Carlos Humberto, Presidente da Câmara Municipal do BarreiroBarreiro tem 5000 fogos desocupados e 2000 fogos autorizados a construir
. A chamada “cidade aeroportuária” deve ter em conta os antigos territórios industriais no Barreiro e Seixal.
Carlos Humberto, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro em conversa com o jornal «Rostos», faz uma abordagem do trabalho realizado, analisa projectos estruturantes que vão ser decisivos para o futuro do concelho do Barreiro, nomeadamente o Terminal de Contentores, o novo aeroporto no Montijo, o Arco Ribeirinho Sul ou a Terceira Travessia do Tejo.

Por Jornal Rostos
Uma conversa aberta, sem agenda, que decorreu a sabor da pena, proporcionando uma abordagem de projectos e problemas da vida do concelho.
PRIMEIRO MANDATO FOI GALVANIZADOR
Após 10 anos no cargo de presidente da Câmara Municipal do Barreiro, marcado por um período de grande crise, como se sente?
“Posso dizer que tenho um sentimento muito contraditório, por um lado a consciência do muito que falta fazer, os problemas estruturais do concelho que, no essencial, mantêm-se, ainda que tenham existido transformações nestes dez anos.
Depois, um sentimento que, dei de mim, muito para a minha terra neste dez anos.
De facto, ao longo da minha vida nunca me desliguei do Barreiro, mantive sempre uma profunda ligação à terra onde cresci e sempre vivi, mas, na realidade, estes últimos dez anos, foram de uma dedicação quase exclusiva ao Barreiro.
Foram anos com períodos e momentos diferentes.
O primeiro mandato foi galvanizador, com uma ideia e aposta que era possível invertermos o ciclo difícil que o Barreiro atravessava.
No segundo mandato tudo isto foi posto em causa e foi marcado por grandes angústias. Foram momentos difíceis que a autarquia passou, quer do ponto de vista financeiro, quer do ponto de vista de recursos humanos, quer do ponto de vista da capacidade de resposta, até pelas medidas que fomos obrigados a tomar, por decisões do Governo e da Troika. Foram momentos angustiantes.
Penso que este terceiro mandato, pode ser um mandato de alguma serenidade, de alguma acalmia e uma consolidação de uma visão estratégica que tínhamos quando entrámos para a Câmara e fomos consolidando.
É, portanto, um turbilhão de sentimentos dificilmente expressos em palavras, e principalmente em palavras que tenho que sintetizar, numa leitura destes dez anos.
Mas, também, penso que ainda não estamos em tempo de balanço, ainda estamos em tempo de construir o presente e semear futuro.”
UMA FORMA DE FAZER POLÍTICA
Nesta reflexão nota-se que o 1º mandato foi marcado por uma ideia galvanizadora, centrada em quê?
“Eu diria que foi centrado em diversos projectos, alguns mais substanciais, nomeadamente em torno das acessibilidades do concelho, para o exterior e com o território da Baía do Tejo.
Refiro a perspectiva que havia de dinamizar o território da Baía do Tejo, do ponto de vista do emprego e do desenvolvimento económico, um projecto que era marcante para o Barreiro, para a região e para o país.
A forma como começámos a olhar, de maneira diferente, para a frente ribeirinha, mais de acordo ao que ao longo dos anos, no essencial, foi a vida do concelho.
A importância que demos a Coina como polo de desenvolvimento regional. Também, devo referir, um conjunto de ideias que marcaram o mandato e que marcam os diferentes mandatos, nomeadamente, uma forma de fazer politica, no estreitar as relações com as pessoas, com as entidades e todos aqueles que intervêm na vida do concelho, porque todos são indispensáveis para construir a vida do Barreiro.
ARCO RIBEIRINHO SUL NÃO FOI POSTO EM CAUSA
Uma ideia marcante desse mandato foi a Terceira Travessia do Tejo e o projecto do Arco Ribeirinho Sul. Tudo isso está perdido?
“A minha convicção mais profunda é que o projecto Arco Ribeirinho Sul deu passos atrás, mas, o projecto Arco Ribeirinho Sul não foi posto em causa, e, portanto, é preciso continuar de forma persistente, multifacetada, construindo muitas pontes, com entidades, com sectores, para dar consistência ao projecto do Arco Ribeirinho Sul e a sua concretização com carácter nacional e essencial para a Área Metropolitana de Lisboa.
Eu tenho a convicção profundíssima que a Área Metropolitana de Lisboa só assumirá um papel no país, quando olhar de forma distinta para os concelhos do Arco Ribeirinho Sul – Almada, Barreiro, Seixal, Moita, Montijo e Alcochete - e quando olhar para a margem sul, só assim a região de Lisboa pode contribuir para o desenvolvimento do país.
Mais que um problema local, ou regional de Setúbal é do interesse da Área Metropolitana de Lisboa e do país. Por tudo isso, eu acho, que o projecto do Arco Ribeirinho Sul não está posto em causa, não foi posto em causa, apenas deu passos atrás.”
TERCEIRA TRAVESSIA DO TEJO NÃO É INVIÁVEL
“Relativamente à Terceira Travessia do Tejo, o que penso, é a minha opinião, que, mais cedo, ou mais tarde, vai ser concretizada.
Admito que a Terceira Travessia do Tejo teve atrasos, retrocessos no tempo, mesmo significativos, mas digo, não me parece que seja um projecto inviável, tanto mais que Portugal precisa de uma ligação à Europa, seja TGV ou de alta velocidade, e, como sabemos a Terceira Travessia do Tejo é indispensável neste projecto de ligação a Espanha e à Europa.
O país tem vindo a dizer, em palavras, que Portugal tem ser a porta atlântica da Europa. Sobre isto estamos de acordo.
Mas, na verdade, Portugal só se assumirá como porta atlântica da Europa, se tiver ligações, e essas ligações são aeroportuárias, portuárias, de navegabilidade,ferroviárias e rodoviárias.
Por isso continuo a considerar que a Terceira Travessia do Tejo, do ponto de vista da ligação de Portugal com a Europa é importante, e, continuo a considerar que ela, do ponto de vista da ligação da margem sul à margem norte, de forma a transformar Lisboa numa cidade-região, numa cidade de duas margens, numa cidade polinucleada, numa cidade de cidades, a Terceira Travessia do Tejo, é importante.
Além de que, quer do ponto vista ferroviário, quer do ponto de vista rodoviário, especialmente, para esta bacia do Barreiro, Seixal, assim como, para parte significativa da Moita, de Sesimbra e até de Palmela, por tudo isto, e pelo avolumar de tráfego na Ponte 25 de Abril, acabará por ser necessária a construção da Terceira Travessia do Tejo.
LIGAÇÃO DIRECTA DO BARREIRO À PONTE VASCO DA GAMA
Pelo que é apontado pelo Governo e até, com a concordância do Partido Socialista, a solução Montijo é a aposta para o alargamento do aeroporto de Lisboa. Como encara esta opção?
“Mantenho a posição que sempre tive, sou defensor da solução que aponta para o arranque da chamada fase zero do novo aeroporto, no Campo de Tiro de Alcochete. Esta era a opção que eu decidia.
Pelo que é dito, a solução Portela +1 é a que provavelmente vai avançar, esta não é a minha opção, até porque, é preciso ponderar um problema que não é pequeno, que são os cones de aproximação dos aviões à base aérea do Montijo, por uma parte do concelho do Barreiro e também do concelho da Moita.
Se a opção for a Portela + 1, na Base Aérea do Montijo, sendo concretizável, temos que analisar como isso pode beneficiar a região e o concelho do Barreiro.
Por isso temos vindo a analisar uma ligação directa do Barreiro à Ponte Vasco da Gama, articulada com a Ponte Barreiro – Seixal, isso, de alguma forma, podia ser um contributo do novo aeroporto para melhorar as acessibilidades na Península de Setúbal, e muito importante para o concelho do Barreiro, que ficaria com duas novas ligações, que o aproximava das duas pontes.
Estas duas ligações no Tejo e no Coina, aproximariam duas zonas com pólos logísticos importantes – como o território da ex- CUF, no Barreiro e o território da Siderurgia Nacional e também na Margueira, e, de facto isto tem muita importância, porque, todos temos presentes que estudos mais aprofundados sobre o novo aeroporto de Lisboa, em Alcochete, o que se previa é que a chamada “cidade aeroportuária”, não se situava nos terrenos adjacentes do aeroporto, em Rio Frio, mas sim nos antigos territórios industriais, particularmente no Barreiro e Seixal.
De alguma forma, esta ideia pode, e deve, ser retomada, sendo adaptada, no âmbito da solução Portela +1.”
QUESTÃO DO AEROPORTO FOI SEMPRE ACOMPANHADA
“Já agora, gostava de referir, que há uma parte da minha intervenção, enquanto presidente da Câmara que é pública, mas há uma parte da minha intervenção, que considero institucional, de diálogo na procura de soluções, essa, de facto, é menos pública, e, não deve na minha opinião ser tornada pública, porque os processos têm desenvolvimentos.
O que quero dizer é que acompanhei sempre, muito de perto, com a intervenção adequada e que foi possível, esta matérias de importância regional, para salientar que a questão do aeroporto foi sempre acompanhada, por parte do Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, de forma muito atenta e. interventiva.”
GOVERNO TEM VINDO A DESENVOLVER PROJECTO
O projecto Intermodal está na ordem do dia, mas,por exemplo, não consta do Programa Eleitoral da Frente Eleitoral que compõe o actual governo. Como interpreta isto?
“Não significado a essa matéria. O projecto intermodal do novo Porto no Barreiro, tem vindo a fazer o seu caminho, que tem tido uma atenção do Presidente da Câmara do Barreiro, mesmo quando o projecto não estava em cima da mesa.
Sempre nos batemos, e todos os presidentes da Administração do Porto de Lisboa, com quem tive oportunidade de contactar, sabem dessa nossa pretensão de dar atenção e valorização da actividade portuária no Barreiro, com propostas concretas.
O projecto do Porto de Lisboa no Barreiro está a fazer o seu caminho, o concurso de estudo de impacto ambiental e estudo prévio estão a decorrer. Foi aprovada uma candidatura, por Bruxelas, de estudos e trabalhos relacionados com este Terminal, eu diria, que esta é uma boa noticia, na medida em que Bruxelas está disponível para financiar esses estudos, quer dizer se os estudos vierem a comprovar, e, como tudo indica comprovarão a viabilidade do Terminal, então, Bruxelas, certamente, estará disponível para apoiar o financiamento de obras relacionadas com a
concretização do Terminal.
Essas é que são as boas noticias. Agora, nós sabemos e sempre soubemos, que a actividade portuária, e particularmente a actividade portuária em Portugal, com a importância que tem e que vai ter, mobiliza muitos interesses, muitos meios económicos e financeiros, por isso, é natural que hajam hesitações, a todos os níveis.
Não quero concluir que o PSD e o CDS, quando no seu programa não referem o Terminal, por razões depressão, ou por razões meramente eleitorais, o facto é que não referem, mas, na verdade, é este Governo, através de várias estruturas e entidades, tem vindo a desenvolver este projecto.
Não quero acrescentar valor substancial, não deixo de constatar que no Programa Eleitoral do PSD e CDS, não há referência a este Terminal.”
MOINHOS - ADQUIRIR PARA INTERVIR
Os Moinhos de Alburrica são propriedade da Câmara Municipal do Barreiro. Há alguma ideia concreta sobre projectos a desenvolver?
“Os três Moinhos de Vento de Alburrica são propriedade da Câmara. Temos o Moinho de Maré, o Moinho Pequeno que é propriedade da Câmara, e existe um acordo para a compra do Moinho Grande.
Ainda há mais dois Moinhos de Maré que são privados. Nós consideramos, como temos afirmado, este é um importantíssimo património paisagístico, ambiental, mas também do ponto de vista de memórias, por isso, é nossa convicção que temos que continuar a trabalhar no sentido de manter as intervenções na zona ribeirinha, nos Moinhos, nas caldeiras, em todas as zonas à volta dos Moinhos.
A nossa intenção é adquirir para intervir, indo aos poucos, revitalizando e requalificando. Alburrica tem uma grande riqueza de paisagem e ambiental, portanto, é nossa intenção continuar a intervir, assim como na zona do Clube Naval do Barreiro.
Admitimos, ainda este ano intervir em Alburrica, nos acessos aos Moinhos de Vento, desenvolvendo uma limpeza ais profunda, mas, também é nossa intenção intervir no Moinho Pequeno e, pelo menos, nas comportas do Moinho Grande.
Queremos manter uma intervenção permanente naquela zona.
Temos candidaturas apresentadas a Bruxelas, já aprovadas, no âmbito do Pacto da Área Metropolitana de Lisboa, que visam intervenções no Moinho Pequeno e nos Moinhos de Vento.”
INTERVENÇÃO NA ZONA RIBEIRINHA.
“E, não queremos ficar por aqui na intervenção na zona ribeirinha, queremos ir mais longe, temos propostas e projectos, nomeadamente acabar a zona do POLIS, no ano 2016.
Para nós, toda a zona ribeirinha, do Lavradio a Coina, integra-se nesta visão que temos de intervenção na zona ribeirinha.
O Porto se vier, como esperamos, dará uma boa ajuda na recuperação da zona ribeirinha, e, naturalmente, pode dar uma grande ajuda, na recuperação da zona do Lavradio, embora, ali, existam problemas que temos que ter em conta, os Montes de Gesso.- como se diz em linguagem corrente – e, outro, a existência de uma frente de rio com fábricas.
Depois, existem na zona ribeirinha, quer no Lavradio, quer noutras zonas do concelho, áreas de actividade particular, com barracas de pescadores, que temos que analisar com muita atenção, situações que devem ser abordadas numa gestão de muita proximidade.”
SITUAR DEGRADAÇÃO NO BARREIRO VELHO É PARCIAL
Foi assinado um protocolo com a Policia de Segurança Pública, que se vai instalar na zona do Barreiro Velho. Uma das queixas das pessoas da zona é a insegurança e a degradação do ambiente, até devido à ocupação de casas. Como acompanha esta situação?
“Sobre esta matéria é preciso analisar que a autarquia acompanha a situação e medidas que são tomadas, por vezes isoladas, inserem-se numa estratégia global, porque a estratégia global concretiza-se com o conjunto de pequenas medidas, que parecem que são isoladas.
O Barreiro Velho é um problema sério, por razões materiais, económicas e até emocionais. É preciso olhar a realidade, tentar perceber essa realidade e os porquês dessa realidade e pensar como é possível intervir para a alterar.
Mas, o Barreiro tem 5.000 fogos desocupados. O Barreiro tem 2.000 fogos que estão autorizados e que não são construídos.
Portanto, situar a degradação física do edificado no concelho do Barreiro, apenas no Barreiro Velho é uma avaliação parcial.”
BARREIRO VELHO TEM UMA DIMENSÃO FÍSICA E EMOCIONAL
“O Barreiro Velho tem uma dimensão física, uma concentração e tem um problema emocional. Muitas pessoas nasceram ou viveram parte da sua vida no Barreiro Velho, ou tem ali familiares. Ou a geração mas nova foi ali que viveu e vive os convívios da noite.
Eu nasci ali e sempre vivi ali, foi ali a minha juventude e a minha vida. Recordo o toque da buzina dos Bombeiros, quando havia fogos, a minha equipa do Casalense, que participou nos Jogos Juvenis o Teatro-Cine e os Ferroviários e a Escola Conde Ferreira. Fui dirigente de «Os Penicheiros» e do Luso. O Barreiro Velho é tudo isto, estas memórias.
Não se resolve o problema do Barreiro Velho com afirmações e com ideias brilhantes que depois é preciso concretizar.
A generalidade da propriedade do Barreiro Velho é privada, alguma micro propriedade, alguma dela com diversos herdeiros, que nem sempre se entendem uns com os outros, os preços dos terrenos e das casas no Barreiro Velho não é barato.
No meio de tudo isto, a Câmara Não tem meios financeiros para adquirir o Barreiro Velho, ou parte significativa
do Barreiro Velho, mas mesmo que tivesse para adquirir, o problema é depois o que se faz, porque é preciso recuperar, é preciso desocupar.
Nós, temos feito tudo o que é possível, acreditamos que é possível ir mais longe, em tudo na vida é possível ir mais longe, por exemplo o que estamos a fazer com o Café Barreiro. Pergunto: é esta a solução ideal? Se calhar não é. Mas, o que nós quisemos foi resolver um problema, porque as soluções ideais não resolvem.
Assim como encontrámos uma solução para a Escola Conde Ferreira, com um conjunto de associações.
Definimos isenções de custos na recuperação de casas, no caso do IMI baixámos. Intervimos de forma significativa na Avenida da Praia e na Migue Pais, no largo da Igreja, vamos intervir em 2016 e 2017, em alguns espaços públicos no
Barreiro Velho. Mas, todas estas medidas não invertem a situação.”
DESERTIFICAÇÕES DOS CENTROS HISTÓRICOS NO PAÍS
“Porque, quero recordar, que o problema das desertificações dos centros históricos, não é um problema do Barreiro. Veja-se o país.
O problema de fundo está ligado a perda de população e à perda de emprego no que diz respeito ao Barreiro.
E, não esqueçamos que há estudos que referem que a população do país vai baixar, está previsto que vamos perder 1 milhão de habitantes na próxima década.
Mas o país tem casas e estrutura de funcionamento das cidades e do país para o número de habitantes que hoje temos, não para o que vamos ter e perder, portanto a tendência será haver cada vez mais casas desabitadas.
No Barreiro, ou há investimentos âncora que permitam mudar, esta perda de população, ou é inevitável, tal como no país e na Área Metropolitana, perder população”.
FÁBRICA VAI ARRANCAR EM PALHAIS
A propósito de investimentos âncora a nova fábrica anunciada para Palhais sempre vai avançar?
“Queremos que sim, Pediram para fazer movimentação de terras, quer dizer que em principio é para avançar. A informação que nós temos é que sim, não tenho informação sobre o período previsto para a concretização das obras.
SITUAÇÃO FINANCEIRA ESTÁ EQUILIBRADA
Financeiramente como vai a Câmara Municipal do Barreiro?
“A Câmara tem feito um esforço imenso, imenso, eu diria que perante este esforço a Câmara está numa situação razoável.
Há receitas que se mantêm estáveis, outras baixaram ligeiramente, outras estão significativamente abaixo. Nós estamos a tomar medidas, o que posso afirmar é que nós recuperámos significativamente a situação financeira e está equilibrada.
S. P.













