No BarreiroCOOPERATIVA CULTURAL POPULAR BARREIRENSE
Que foi de Consumo e é hoje de Cultura

Por Jornal Rostos
A sua história percorre o currículo de luta do povo barreirense há 93 anos.
Nascida em Maio de 1913, quase em simultâneo com a 1ª República, a Cooperativa de consumo atravessou todo o Estado Novo, ficando em “standby” até 1978 quando recuperou, e hoje tem vida diferente, emergindo cultural toda a sua actividade.
A Cooperativa Popular Barreirense, vocacionada para o consumo de bens alimentares, nasceu no seio dos operários do caminho-de-ferro, proporcionando aos cooperantes produtos de primeira necessidade, dos quais o pão pela sua falta o mais sentido, e de boa qualidade a reduzidos custos, combatendo a inflação dos preços praticados nas lojas, na candonga e no mercado negro.
O tempo que se vivia de enorme crise pesou nesta iniciativa. A carestia imolava todo o Povo do Barreiro que procurara, no colectivo, a sua defesa, criando na unidade de esforços e cooperação as suas mais fortes armas. Os interesses sociais foram uma base antifascista arrasadora.
A Monarquia deixara o país economicamente débil, e a Primeira República nada corrigira, tendo por isso sido criadas imensas colectividades, juntando forças para assim, obterem resultados favoráveis à forma de vida dos operários em duas frentes de luta, ideológica e económica, quando o 25 de Abril chegou.
Novo mundo surgiu em todo o país e o Barreiro não foi excepção. Muitos dos dirigentes das colectividades e cooperativas deixaram as suas actividades associativas e viraram toda a sua acção para as áreas sociais e políticas que Salazar abafara durante quatro décadas.
A política absorveu os quadros mais consequentes na luta por melhores dias para o povo barreirense, e a C. P. B. foi afectada por essa fortíssima razão, perdendo os melhores quadros dirigentes, bem como o principal objectivo dos seus cooperantes de combaterem a especulação dos preços, o que dali em diante já não fazia sentido.
Manteve a sua precária actividade até 1978 quando encerrou as portas. O edifício, propriedade da Cooperativa, foi alugado ao Tribunal do Trabalho e quando este abandonou a casa, reanimou com a mudança do ramo de referência de consumo para cultural, iniciando, como herdeira natural, em Janeiro de 2001 uma nova história sob a mesma bandeira e de nome somente diferenciado pelo novo objecto de referência, ficando a chamar-se Cooperativa Cultural Popular Barreirense. O seu novo projecto toma o rumo da cultura na forma cooperativista e os destinatários são os cidadãos locais, não deixando de colaborar com movimentos culturais que venham de fora do Barreiro.
Aos cooperadores participantes na vida da renovada cooperativa as portas estão abertas a todas as iniciativas na esfera da cultura.
«Cooperar é a forma mais eficaz de transmitir e receber e é este o lema da nossa Cooperativa». Disse-nos o seu actual presidente Nuno Soares. Acrescentando que: «neste lugar não se promovem elites, pois a cultura é também pluralista».
Transversal em toda a sociedade, a cultura promove o desenvolvimento de saberes e conhecimentos que fazem o progresso de um povo ou de uma comunidade. Transmitida pelas gerações através da língua, da escrita, dos objectos, dos rituais, instituições, colectividades e cooperativas, beneficiando das relações sociais entre as pessoas que permutam os conhecimentos adquiridos e transferidos entre si.
A cooperativa está em plena e viva actividade, permanecendo aberta à interacção e à entrada de novos cooperativistas para se ampliar nos acontecimentos culturais, muitos deles já apresentados, provenientes de artistas barreirenses, não regateando participantes externos, com exposições de pintura e de obras de arte.
Vários eventos ali tiveram lugar: seminários sobre os países lusófonos. De Moçambique a Timor, a Cooperativa fora o lugar privilegiado para melhor se conhecer alguns aspectos da vida cultural desses países de língua portuguesa.
Tem uma fácil articulação com as escolas, professores e alunos, na sua sede convivem e tratam de assuntos instrutivos.
Organiza passeios culturais, aberto a todos quantos queiram neles participar a lugares históricos que hoje fazem parte da cultura nacional.
Desenvolve actividades literárias, encontros de escritores, lá se fazem lançamento de livros bem como recitais de poesia. Colóquios sobre a desenvoltura do saber, do ambiente, da paz e da guerra. Exposições de fotografia e artesanato. Murais de Abril, retratados das paredes barreirense, foram expostos no excelente salão na sua sede para quem os quisera ver.
Tem a sua sede na Rua Miguel Bombarda que franqueia a todos os cidadãos que se interessem e desejem mostrar os seus bem culturais a todo o Barreiro. Para se tornar cooperador basta dirigir-se às suas instalações sociais e solicitar essa vontade.
O capital cultural tem uma força que pode ultrapassar muitas outras fontes da vida dos homens. Este conceito refere-se ao conjunto de recursos, competências e apetências em matéria do conhecimento dos cooperantes, pois a dimensão do homem não é medível com fita métrica, mas muito pela sua cultura a que, juntando ingredientes sociais de Justiça e solidariedade de cada amante do saber e em cooperação se torna numa muralha de enorme consistência.
Carlos Alberto ( Carló)













