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Perspectivas

David Sobral investigador do Barreiro«Estamos ainda longe de ser uma sociedade simultaneamente criativa, crítica e aberta»

. Na Tapada da Ajuda há um potencial absolutamente ímpar a nível mundial

. A Ciência deve ser sempre, por definição, global e multi-cultural

“Há ainda uma distância imensa entre a investigação e a população, e é preciso lutar para estreitar e diminuir cada vez mais essa barreira. Um dos grandes desafios é mostrar que a Ciência, e em particular a Astronomia e Astrofísica, não são assim tão complicadas (pelo contrário), e que podem ser feitas por qualquer pessoa”, sublinhou David Sobra, numa entrevista ao jornal «Rostos».

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David Sobral investigador do Barreiro «Estamos ainda longe de ser uma sociedade simultaneamente criativa, crítica e aberta»

Por Jornal Rostos

David Sobral, nasceu no Barreiro em 1986. Licenciado em 2007 pela Universidade de Lisboa (Física, Ramo de Astronomia e Astrofísica), rumou nesse mesmo ano para o Real Observatório Astronómico de Edimburgo, para começar o doutoramento na área de Astronomia/Astrofísica Extragaláctica, depois de ter feito investigação no Observatório Astronómico de Lisboa, desde 2005.
O seu trabalho de investigação foi pela primeira vez premiado em Abril de 2007, pela Universidade do Algarve. Ao longo dos anos venceu vários concursos científicos e literários nacionais e internacionais.
David Sobral em entrevista ao jornal «Rostos» fala-nos dos seus tempos de estudante no secundário e sobre diversos temas de actualidade da sua investigação.

Professores foram importantes porque não se dedicaram a fazer “lavagem cerebral”

Em que medida o ambiente em torno do estudo de astronomia na Escola Secundária de Santo André abriu o caminho para o seu percurso de investigador? - perguntámos
“A Escola Secundária de Santo André, a Escola Secundária Alfredo da Silva, e antes a EB 2+3 Quinta da Lomba (na altura), e sobretudo as suas professoras e professores, foram fundamentais para desenvolver imensos “skills” e para aprender imenso. Foram também muito importantes porque não se dedicaram a fazer “lavagem cerebral” nem a quererem que todos aprendessem a mesma coisa, da mesma maneira - isso é fundamental. Surpreendentemente, isso já não foi assim na Faculdade, em que encontrei algumas professoras/professores se dedicavam a tentar transformar alunos em autênticas máquinas de debitar o que tinham nos apontamentos: algo absolutamente “criminoso”, porque verdadeiramente destrói a nossa capacidade de compreensão.
Claro que nada seria possível (ou pelo menos ficaria muito difícil), se não tivesse sentido sempre um apoio incondicional da parte dos meus pais.
No entanto, infelizmente a exposição à Astronomia/Astrofísica foi praticamente nula durante a escola, e só aconteceu graças a um interesse pessoal, ao Observatório Astronómico de Lisboa (e ao concurso Astro-Cosmos), FCUL e, por mais estranho que pareça, ao livro “Mais rápido que a Luz”, de João Magueijo”.

Em Ciência é possível que tudo mude muito rapidamente

Como recorda hoje os temas que abordou numa palestra realizada no Barreiro sobre o tema “Da idade das Trevas aos dias de hoje" ?
“Em Ciência é possível que tudo mude muito rapidamente, mas, para já, a vasta maioria dos conteúdos abordados na palestra mantêm-se muito actuais, para além de hoje conhecermos galáxias ainda mais distantes, e termos avançado bastante na nossa compreensão”.

Vivemos demasiado tempo sob o domínio de uma lógica de ditadura

Considera que as descobertas nos tempos actuais ao nível da astrofísica contribuem para dar ao homem uma nova forma de sentir o seu lugar no mundo?
“Não tenho dúvidas de que deveriam ter um impacto muito grande na forma como vemos e encaramos o Universo em que vivemos. Infelizmente, nem sempre é assim na realidade, pelas mais diversas razões. A principal é que estamos ainda longe de ser uma sociedade simultaneamente criativa, crítica e aberta. Acho que vivemos demasiado tempo sob o domínio de uma lógica de ditadura em que as regras eram claras, rígidas, e imutáveis, e simplesmente não estamos preparados enquanto sociedade para mudanças que podem acontecer a todo o momento. Por outro lado, há ainda uma distância imensa entre a investigação e a população, e é preciso lutar para estreitar e diminuir cada vez mais essa barreira. Um dos grandes desafios é mostrar que a Ciência, e em particular a Astronomia e Astrofísica, não são assim tão complicadas (pelo contrário), e que podem ser feitas por qualquer pessoa”.

A Ciência deve ser sempre, por definição, global e multi-cultural

Como se sente um português no meio de uma equipa que está a desbravar novos caminhos no entendimento da formação das galáxias?
“Felizmente, em Ciência, e talvez ainda mais em Física/Astrofísica, a nacionalidade é irrelevante. Para mim, quanto mais internacional for uma equipa, mais rica ela é e mais potencial terá. É muito mau quando uma equipa tem apenas uma nacionalidade. Sentimo-nos todos com igual potencial e contribuímos todos para objectivos comuns. No meu caso, estou neste momento a construir uma equipa de investigação em Lisboa, mas que conta, para além de dois alunos de doutoramento portugueses, com alunos de doutoramento holandeses, americanos e iranianos, e que deverá passar a contar com outros investigadores espanhóis, para além de ter colaboradores ingleses, dinamarqueses, americanos, japoneses, romenos, etc. A Ciência deve ser sempre, por definição, global e multi-cultural”.

Poderíamos mesmo ter as melhores condições do Mundo

Que pensa das condições dos investigadores em Portugal?
“Obviamente só posso falar do caso concreto da Astronomia e Astrofísica. E é bastante simples. Por exemplo, no meu local de trabalho, no Observatório Astronómico de Lisboa e edifícios associados, na Tapada da Ajuda, há um potencial absolutamente ímpar a nível mundial (os maiores e melhores Departamentos do Mundo pagariam milhões e milhões para terem o que temos!). Temos o espaço interior, exterior, e até uma verdadeira “igreja”/“templo” da Astronomia do século XIX. Existem portanto condições para não só termos um dos melhores e maiores centros de Astrofísica e Ciências do Espaço, como condições e espaço para laboratórios e desenvolvimento tecnológica na área espacial, para inúmeros cursos e acções de formação, e ainda algo único: um espaço de divulgação e para eventos com tudo original do século XIX. E, no entanto, a realidade é que parece que nos deram nozes sem termos dentes, e, neste momento, por falta de verbas para investir (mas também por falta de direcionamento de verbas), há uma degradação imensa nos edifícios históricos. Ou seja, poderíamos mesmo ter as melhores condições do Mundo, mas não conseguimos reunir o pouco que nos falta: um investimento para potenciar tudo aquilo que já existe. É uma das coisas em que estamos mesmo muito, muito atrasados: potenciarmos e atrairmos investimento privado. Noutros países é mais do que óbvio que é ideal investir em Astrofísica: imenso potencial, e sobretudo pessoas brilhantes que, depois de doutoramentos, são dos melhores nas áreas financeiras, banca, seguros, gestão, etc.
Por outro lado, mesmo comparado com os melhores países do Mundo em Astronomia e Astrofísica, a quantidade de pequenos e médios financiamentos para investigação em si, potencialmente acessíveis a nós por parte de e.g. a FCT, está a um nível bastante razoável. E temos acesso aos melhores telescópios do mundo.
Por isso, a nível global temos condições tão boas ou melhores do que a maioria dos países. Temos até potencial para termos das melhores condições do Mundo inteiro: só depende de nós a concretização das mesmas”.

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