BarreiroJorge Amaral, treinador do Grupo Desportivo Fabril
“As pessoas que estão à frente do clube têm vontade de crescer”
Jorge Amaral começou a jogar futebol em pequeno nos bairros em Almada, onde cresceu e tornou-se jogador profissional aos 17 anos. A sua carreira levou-o a vestir a camisola de dois dos chamados “grandes do futebol”, o Sporting e o Benfica, mas as lesões e um acidente de viação, que teve aos 18 anos, acabaram por o “empurrar” mais cedo para fora dos relvados. Aos 34 anos iniciou a sua carreira de treinador no Seixal e hoje, com 37 anos, é treinador da equipa sénior de futebol do Grupo Desportivo Fabril, uma equipa que apelida de família. E porque diz ser ambicioso e persistente dá como meta a subida da equipa aos seis primeiros lugares da III Divisão Série F, para poder disputar a subida de divisão.

Por Jornal Rostos
Como descreve a sua passagem, enquanto jogador, pelo Sporting e mais tarde, pelo Benfica, os chamados “grandes do futebol”?
É um marco muito significativo. O sonho de qualquer jogador é jogar no Sporting ou no Benfica e eu tive esse privilégio, de poder pertencer a dois grandes clubes portugueses. Inclusivamente comecei a minha formação no Sporting, nas camadas jovens.
Uma vez que os seus primeiros “passos” enquanto jogador foram dados no Sporting, foi esse o clube mais marcante na sua carreira enquanto jogador de futebol?
Sem dúvida. A minha saída para o Benfica, em 94, onde estive uma época, não foi agradável, esteve relacionada com uma determinada situação. Na altura o Sporting tinha algumas pessoas na direcção que acabaram por deixar um pouco a desejar na sua liderança. E eu também tive uma certa culpa, porque era irreverente e quis sair, não quis continuar no Sporting com aquele presidente.
Como é que explica essa irreverência?
Era irreverente, não só enquanto jogador mas também a nível pessoal, agora já estou melhor, como é evidente, porque vamos começando a ser mais compreensivos. Mas continuo a seguir os meus princípios. Não deixo de ser assim, nem vou deixar de o ser. E de acreditar que posso ser alguém especial no futebol.
Qual é o balanço que traça em relação à sua carreira, enquanto jogador de futebol?
Eu sou optimista e, acima de tudo, ambicioso e penso que poderia ter feito muito mais e tinha essa obrigação de ter feito mais do que aquilo que fiz na minha carreira. Infelizmente, e é inevitável, também me posso queixar das lesões que tive. Fui operado sete vezes ao joelho, tive um acidente de automóvel aos 18 anos, depois do Campeonato do Mundo, que me ia deixando incapacitado. E custou-me bastante a recuperação, estive muito tempo afastado dos treinos, e penso que não consegui ser nunca mais o mesmo, mesmo depois de ter recuperado totalmente.
Enquanto treinador, iniciou a sua carreira no Seixal, na época de 2004/2005, como foi essa primeira experiência enquanto orientador de uma equipa?
Foi uma experiência muito enriquecedora. Inicialmente fui convidado pelo Seixal para ser jogador mas não aceitei. A última operação tinha demorado muito tempo a recuperar e tinha receio de continuar a jogar e de poder vir a ter mais alguma lesão grave. Achei que era tempo de parar e de optar por outro caminho e como já tinha o segundo nível de treinador na altura, perguntaram-me se queria ir enquanto treinador e aceitei. Fui para um clube que estava praticamente acabado, mas para mim, para além de ser a primeira experiência enquanto treinador, foi bom para ter o conhecimento daquilo pelo qual nunca tinha passado, uma realidade que me deu força e a aprendizagem para lidar com pessoas e clubes que têm grandes dificuldades financeiras, que é a grande maioria dos clubes de futebol em Portugal, principalmente na classe amadora.
Até que ponto é que considera importante para um treinador de futebol, já ter estado no outro lado da equipa, enquanto jogador?
Eu não tenho dúvidas nenhumas de que para se ser um bom treinador, tem de se ter sido jogador e isto não é “puxar a brasa à minha sardinha”. É muito importante ser um bom líder, saber falar com os jogadores e sensibilizá-los para aquilo que se pretende. Na realidade, o ter vivido no balneário enquanto jogador torna mais fácil perceber o “feedback” dos jogadores, porque como já estivemos no outro lado, sentimos a malandrice ou aquilo que é o cansaço dos jogadores. E como treinador de uma equipa amadora tenho também de ser sensível e perceber que os jogadores, nos seus empregos, também têm o seu desgaste, e o meu treino tem de ser sempre a pensar neles e naquilo que eles fazem e, às vezes, um bom treino é não treinar.
Disse numa entrevista que os princípios de “organização, disciplina e motivação” são essenciais para se chegar às vitórias. Como é que esses princípios têm tido eco na equipa do Grupo Desportivo Fabril?
A equipa do Fabril cedo percebeu que é impossível ter sucesso, se não houver organização e se não formos, acima de tudo, competentes e é preciso que consigamos encontrar um meio-termo entre o amadorismo e o profissionalismo, porque apesar de amadores, trato os meus jogadores como profissionais. E este meio-termo é ir ao encontro das capacidades dos jogadores, daquilo que eles têm para dar à equipa e tentar aproveitar o seu melhor para que a equipa, no seu conjunto, seja uma equipa na verdadeira acepção da palavra. Porque estamos a falar de um desporto colectivo, onde é muito importante o grupo, a amizade, a entreajuda, porque na realidade acabam por passar mais tempo uns com os outros, do que com a família. E dentro disto tudo o importante é o grupo, é serem uma família e só podemos ter sucesso assim.
É assim que caracteriza a equipa do Fabril, como uma família?
Sim. O Fabril tem um excelente grupo de trabalho, tem jogadores com muito carácter, que são amigos uns dos outros, e isso têm-no demonstrado dentro do campo. Os últimos três resultados acabaram por ser limitados por erros individuais, que a equipa tem sabido superar, e isso é muito importante para um treinador, saber que os jogadores estão a conseguir superar isso. E independentemente de termos tido três empates, eu estou bastante satisfeito com a prestação da equipa.
Qual é o projecto que traz para o clube?
Como disse há pouco, sou ambicioso e a minha vida tem sido mais ganhar do que perder e assim vou continuar, a atentar que o seja. E tenho esperança de que esta equipa tome um rumo certo em relação aos resultados. Se dermos continuidade ao bom trabalho, continuando a ser exigente, persistente e continuando a acreditar nas nossas capacidades, penso que vamos conseguir chegar aos seis primeiros.
E esse é o actual objectivo, chegar aos seis primeiros da III Divisão Série F?
Sim, depois de estarmos nos seis primeiros, tudo pode acontecer e penso que temos capacidades para chegar aos lugares de cima.
O Fabril tem vindo a superar as suas expectativas?
Quando cheguei cá, conhecia muito pouco o Fabril. Mas os jogadores surpreenderam-me, o modelo de jogo foi fácil de se desenvolver porque os jogadores acataram muito bem a forma de jogar.
E o que considera que falta à equipa, que ocupa actualmente o 12º lugar?
O que tem faltado à equipa, nos últimos tempos, tem sido um pouco a “estrelinha”. É o sofrer um golo aos 95 minutos, que ninguém gosta de sofrer, depois de termos controlado a equipa adversária durante todo o jogo, é o sofrer um golo do meio campo. Todas essas coisas são normais de acontecer no futebol, e a nós têm-nos vindo a acontecer, mas vai chegar a altura em que nós também vamos fazer golos sem querer. Penso que, tendo em conta a forma como a equipa encarou esta fase de mudança, vai ser muito complicado ganharem-nos.
E este é um projecto que pretende ficar ligado por muito tempo?
As pessoas que estão à frente do clube têm vontade de crescer, de levar este clube para outros patamares e eu também estou inserido nessa vontade. E como acredito em mim e nas capacidades desta equipa, acredito que somos capazes de acompanhar essa vontade, para que o Fabril cresça. É evidente que isto não pode passar só por palavras, temos primeiro de ter os resultados, para dar também estabilidade à equipa e para que depois esses mesmos resultados possam dar alguma ajuda à Direcção, na recolha de mais patrocínios e apoios. O clube acaba por estar ligado àquilo que vai ser o crescimento desta equipa e aos resultados que a equipa possa conseguir no futuro.
E falando no futuro, quais são as suas ambições e aspirações, enquanto treinador?
A minha ambição leva-me a crer que vou chegar ao patamar mais alto do futebol português, mas neste momento estou preocupado em conseguir que o Fabril consiga alcançar os seus objectivos e muito sinceramente, daquilo que a equipa tem demonstrado domingo a domingo, temos praticado um futebol bonito. Não temos ganho mas também não temos perdido e é preciso também olhar um pouco para o que é o futebol na III Divisão. Ainda não encontrei nenhuma equipa de futebol, a não ser o Campinense Clube, que se preocupe em jogar num ataque continuado, com a formação das suas jogadas a vir de trás. Penso que com alguma justiça, pois não têm sido justos os últimos resultados, dentro em breve o Fabril irá para os seis primeiros lugares e para disputar a subida de divisão. E é isso que tenho dito aos jogadores, que acreditem, como eu acredito neles. Não deixando nunca de salientar que o resultado é que conta e que nem sempre é como nós queremos. O futebol traz destas coisas, há as expulsões, as lesões, o mau momento de alguns jogadores. Tudo isto sabemos que acontece durante uma época e temos de ter essa noção e de estar preparados para reagir a esses momentos menos bons.
Andreia Catarina Lopes













