Ermida profanada pela terceira vez em Santiago do CacémOnda de vandalismo contra monumentos religiosos desperta preocupação no Alentejo litoral
“Há ainda pouca sensibilidade, em Portugal, para os crimes contra o património, tanto por parte das populações, como das autoridades. Quando esses crimes afectam o património religioso, a situação chega a roçar a inimputabilidade, já que, por receio de censura pública, escondem-se os factos”, lamenta José António Falcão.

Por Jornal Rostos
As igrejas do litoral alentejano têm vindo a ser alvo de uma onda de vandalismo que registou o seu último acontecimento em Santiago do Cacém. Na noite de 3 para 4 deste mês, a ermida de São Pedro foi apedrejada e teve a porta arrombada, seguindo-se uma fúria destruidora. Além de arrancarem reposteiros e toalhas dos altares, os intrusos enrodilharam-nos e começaram a deitar-lhes fogo; arrancaram os fios da instalação eléctrica, deixando-os a crepitar; urinaram na pia de água benta, visando directamente a humilhação de um símbolo sagrado; espalharam folhas de orações pelo chão, de permeio com “beatas” e outras impurezas; improvisaram um local de culto alternativo na sacristia, erguendo um balde invertido com uma vela em cima de uma mesa de altar… Antes de tudo isso, partiram os projectores que iluminam o monumento, para poderem dar livre curso à sua sanha destruidora. Os pedregulhos retirados dos alicerces do monumento para serem usados no arrombamento deixaram a galilé desprotegida e em risco de colapso. Como disse uma vizinha do local, “nessa noite o Diabo andou à solta”.
Não se trata de um caso isolado. A ermida de São Pedro situa-se na encosta do castelo, cujos muros abrigam, desde os meados do século XIX, o cemitério de Santiago do Cacém. Classificada como monumento de interesse público desde 2011, a pequena igreja constitui um ex-líbris da cidade, aparecendo reproduzida em livros, folhetos e postais. É um imóvel quinhentista, característico da arquitectura rural, com nave abobadada, que segue uma tipologia manuelina, comum no Alentejo. O nártex, outrora coberto, constitui uma reminiscência da tradição construtiva de Quatrocentos. Dava abrigo, outrora, aos muitos peregrinos que, no seu périplo em direcção a Compostela, passavam por esta terra. Estamos num dos mais importantes segmentos do Caminho Português de Santiago. Mas os inquietantes grafitti com caveiras e inscrições ininteligíveis, nas ombreiras do portão de acesso ao adro da ermida, não deixam de prender a atenção dos transeuntes, logo à entrada de um centro histórico a braços com a escassez de moradores.
De dia, o local em que está implantada a pequena igreja, denominado Romeirinhas, em lembrança desses antigos romeiros, é muito aprazível. A coberto do negrume, porém, as coisas mudam de feição. De facto, a vizinhança do castelo e do cemitério acaba por tornar o sítio propício a práticas heterodoxas, que se repercutem negativamente na ermida de São Pedro. Esta já foi vítima, por várias vezes, de atentados. O mais grave deu-se há oito anos, quando um grupo conseguiu aceder ao seu interior e realizou aí uma espécie de missa negra, seguida de orgia, com pormenores que lembram as descrições dos ritos de magia sexual: o espaço da celebração ficou num estado lamentável, indignando os poucos moradores da zona. Nos anos de 2000 e 2001, quando os cultos milenaristas vieram à superfície, outra vaga de vandalismo levou a que, nesta e noutras igrejas da faixa costeira da Diocese de Beja, existissem crucifixos queimados e outras alfaias mutiladas.
Não se conhecem os motivos exactos que atraem aos templos do Alentejo litoral as práticas deste tipo, nem se sabe quem as promove. Comenta-se, em surdina, a descoberta de vestígios sangrentos de “trabalhos” – vestígios de actos de bruxaria –, com restos de aves mortas, garrafas de aguardante quebradas e fotografias queimadas em encruzilhadas dos pinhais, às portas de cemitérios ou nos adros das igrejas. O fenómeno cria um certo pânico, sobretudo nas franjas rurais, e não se torna fácil descortinar-lhe as origens. Mas aos velhos usos da feitiçaria parece unir-se agora outro tipo de acções, de laivos satanistas, que atentam directamente contra os locais de culto. Ainda recentemente, em Santiago do Cacém, alguém introduziu escritos e objectos (pão ázimo, etc.) no sacrário da capelinha do centro paroquial. Dir-se-ia existir um certo desejo de ferir a sensibilidade dos crentes. Isto pode revelar-se também grave para a conservação da arte sacra.
O Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja tem vindo a acompanhar com preocupação a situação. Segundo o director, José António Falcão, “é com dificuldade que as comunidades locais preservam as suas igrejas e o aparecimento de actos de vandalismo torna esse trabalho ainda mais problemático, semeando a desorientação e criando um sentimento de impunidade. Não podemos encolher os ombros e ficar à espera de novos golpes, há que reagir antes que as coisas adquiram maiores proporções.” E acrescenta: “Se o ambiente não desanuviar e prosseguirem os atropelos, iremos pedir às comunidades que reforcem a vigilância dos seus locais de culto. Já há pessoas a oferecerem-se para dormir nos monumentos, como sucedeu em ocasiões anteriores.” A Diocese de Beja, a segunda mais extensa do país, mas também a mais despovoada, criou um mecanismo de alerta para conjunturas de crise que afectem o património. Conta actualmente com mais de duas centenas de voluntários no terreno, disponíveis para intervirem quando necessário, em articulação com as forças vivas locais.
“Há ainda pouca sensibilidade, em Portugal, para os crimes contra o património, tanto por parte das populações, como das autoridades. Quando esses crimes afectam o património religioso, a situação chega a roçar a inimputabilidade, já que, por receio de censura pública, escondem-se os factos”, lamenta José António Falcão. E acrescenta: “No nosso território, temos vindo a insistir com as paróquias, há muito, para que façam de imediato a participação às autoridades competentes, como sucedeu em Santiago do Cacém. Pouco interessa que quem comete tais delitos seja filho de fulano e sicrano, ou pertença a este ou aquele grupo. A lei é a mesma para todos e não podemos pactuar com quem destrói monumentos. Se o Estado se desleixa em zelar pela segurança de imóveis de grande valor para a identidade regional, mesmo depois de os classificar, e lava as mãos perante os problemas decorrentes da sua conservação, há que contar com o empenho das autarquias e da sociedade civil para corrigir os problemas que daí resultam. Não vamos aceitar mansamente novos actos vandálicos nas nossas igrejas e estamos dispostos a ir até aonde for necessário.”
Não se trata de um caso isolado. A ermida de São Pedro situa-se na encosta do castelo, cujos muros abrigam, desde os meados do século XIX, o cemitério de Santiago do Cacém. Classificada como monumento de interesse público desde 2011, a pequena igreja constitui um ex-líbris da cidade, aparecendo reproduzida em livros, folhetos e postais. É um imóvel quinhentista, característico da arquitectura rural, com nave abobadada, que segue uma tipologia manuelina, comum no Alentejo. O nártex, outrora coberto, constitui uma reminiscência da tradição construtiva de Quatrocentos. Dava abrigo, outrora, aos muitos peregrinos que, no seu périplo em direcção a Compostela, passavam por esta terra. Estamos num dos mais importantes segmentos do Caminho Português de Santiago. Mas os inquietantes grafitti com caveiras e inscrições ininteligíveis, nas ombreiras do portão de acesso ao adro da ermida, não deixam de prender a atenção dos transeuntes, logo à entrada de um centro histórico a braços com a escassez de moradores.
De dia, o local em que está implantada a pequena igreja, denominado Romeirinhas, em lembrança desses antigos romeiros, é muito aprazível. A coberto do negrume, porém, as coisas mudam de feição. De facto, a vizinhança do castelo e do cemitério acaba por tornar o sítio propício a práticas heterodoxas, que se repercutem negativamente na ermida de São Pedro. Esta já foi vítima, por várias vezes, de atentados. O mais grave deu-se há oito anos, quando um grupo conseguiu aceder ao seu interior e realizou aí uma espécie de missa negra, seguida de orgia, com pormenores que lembram as descrições dos ritos de magia sexual: o espaço da celebração ficou num estado lamentável, indignando os poucos moradores da zona. Nos anos de 2000 e 2001, quando os cultos milenaristas vieram à superfície, outra vaga de vandalismo levou a que, nesta e noutras igrejas da faixa costeira da Diocese de Beja, existissem crucifixos queimados e outras alfaias mutiladas.
Não se conhecem os motivos exactos que atraem aos templos do Alentejo litoral as práticas deste tipo, nem se sabe quem as promove. Comenta-se, em surdina, a descoberta de vestígios sangrentos de “trabalhos” – vestígios de actos de bruxaria –, com restos de aves mortas, garrafas de aguardante quebradas e fotografias queimadas em encruzilhadas dos pinhais, às portas de cemitérios ou nos adros das igrejas. O fenómeno cria um certo pânico, sobretudo nas franjas rurais, e não se torna fácil descortinar-lhe as origens. Mas aos velhos usos da feitiçaria parece unir-se agora outro tipo de acções, de laivos satanistas, que atentam directamente contra os locais de culto. Ainda recentemente, em Santiago do Cacém, alguém introduziu escritos e objectos (pão ázimo, etc.) no sacrário da capelinha do centro paroquial. Dir-se-ia existir um certo desejo de ferir a sensibilidade dos crentes. Isto pode revelar-se também grave para a conservação da arte sacra.
O Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja tem vindo a acompanhar com preocupação a situação. Segundo o director, José António Falcão, “é com dificuldade que as comunidades locais preservam as suas igrejas e o aparecimento de actos de vandalismo torna esse trabalho ainda mais problemático, semeando a desorientação e criando um sentimento de impunidade. Não podemos encolher os ombros e ficar à espera de novos golpes, há que reagir antes que as coisas adquiram maiores proporções.” E acrescenta: “Se o ambiente não desanuviar e prosseguirem os atropelos, iremos pedir às comunidades que reforcem a vigilância dos seus locais de culto. Já há pessoas a oferecerem-se para dormir nos monumentos, como sucedeu em ocasiões anteriores.” A Diocese de Beja, a segunda mais extensa do país, mas também a mais despovoada, criou um mecanismo de alerta para conjunturas de crise que afectem o património. Conta actualmente com mais de duas centenas de voluntários no terreno, disponíveis para intervirem quando necessário, em articulação com as forças vivas locais.
“Há ainda pouca sensibilidade, em Portugal, para os crimes contra o património, tanto por parte das populações, como das autoridades. Quando esses crimes afectam o património religioso, a situação chega a roçar a inimputabilidade, já que, por receio de censura pública, escondem-se os factos”, lamenta José António Falcão. E acrescenta: “No nosso território, temos vindo a insistir com as paróquias, há muito, para que façam de imediato a participação às autoridades competentes, como sucedeu em Santiago do Cacém. Pouco interessa que quem comete tais delitos seja filho de fulano e sicrano, ou pertença a este ou aquele grupo. A lei é a mesma para todos e não podemos pactuar com quem destrói monumentos. Se o Estado se desleixa em zelar pela segurança de imóveis de grande valor para a identidade regional, mesmo depois de os classificar, e lava as mãos perante os problemas decorrentes da sua conservação, há que contar com o empenho das autarquias e da sociedade civil para corrigir os problemas que daí resultam. Não vamos aceitar mansamente novos actos vandálicos nas nossas igrejas e estamos dispostos a ir até aonde for necessário.”













