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Movimentos

No Auditório Municipal Augusto Cabrita - Barreiro«Histórias da Caçadeira» de Jeff Nichols

No âmbito da programação do Cine Clube do Barreiro, no Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro, é, hoje, dia 12 de Novembro, pelas 21,30 horas, projectado o filme «Histórias da Caçadeira» de Jeff Nichols.

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No Auditório Municipal Augusto Cabrita - Barreiro «Histórias da Caçadeira» de Jeff Nichols

Por Jornal Rostos

INTENÇÕES DO REALIZADOR

Não existe vitória na vingança.

Esta é a ideia que escolhi explorar com Shotgun Stories (…). Tantas vezes na literatura, nos filmes, na política e na sociedade, a vingança, e, principalmente, a execução da vingança, é considerada um sucesso. Quer seja no preenchimento do seu voto em arruinar Danglar por parte de Edmund Dantes em O Conto de Monte Cristo ou na queda para a morte de Hans Gruhber em Die Hard, a euforia que sentimos enquanto espectadores a assistir ao vilão receber a sua destinada é inegável. Com Shotgun Stories eu queria trabalhar contra esta noção. Eu queria que a vingança fosse uma coisa estranha de precisar e uma causa não necessariamente defendida pelo espectador. A violência é uma tarefa pouco habitual para estas personagens, assim como o é para a maior parte das pessoas. A sua raiva e emoções são válidas, mas as suas reacções a essas emoções não são precisas. A minha esperança é que Shotgun Stories dê um retrato honesto de pessoas normais e trabalhadoras a responderem à dor e ao desgosto de coração que encontram, e que por vezes criam, nas suas próprias vidas.

Na minha opinião, as histórias deveriam ser originárias de um sítio específico. Penso que a história regional força o processo criativo para uma direcção muito honesta. Enquanto realizador gosto da noção de ser reconhecido pela representação correcta do dialecto, do guarda-roupa e em última instância, do sentido do lugar. Afecta a maneira como escrevo, como falo do material com os actores, como a direcção artística se monta e especialmente como filmamos.

Eu cresci no Arkansas numa família com dois irmãos mais velhos e passei uma quantidade de tempo apreciável à volta de sítios e de pessoas que Shotgun Stories tenta retratar. A partir dessas experiências eu sabia que havia certas coisas que queria incluir no meu primeiro filme: uma paisagem de campo aberto filmado com um formato anamórfico, personagens que mantivessem as frases curtas e as emoções resguardadas, uma história sobre as singulares relações entre irmãos, e uma cultura de peixes. Tudo isto eram coisas muito específicas que eu observava enquanto crescia, e era importante que estivessem representadas de forma correcta no filme.

Antes da produção eu tinha um argumento que achava bastante honesto.

O truque era fazer com que o filme também se parecesse com o argumento. Gary Hawkins, um professor que tive e amigo que me ajudou em Shotgun Stories, disse que o trabalho dos realizadores de documentários era estruturar os seus filmes o mais aproximadamente dos filmes narrativos possível, mas que era o trabalho dos realizadores narrativos aportarem tanta realidade para os seus filmes como a encontrada nos documentários. Parece simples, mas a produção de filme narrativo não é particularmente dada ao realismo (especialmente quando feita em película).
Quando estávamos a filmar Shotgun Stories na pequena cidade de England, Arkansas, as pessoas, apesar de imensamente colaborantes, na verdade não gastaram muita energia connosco. Filmámos num stand de hambúrgueres que nunca fechou o negócio. Filmámos também numa lavagem de carros no centro da cidade que ficou aberto durante todo o tempo em que filmámos. Camiões e carros encostavam continuamente para lavar a lama dos pneus. As pessoas não passavam muito tempo a olhar para a câmara porque tinham moedas nos jactos que precisavam de gastar. Não há dúvida de que esta actividade acrescenta tanta energia como valor de produção a estas cenas. Sentes que as circunstâncias com que as personagens do ecrã lidam estão a acontecer e no meio de um sítio muito real. Para as grandes produções este anonimato deve ser difícil de conseguir.

Na história, a coisa mais interessante para mim é que pode passar-se em qualquer lugar. São filmes que não se aproveitam dos detalhes do redor e que têm tendência a aborrecer-me. Os pontos da trama de Shotgun Stories poderiam acontecer em qualquer lado, mas se fosse feito noutro sítio resultaria daí um filme completamente diferente.
O Sudeste do Arkansas é um lugar de combustão lenta. As pessoas deslocam-se em passos seguros num fundo de quintas vastas. Isto para mim significava um formato de 2:35. Significava filmar em quadro em vez de usar imensa câmara à mão. Significa pausas grávidas nos diálogos e não deixar pôr muita maquilhagem nas minhas actrizes.
Significava que a câmara não se mexia, a não ser que fosse absolutamente necessário.

Isto não é um filme que pudesse ser feito noutro sítio qualquer (…). O Arkansas é o filme.

Jeff Nichols

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