Barreiro - Mário Durval recorda os mortos do 25 de Abril«Ao meu lado, um jovem, levou um tiro na nuca e caiu junto de mim»
. Podia ter sido eu a ficar ali morto
“Hoje, ao pensar nisso, o que sinto é que os PIDES passaram sem ser devidamente castigados. Não é um problema de vingança, é um problema de justiça” – sublinha Mário Durval, deputado Municipal do Bloco de Esquerda e Delegado de Saúde do Barreiro.
“Eu só vi morrer aquele jovem, ao meu lado, a um metro de distância” - recorda.

Por Jornal Rostos
Mário Durval, nasceu a 3 de Março de 1949, em Aviz. Frequentou o Ensino Primário em Benavila. Em Aviz completou o Ensino Liceal até ao 5º ano. Em Portalegre concluiu o 7º ano, seguindo para a Faculdade de Medicina, em Lisboa, onde completou a sua licenciatura em pleno PREC.
Viveu e vive o mundo da acção politica com intensidade, uma actividade que começou na sua vivência estudantil, ligado ao grupo M-L do jornal «A Verdade».
Quando da fundação da UDP, integrou o seu Secretariado Nacional. Actualmente é uma das personalidades mais marcantes do Bloco de Esquerda, no concelho do Barreiro, tendo assumido por diversas vezes a candidatura à presidência da Câmara Municipal do Barreiro e sendo um dos eleitos desta força politica na Assembleia Municipal do Barreiro.
Exerce, ao nível profissional as funções de Delegado de Saúde do Barreiro.
Viveu o dia 25 de Abril, como muitos portugueses, nas ruas de Lisboa, apoiando a revolução e a conquista da Liberdade.
PIDES estavam nas janelas com armas na mão
Quando se fala na Revolução de Abril, fala-se na festa, na alegria, nos cravos, e, de facto, esquecemos aqueles que tombaram vitimas das balas da PIDE, no final do dia 25 de Abril.
Nesse dia, Mário Durval, jovem estudante de medicina, no seu último ano de curso, era um dos manifestantes que, ali, na Rua António Maria Cardoso, protestavam contra a PIDE e exigiam a dissolução daquela politica política.
“Depois do Carmo, da rendição de Marcelo Caetano. Deslocamo-nos para a Rua António Maria Cardoso. Começaram a chegar centenas de pessoas, a gritar e manifestar-se contra a PIDE.
Os PIDES estavam nas janelas, com armas na mão. Nós estávamos a uma distância de cerca de cem metros, já tínhamos ultrapassado o Teatro S. Luis.
Sei que estávamos, nesse meio caminho entre o S. Luis e a sede da PIDE. Nós íamos caminhando em direcção à sede da PIDE, devagar, em protesto. Nós sabíamos que eles estavam armados.” – recorda Mário Durval numa conversa com o jornal «Rostos».
Começaram a disparar para cima da multidão
“Fomos aproximando de forma muito lenta, com gritos – “Morte à PIDE” – a certa altura, de repente, três PIDES, um no meio da rua, outro junto à porta, outro no outro passeio, armados, começaram a disparar, para cima da multidão.
Começou tudo a fugir. Eu ia a correr, estava na fila da frente, ao meu lado, um jovem, levou um tiro na nuca e caiu junto de mim.
Eu só vi morrer aquele jovem, ao meu lado, a um metro de distância.
Sei que morreram outros, ouvi falar que haviam mais mortos” – sublinha Mário Durval.
Um disparou para cima dos manifestantes
“Eles dispararam para o ar a maior parte dos tiros. Houve, um deles, mais fundamentalista, que disparou para cima dos manifestantes.
Não acredito que estando ali centenas de pessoas, tudo jovens, se eles tivessem disparado todos a matar, tinham morto mais pessoas” – recorda.
Uma grande raiva
“Na altura o meu sentimento foi de uma grande raiva, ver morrer ao meu lado uma pessoa e saber que podia ter sido eu, ou um dos meus amigos a ficarmos ali mortos.
Não foi agradável viver. Escondi-me mais acima, junto ao S. Luis. Eles continuavam a disparar. Durante algum tempo continuaram a disparar” – refere sentindo-se emoção nas suas palavras, ao reviver estes momentos de Abril.
Fugiu cada um para o seu lado
Mário Durval, recorda – “Ao ouvirmos os tiros. Fugiu cada um para o seu lado. Andámos por ali, fomos chamar os militares.
Passadas umas horas é que chegaram as Forças Armadas para controlar a situação, porque, de facto, aquilo podia dar mais para o torto”.
PIDES passaram sem ser devidamente castigados
“Hoje, ao pensar nisso, o que sinto é que os PIDES passaram sem ser devidamente castigados. Não é um problema de vingança, é um problema de justiça.
Os que mataram nunca foram julgados, nem identificados. A história passou por cima deste acontecimento e ficou completamente limpo.
Era um acontecimento que merecia ter tido uma perícia e investigação.” – sublinha.
Justiça nem sempre está presente
“O problema é que a nossa justiça, ainda hoje, continua um pouco assim, nem sempre está presente, estamos presos a burocracias, aos papeis e pouco à justiça efectiva. Existe Justiça, mas o que conta mais são as formalidades” – salienta Mário Durval.
Recorde-se que na tarde do dia 25 de Abril, foram mortos pelos tiros disparados pela PIDE, policia politica, os seguintes portugueses:
. Fernando C. Gesteira
. José J. Barneto
. Fernando Barreiro dos Reis
. José Guilherme R. Arruda













