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Perspectivas

Sara Oliveira, Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro«É muito difícil ver pessoas sofrer e sentirmos a impotência»

. Instituição conta com 350 trabalhadores e presta serviço a mais de 650 utentes

. Cozinha Central confecciona 1.200 refeições por dia

“Gostava que as pessoas conhecessem a instituição. Estou disponível para conversar com as pessoas, para mostrar o espaço e percebam o que se faz, por dentro daquele portão verde, que por vezes as pessoas passam com muita indiferença e nem percebem o que se faz aqui dentro.”, salienta a Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, numa entrevista ao jornal «Rostos».

9 min de leitura
Sara Oliveira, Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro «É muito difícil ver pessoas sofrer e sentirmos a impotência»

Por Jornal Rostos

Sara Oliveira, Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, vive o seu quotidiano por dentro da vida daquela que é a mais antiga instituição do concelho do Barreiro.
A Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, nas suas diversas valências conta com 350 trabalhadores e presta serviço a mais de 650 utentes, entre os internos, centro de dia, apoio domiciliário, creche e apoio social.
Sara Oliveira, numa visita que nos proporcionou às instalações permitiu-nos conhecer os diversos Lares, nos dias de hoje denominados – ERPIS – Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas.

Similar a um Hospital de Retaguarda

O Lar Nª Srª do Rosário destina-se a apoiar pessoas muito dependentes do ponto de vista fisico – “é muito similar a um Hospital de Retaguarda” – funciona 24 horas por dia. Tem serviços de enfermagem, médico e fisioterapia.
Aqui presta-se serviço a 78 utentes.

Dar todas as condições de saúde aos utentes

O Lar de S. José, destina-se a idosos, com um perfil diferente. Mas hoje, refere cerca de 60% dos utentes têm um grau de dependência muito semelhante aos do Lar de Nª Srª do Rosário.
“Nós procuramos dar todas as condições de saúde aos utentes. A Segurança Social não prevê o apoio de saúde que nós estamos a dar. Fazemos isso com algum esforço financeiro”, refere Sara Oliveira.
É garantida a presença de um médico 3 vezes por semana e 12 horas por dia de apoio de enfermagem.
Aqui presta-se apoio a 84 utentes.

Os idosos passam o dia connosco

Outro serviço é o Centro de Dia, ligado ao Lar de S. José, com capacidade para 25 utentes, é um serviço que tem vindo a reduzir a procura, no entanto, sublinha a Provedora, nos últimos meses voltou a registar-se de novo a procura deste apoio.
“Vamos a casa de manhã buscar os idosos, passam o dia connosco e regressam à noite”, sublinha.

Dar resposta aos mais carenciados

A Comunidade de Inserção é outra das estruturas que funciona na Santa Casa da Misericórdia cuja finalidade é dar apoio aos mais carenciados, ao nível da alimentação, tratamento de roupas e higiene pessoal.
Este é um serviço que dá apoio aos sem abrigo e a pessoas que vivem em condições precárias.
Temos acordo para prestar apoio a cerca de 60 utentes, mas o número de pessoas é muito mais elevado, sublinha Sara Oliveira.
Ainda dentro desta comunidade funciona a Cantina Social, que começou por dar 100 refeições diárias.
“Sabemos que o governo tem como intenção acabar com estas cantinas sociais e propõe outro tipo de apoio ao nível de alimentação com fornecimento de géneros. Há muitas pessoas que não têm condições para confeccionar. Neste momento estamos com 50 utentes. Mas damos mais refeições que estas que estão protocoladas”, refere a Provedora.

Apoio domiciliários durante toda a semana

O Apoio Domiciliário garante apoio a 80 utentes, temos capacidade para 100 utentes.
Os utentes escolhem os serviços que têm necessidade, uns higiene pessoal, outros higiene das instalações e refeições.
Este é um serviço garantido durante os sete dias da semana.

Cozinha Central confecciona 1.200 refeições

Para garantir estes serviços funciona a Cozinha Central que confecciona 1.200 refeições por dia, para todos os lares, Creche, CAT, Apoio domiciliário.
São um total de 650 utentes diários.
Igualmente de referir o funcionamento da Lavandaria Central, que dá respostas internas e respostas sociais.
Para dar conforto e apoio quer aos utentes, quer aos visitantes, funciona um Bar.
As visitas têm um horário alargado, de duas horas para os lares das 16h00 às 18h00 e das 14h00 às 19h00, na Unidade de Cuidados Continuados.

Cuidados Continuados apoio a 70 utentes

A UCCI Provedor Júlio Freire – Unidade de Cuidados Continuados, presta apoio a 70 utentes, dando resposta a duas vertentes – de longa duração ( 40 utentes) e média duração ( 30 utentes).
A média duração é mais vocacionada para a reabilitação. Uns utentes estão até 90 dias, com fisioterapia diária, terapeutas da fala e ocupacionais.
A longa duração é para períodos de seis meses – “mas infelizmente pela falta de resposta social que há, acabam por ficar muito mais tempo”, sublinha Sara Oliveira.
A Provedora salienta a importância da Farmácia Central, que dá resposta á Unidade de Cuidados Continuados e serve a comunidade de Inserção.

Condições renovadas e de modernidade.

O Lar de Nª Srª das Misericórdias, é um lar de idosos, com características idênticas ao Lar de S. José, presta apoio a 25 utentes, sendo 4 camas reservadas para a Segurança Social.
Um Lar que nasceu nas novas instalações, com condições renovadas e de modernidade.
Sara Oliveira, sublinha que um dos objectivos próximos será a renovação dos lares que funcionam há mais tempo, de forma a melhorar as suas condições.

Uma sala multi-sensorial

A Sala Snozelen, é uma sala multi-sensorial, que permite trabalhar as situações de AVC’s, Alzheimer e dá resposta a outras situações. “Tenho um protocolo com a Escola de Santo António de forma a permitir a utilização da sala pelos alunos com necessidades educativas especiais”, refere Sara Oliveira.
“Esta é uma sala que queremos abrir para a população do Barreiro”, acrescenta.
Esta sala surgiu em sequência da candidatura a um projecto do BPI. Foi um projecto vencedor, tendo sido atribuído à Santa Casa da Misericórdia do Barreiro – o Prémio Inovação, pelas características especificas de abordagem de terapêuticas da fala, devido à existência de auscultadores de transdução óssea.

Creche em Palhais

Para além dos Lares e serviços que funcionam nas instalações centrais, na Rua Miguel Bombarda, a Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, mantém a Creche Rainha D. Leonor, em Palhais, que tem capacidade para 83 utentes, mas serve 66 utentes, dos 0 aos 3 anos.

Apoio a mães solteiras e crianças

E, também o CAT – Centro de Atendimento Temporário, no Largo de Santa Cruz, que tem duas valências.
O «Palhacinho», que dá apoio a meninos que são retirados às famílias, garantindo prestação de serviço a 15 utentes.
O «Beira Tejo», que dá apoio a mães solteiras, prestando serviço a 5 utentes.
“Normalmente está sempre ocupado. O apoio às crianças é sempre uma necessidade urgente”, refere Sara Oliveira.

Esta é a minha primeira casa

“Há muitos anos comecei, por coisas do destino, a viver todos os dias esta instituição. Foi no ano 2000, quando o meu marido foi aqui internado, por doença de Alzheimer.
Isso fez que começasse a viver diariamente esta instituição, ligando-me ao meu familiar e ao seu dia a dia”, sublinha Sara Oliveira.
Em 2005, a convite de Júlio Freire, integrou os Órgão Sociais – “foi aí que abracei esta causa”.
Sara Oliveira, recorda que a sua profissão é Professora de Português, no Agrupamento de Escolas de Santo António e que ao abrigo da mobilidade estatutária está a tempo inteiro na Santa Casa da Misericórdia do Barreiro – “porque aqui, os Corpos Sociais são voluntários e não auferem vencimentos”.
“Esta é a minha primeira casa, venho para aqui todos os dias de manhã e não sei quando regresso a casa. É o horário de santo, ou seja é quando Deus quiser. Ser Provedor não é o penacho que é importante. A minha forma de estar aqui é diariamente com toda a gente, arregaçar as mangas, ajudar os que precisam, seja em que circunstância for, é sobretudo amar o outro. Porque se nós não gostarmos do que fazemos, isso é sempre muito complicado. Vir para aqui, diariamente, dar conforto, dar carinho, dar alento aos que mais precisam, acho que é, de facto, a missão de qualquer pessoa numa instituição como esta”, refere.

Muito difícil ver pessoas sofrer e sentirmos a impotência

Sara Oliveira, recorda situações que marcam a sua vivência na instituição.
“Há situações marcantes, mas nós aprendemos a ultrapassar, porque o sofrimento é sempre muito difícil, ver que as pessoas sofrem e sentirmos a impotência que nada podermos fazer, sentimos que a única coisa possível é proporcionar o melhor”, sublinha.
Refere que o que mais faz sofrer é, para além do sofrimento dos idosos, é o sofrimento dos que menos têm – “gosto de estar aqui e chegar ao fim do dia e sentir que consegui ver alguém um pouco mais feliz”.

Todos os dias temos mais um desafio

A Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro sublinha que a maior alegria que sentiu foi ter conseguido inaugurar a Unidade de Cuidados Continuados e o protocolo para abrir o Lar da Nª Srª das Misericórdias.
“Nesta luta constante, para abrir estas duas valências não posso deixar de agradecer ao Presidente da União das Misericórdias, Manuel de Lemos, que tem sido um ombro amigo para a instituição”, sublinha.
“Neste momento sinto a instituição numa ebulição constante. Todos os dias temos mais um desafio.
Estamos com a reabilitação do Lar de S. José, que foi inaugurado em 1993, nunca sofreu qualquer remodelação, é o que estamos a requalificar para dar mais qualidade de vida aos nossos utentes”, salienta.

Barreiro carece de um Hospital de Alzheimer

O sonho de Sara Oliveira é fazer nascer este projecto no espaço onde, actualmente, funcionam os serviços administrativos da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, os chamados pavilhões – ou antiga Câmara de pau.

Depois de ter sido feita a cedência daquele equipamento por acordo de comodato, pela Câmara Municipal do Barreiro, na presidência de Carlos Humberto, a fase que se previa seguidamente era a entrega daquele espaço à Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, por permuta com a cedência de um terreno no Vale do Trabuco para a Câmara Municipal do Barreiro.
O assunto estava a decorrer, existiam conversações que vão continuar com o actual executivo municipal.

“O Barreiro carece de um Hospital de Alzheimer, que dê resposta de conforto e qualidade a esta epidemia do século”, sublinha Sara Oliveira.

Estou disponível para conversar

“Gostava que as pessoas conhecessem a instituição. Estou disponível para conversar com as pessoas, para mostrar o espaço e percebam o que se faz, por dentro daquele portão verde, que por vezes as pessoas passam com muita indiferença e nem percebem o que se faz aqui dentro.”, salienta a finalizar a Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro

S.P.

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