliza-se uma quantidade mínima porque a mosca tsé-tsé voa perto do solo e geralmente uma rede de um metro à volta dos estábulos é suficiente para proteger os animais.

“O inseticida utilizado é feito com os mesmos produtos químicos usados ??nos colares anti pulgas dos animais de estimação”, afirmou Raffaele Mattioli, técnico superior dos Serviços de Sanidade Animal da FAO, em Roma.

Os bovinos são normalmente imersos em água tratada com inseticidas piretróides, uma vez que estes não afetam os mamíferos, ou então os agricultores aplicam-lhos nas patas. Mas, com as redes, só se utiliza a quantidade exata de produtos químicos para as impregnar, que vai sendo depois libertado ao longo do tempo, minimizando assim o risco de desenvolvimento de resistência dos insetos aos inseticidas. Os piretróides são agora os principais inseticidas para uso doméstico no mercado.

Os mosquiteiros impregnados também podem ajudar a eliminar as carraças, por exemplo alterando a quantidade de inseticida utilizado e garantindo que as redes estão em contacto com o chão. Assim, as doenças transmitidas pelas carraças, nomeadamente a febre da Costa Leste, muito difundida na África Oriental, poderiam ser reduzidas através do mesmo método, de acordo com Mattioli.

“Este projeto, embora concebido para melhorar a sanidade e a produção animal, é um exemplo concreto da abordagem de saúde compartilhada (“One Health”, em Inglês), onde as intervenções para melhorar a saúde animal ou humana convergem e formam parte de um sistema de saúde interligado, que inclui também as plantas e os ecossistemas em que todos vivem”, exlicou Mattioli.

Melhorar e ampliar

Os pequenos produtores de suínos do Gana também estão a usar redes de proteção. A picada de moscas nocivas foi quase reduzida a zero e a produção e a sanidade dos porcos melhorou. O trabalho no Gana é realizado em conjunto com o escritório de coordenação nacional da campanha Pan-Africana para a erradicação da mosca tsé-tsé e da tripanossomíase (PATTEC, na sigla em Inglês). Está a realizar-se no Burkina Faso um terceiro projeto-piloto, onde os sistemas pecuários são predominantemente pastoris.

Em recentes reuniões do projeto, funcionários do governo e do setor privado interessados em reproduzir o modelo têm recebido formação no uso de redes tratadas com inseticida. Os participantes vieram do Burundi, Eritreia, Etiópia, Quénia e Ruanda na África Oriental e do Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim, Gana, Mali, Níger, Nigéria, Serra Leoa e Togo na África Ocidental.

Os projetos-piloto contam com o financiamento de 1,6 milhões dólares do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

Fonte - FAO

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