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Perspectivas

Barreiro - Carlos Alberto Correia lançou o romance «Concerto para Sanca João»Escrever este livro «foi um misto de exaltação e sofrimento»

"Este romance acaba por ser a voz de muita gente que fez a guerra colonial, que viveu essa época e está calado, porque não o quer dizer, ou não o consegue fazer. De certa forma, o que tento demonstrar é o que foi essa época, em nome de outros que estão calados”, refere Carlos Alberto Correia.

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Barreiro - Carlos Alberto Correia lançou o romance «Concerto para Sanca João» Escrever este livro «foi um misto de exaltação e sofrimento»

Por Jornal Rostos

Carlos Alberto Correia, lançou o seu primeiro romance «Concerto para Sanca João».
Nasceu em Évora no ano de 1944. Vive no Barreiro há décadas e aqui, sempre, manteve uma intensa intervenção cívica.
Numa conversa com o jornal «Rostos» referiu que durante anos “escrevi essencialmente poesia e mesmo a peça de teatro que escrevi, o Medo e a Ira, estreada no AMAC pelo Projéctor, é essencialmente poesia”.
Salienta que “a poesia não conseguia esgotar” tudo o que desejava escrever, nomeadamente “o que escrevi no romance” sobre os anos 50, 60 e 70”, atravessando no texto “a época e as classes sociais”.

Eu não sou o Urbano

Carlos Alberto Correia refere que com o seu romance pretende – “trazer a ideia do que foi a vida daquela geração pós-guerra e que veio a fazer o 25 de Abril”.
Refere que uma personagem que caracteriza “essas pessoas é o Urbano, que nasce num Páteo pobre e tem uma posterior ascensão social”.
“Eu não sou o Urbano, mas há muito de mim no Urbano. Mas, posso afirmar que o Urbano não é o Carlos Alberto Correia, embora seja muito do que ele viveu e quis dar a conhecer”, sublinha o escritor.
“Todas as personagens são compósitas, consequências de várias pessoas e diversas situações”, acrescenta.

O percurso de uma geração

Recorda que neste seu romance procura fazer “o percurso de uma geração”.
“Quando vim da Guerra Colonial coloquei uma interrogação: Como fui parar àquilo? Foram interrogações que visavam perceber as determinações, e pensar se a vida teria sido diferente se tivesse feito outras coisas”, refere.
“A minha pretensão neste romance era exprimir essas vivências, mas sei que o romance não as esgota, apenas faz uma espécie de mapa social delas”, afirma Carlos Alberto Correia.

Há uma catarse e uma homenagem

Este romance é um pouco uma catarse dessas vivências?
“Há uma catarse e uma homenagem. Uma catarse que é como uma limpeza de tudo o que a minha geração passou e está calado , porque sobre a Guerra Colonial pouca gente fala, mas também é uma homenagem ao Sanca João, que é a única personagem real do romance. O que lhe aconteceu foi real, é conto no romance”, sublinha.
“Sanca João marcou – mesmo subliminarmente - tudo o que vim a fazer depois, levou-me a repensar tudo aquilo em que acreditava”, salienta Carlos Alberto Correria, com um brilho nos olhos.

O Urbano é a revolução

O sentimento que tenho é que este romance é psicológico, desenvolve-se por dentro de todas as memórias que estão na cabeça do escritor. É isso?
“O Urbano que escreve o livro está a escrever uma carta a Luana. E nessa carta tudo volta para trás, tudo é repensado. Narra a guerra da qual não gostava e a revolução a que aderiu inteiramente. Ele escreve sobre tudo isso, tudo o que está na memória. E fá-lo para se despedir do seu amor falhado.
O livro é uma grande carta para se explicar a Luana.
O Urbano é a revolução – o acto. A Luana é a ideia de revolução – a alma.
No romance, não se sabe onde estão os vivos ou os mortos. Este é um livro que tenta explicar um dado momento da sociedade portuguesa.”.

Revivi situações complicadas

Carlos Alberto Correia pensou escrever este romance quando regressou da Guerra Colonial, Ficou adiado. Após a reforma profissional, durante os últimos cinco anos, dedicou-se a escreve-lo.
“Escrever este romance foi uma contradição. Uns dias deu gozo. Outros dias deu angústia. Foi um misto de exaltação e sofrimento. Revivi situações complicadas.
Este, afinal, é o risco de se escrever na primeira pessoa. Ao escrevermos na primeira pessoa implicamo-nos muito mais”, refere.
“Ao escrever sobre o Urbano acertei contas que estavam em aberto”, salienta.

Em nome de outros que estão calados

“O livro pode ser interessante para quem quer perceber os tempos que vivemos e onde estamos. Nele misturam-se épocas e sentimentos.
Este romance acaba por ser a voz de muita gente que fez a guerra colonial, que viveu essa época e está calado, porque não o quer dizer, ou não o consegue fazer. De certa forma, o que tento demonstrar é o que foi essa época, em nome de outros que estão calados”, refere Carlos Alberto Correia.
“Mas, digo, é importante para quem ler o romance, não confundir o Carlos Alberto Correia com o Urbano”, refere, deixando este comentário como nota final.

S.P.

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