Ana Porfirio, presidente da União de Freguesias do Barreiro e Lavradio«Temos vontade de ir mais longe na área cultural »
. Investimento de 43 mil euros na Escola nº 1 do Lavradio
. Aparece-nos muita pobreza envergonhada
Temos que encontrar respostas para os jovens, temos no Barreiro eventos dos jovens muito importantes – o OUT.FEST, Barreiro Rocks, o surf no Tejo - e temos cada vez mais adeptos de desportos radicais.
Era importante que existisse um espaço que pudesse colocar o Barreiro num circuito nacional de desporto radical.” – referiu Ana Porfirio, presidente da União de Freguesias do Barreiro e Lavradio, em entrevista ao jornal «Rostos».

Por Jornal Rostos
Ana Porfirio, presidente da União de Freguesias do Barreiro e Lavradio, num balanço de um primeiro ano de mandato sublinha que uma “questão muito dolorosa” foi a imposição da união de freguesias.
Quatro mini-freguesias numa só
“Foi imposta, não foi de livre vontade para as populações, nem para as instituições e, neste caso, haviam duas dinâmicas diferentes, são duas freguesias muito antigas, de certa forma com os seus bairrismos e num território que é descontinuado - temos o centro do Barreiro, temos o núcleo do Bairro das Palmeiras, todo o território da Baía do Tejo pelo meio, depois o Lavradio e depois os Fidalguinhos. Costumo quase dizer que são quatro mini-freguesias, dentro de uma só.” – refere a autarca.
Continuamos a lutar pela reposição das freguesias
A presidente da União de freguesias salienta que a legislação que forçou a união de freguesias– “tinha uma série de buracos” que “só na prática do dia-a-dia viemos a descobrir”.
“No dia que tomámos posse as entidades formais – Junta de Freguesia do Barreiro e Junta de Freguesia do Lavradio – cessaram, e a partir do dia 24 de Outubro, nada do que tínhamos servia. Nem programas informáticos, nem carimbos, nem selos brancos, nem contas bancárias, nem qualquer espécie de documento era válido. Tivemos que refazer tudo, num processo que não foi fácil, nem para o Executivo nem para os funcionários.
Andámos os primeiros seis meses, a par do processo das novas competências, a tentar equilibrar esta questão, e não foi fácil, para além de ser uma questão onerosa em termos financeiros. Só para dar o exemplo do novo selo branco, que tem o símbolo da República e a referência a União de Freguesias – porque nós não alterámos símbolos nenhuns, nem fazemos intenção de tal, porque continuamos a lutar pela reposição das freguesias – esse selo branco custou mais de 1.000 euros e só pode ser feito na Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
E, diga-se, o Estado não financiou as freguesias para este tipo de coisas, antes pelo contrário, a União de Freguesias tem menos dinheiro que as anteriores freguesias do Barreiro e Lavradio somadas, em termos de verbas recebidas do Orçamento de Estado”.
Somos cinco eleitos, antes eram dez
“Não foi fácil, mas, por outro lado, em certos aspectos foi gratificante. Tem-se criado uma boa dinâmica com a comunidade escolar, com o Movimento Associativo, que também sofre deste mal da falta de verbas, mas com quem temos conseguido fazer parcerias e promover acções conjuntas, com as IPSS’s.
Algumas coisas já se conseguiram agilizar de forma que, normalmente, já começam a decorrer sem grandes obstáculos e sem grandes problemas.
Somos cinco eleitos, antes eram dez. Eram dois eleitos a tempo inteiro, agora existe só um, na prática não é assim porque um membro do Executivo – o Tesoureiro – está reformado. Andamos num ping-pong constante Barreiro – Lavradio.
Na verdade, a Lei só contempla um eleito a tempo inteiro.” – refere Ana Porfirio.
Estamos a criar dinâmicas culturais diferentes
“Com grande esforço estamos a cumprir, no global, as actividades que apontámos realizar.
Em primeiro lugar, não deixar de prestar todos os serviços que anteriormente eram prestados à população.
Assumimos o novo protocolo de descentralização e um acordo com a Câmara Municipal e estamos a cumprir essas novas competências.
Estamos a criar dinâmicas culturais um pouco diferentes das que haviam, mas a valorizar muito o que cá se faz e faz-se cá muita coisa e muito boa.
Não deixámos de fazer coisas tradicionais como O Carnaval ou as Festas, dando apoio às mesmas seja no Lavradio, seja no Barreiro. Talvez com menos verbas, mas isso é fruto dos tempos.
Conseguimos com as escolas e com as Associações de Pais funcionar muito em conjunto com as Direcções dos Agrupamentos, com os Coordenadores das Escolas, de forma a estabeceler prioridades e fazendo as coisas que são necessárias” - salienta.
No Jardim da Estrela recuperámos o passarinheiro
Que obras destaca no trabalho realizado?
“Nas obras realizadas, não sendo um grande investimento, nem uma grande obra, dou relevo a certas acções que se fizeram, que se conjugaram no Dia B, que contribuíram para requalificar espaços, que estavam degradados e quase esquecidos.
Um deles, é o vulgarmente conhecido por Jardim da Estrela, onde recuperámos o passarinheiro, colocámos os passarinhos, pintámos e demos um ar novo ao jardim, e, hoje, vemos com muito orgulho as pessoas fruírem daquele espaço.
Outra acção, foi o túnel que liga o Largo da Esperança – conhecido por Páteo dos Bichos – onde foi feita uma intervenção conjunta coma NÓS, no Dia B, um sitio do Barreiro Velho ( que é alvo de muita conversa, e é uma tristeza para todos vermos o estado de degradação), mas com esta intervenção demos uma nova luz ao espaço, as pessoas gostam e, de facto, as coisas feitas no Dia B, feitas por voluntários, têm a particularidade de, raramente, serem vandalizadas e isso é muito importante.” – sublinha.
Recuperação do Parque Maria Machado
“Senti um gozo pessoal, com a recuperação do Parque Maria Machado, no Lavradio. Um espaço que estava escondido e que a população, da parte de trás da Igreja do Lavradio, queixa-se que é esquecida.
Naquele parque foi dado colorido e limpeza, que tornou o Parque mais agradável.
Também, junto ao Mercado do Lavradio, feita de forma simples, com intervenção das crianças, do Espaço Educativo Voz do Operário. Uma intervenção que, pela sua simplicidade, ficou muito bem, deu cor a um muro cinzento e feio” - salienta.
Um investimento de mais de 43 mil euros
“Estamos a fazer um grande investimento na Escola nº 1 do Lavradio, que assumimos como prioridade de investimento.
Uma escola onde há 40% de crianças carenciadas, no escalão A. É a escola do concelho com mais crianças carenciadas.
É uma escola do Plano Centenário, que depois, foi tendo acrescentos, quase como uma manta de retalhos, ao longo dos anos.
Um dos problemas, em vários, que tinha, agora em fase de resolução, eram as casas de banho do bloco central, do século passado, completamente desadequadas.
Neste momento estão sendo feitas, vão ficar modernas, com cabines, com um corredor permitindo acesso, sem ter que ir à chuva, com casa de banho para deficientes e com uma lavandaria.
Tudo feito de raiz. Um investimento de mais de 43 mil euros, que a Junta é um investimento pesado.
Há muito para fazer naquela escola e nas outras, mas, para já conseguimos este e avançámos com as obras agora, apesar da obra estar a decorrer no inicio do ano lectivo. Não quisemos adiar para o próximo ano” – sublinha com um brilho nos olhos a autarca.
Requalificação que vai servir todos
Como analisa as obras do REPARA na freguesia?
“As obras do Programa REPARA, são importantes, para que o Barreiro reconquiste a sua frente de rio, mas as obras têm-se prolongado para além daquilo que era desejável para todos nós, fruto de vários problemas, coisas que se encontram que não estão de acordo com o que está cadastrado, quer de tubagens de gás ou de electricidade.
Alguns atrasos por parte do empreiteiro, ou por falta de materiais, adequados à obra, mas, apesar de todos os contratempos, é uma obra que valoriza, muito especialmente o Largo da Igreja de Nª Srª do Rosário.
A zona dos passadiços que tornou a zona mais agradável e que é uma requalificação que vai servir a todos, aproximando o Barreiro da sua frente de rio.
Este ano, por exemplo assistimos a uma enchente das Praias de Alburrica, como se fosse uma estância de Veraneio. A gente sabe que as pessoas não têm dinheiro para ir para outros lados.
Mas sentiu-se este ano uma dinâmica muito interessante e era bom alargarmos isto a outras frentes ribeirinhas, nomeadamente ao Lavradio.”
Esquadra da Policia no Barreiro Velho era importante
O Barreiro Velho é uma preocupação?
“Sim, o Barreiro Velho é uma preocupação, mas o Barreiro Velho é uma situação que, em certos aspectos, pode estar dependente da autarquia, que já aprovou uma série de medidas de isenção de taxas, relativas ao IMI, é uma situação que carece da existência de um programam estrutural, do Poder Central, que apoie as recuperações dos Centros Históricos.
Neste momento, o objectivo é alargar a zona de reabilitação urbana, não só a zona do Barreiro Velho, mas também a zona do Lavradio, de modo a tentar no próximo Quadro Comunitário de Apoio conseguir apoios.
A maior parte das casas são de privados. Com o congelamento das rendas, estas estão baixíssimas.
Naturalmente os edifícios foram-se degradando, os senhorios não têm condições, nem os inquilinos, e chegámos ao ponto em que estamos.
Por outro lado, temos assistido no Barreiro Velho, à construção de projectos de muita qualidade, mantendo fachadas existentes, caso do Vinicola ou onde era a Chapelaria.
Seria bom que o Governo, cumprisse o protocolo que estabeleceu com a Câmara Municipal do Barreiro, para instalar no antigo Café Barreiro a Esquadra da Policia de Segurança Pública, era um equipamento âncora para aquela zona. Temos no Barreiro uma esquadra regional, no território da Baía do Tejo, mas não temos uma esquadra no Barreiro.”
Problema social é cada vez mais forte
A freguesia é afectada por problemas sociais?
“O problema social afecta a vida da freguesia. é forte, é cada vez mais forte. Um problema grave é a nossa capacidade de dar apoio de transporte
As instituições que estão a dar apoio alimentar, que já são várias, tanto no Lavradio, como no Barreiro, precisam do nosso apoio para transporte.
Se um dia damos apoio a uma instituição, noutro dia damos a outra, e só temos uma viatura de caixa aberta, criando dificuldades para fazermos o nosso próprio trabalho na rua.
Aparece-nos muita pobreza envergonhada, casos, por exemplo, na Urbanização dos Fidalguinhos, onde pessoas, com formação superior, que tinham vida estruturada e de repente, o casal fica sem trabalho, com salários em atraso e sem direito a subsidio de desemprego e com encargos de casa e carros.
O que nos apercebemos é que todos os dias há novos casos, todos os dias há novas situações.
Neste inicio de ano lectivo muitas famílias vivem o drama da compra do material escolar. Um problema recorrente e o primeiro contacto que fazem é dirigirem-se à Junta de Freguesia”.
Temos vontade de ir mais longe na área cultural.
Quais os planos de trabalho para os próximos tempos?
“Temos várias propostas, um programa de animação em diversos locais da freguesia, dando continuidade ao que já iniciamos. Queremos promover aulas abertas de várias modalidades, em contacto com o Movimento Associativo e Ginásios Comerciais na freguesia.
Vamos continuar com a animações culturais no mercados, com exposições.
Temos previsto a realização de um dia de animação entre a União de Freguesias do Barreiro e Lavradio e a União de Freguesias da Baixa da Banheira e Vale da Amoreira, utilizando a Estrada da Amizade, divulgando o que se faz de cada lado, num dia de distracção e convívio.
Temos vontade de ir mais longe na área cultural.
Queremos divulgar o muito trabalho que se faz nas escolas, que fazem muito e fazem bom e muito do que o nosso movimento associativo. Na freguesia temos uma riqueza cultural muito grande, na música e teatro.”
Colocar o Barreiro num circuito nacional de desporto radical
“Ao nível do Património, temos uma património muito rico, de recordações e vivências que pode ser registado para memória futura.
Temos um património material construído importante.
Há alguns edifícios no Lavradio que não estão classificados, mas que já solicitámos ao sector do Património da Câmara para nos apoiar a classificar, de azulejos.
Temos as pautas da Banda da SFAL, que queremos preservar, com um protocolo tri-partido para a sua preservação.
Tenho uma ideia, pessoal, de reconstruir o Coreto do Lavradio. Isso, vamos ver se é possível.
Temos que valorizar a vertente histórica do Barreiro. Há muito a tendência para falar só do Barreiro fabril e há muito Barreiro, antes do Barreiro fabril.
Temos que encontrar respostas para os jovens, temos no Barreiro eventos dos jovens muito importantes – o OUT.FEST, Barreiro Rocks, o surf no Tejo - e temos cada vez mais adeptos de desportos radicais.
Era importante que existisse um espaço que pudesse colocar o Barreiro num circuito nacional de desporto radical.” – acrescentou Ana Porfirio
Trabalhadores da União de Freguesias trabalham connosco em espirito de equipa
Valeu a pena este primeiro tempo de luta?
“Às vezes, há horas do dia que pensamos que não. Tenho dias que penso que não vale a pena.
Mas, depois, olho à minha volta e sinto que ainda há quem acredite e sinto que vale a pena, para isso o espirito de equipa tem sido muito importante.
Falando, francamente, tinha algum receio que a população do Lavradio não me recebesse, assim, tão bem como me tem recebido. Sou muito acarinhada no Lavradio e muito bem tratada, as pessoas têm muito àvontade para falar comigo.
E, vale a pena quando sentimos que conseguimos transformar pequenas coisas, quando vemos as crianças a ver os passarinhos com os pais e vemos os jovens a tomar conta, isto vale a pena.
Quando mudamos uma realidade de uma escola, que se arrastava há anos, vale a pena.
Estas coisas valem a pena e são estas coisas que fazem que todas as outras coisas não valham a pena – ficar saturados ou deprimidos, porque sentimos estas pequenas conquistas.
Realço o facto dos trabalhadores da União de Freguesias também trabalham, connosco, num grande espirito de equipa. Isso é muito bom. Eles são uma peça chave” – sublinha a autarca.
Autarca lamenta dificuldades de acessos as fundos europeus
Ana Porfirio a fechar a nossa entrevista, lamentou o facto de o Barreiro, por estar na zona da Área Metropolitana de Lisboa não ter acesso a fundos comunitários que podia ter e diva ter – “è uma assimetria muito grande”, disse, quando “se coloca a Quinta da Marinha na mesma dimensão que o Bairro das Palmeiras”.













